Crítica | O Silêncio dos Outros

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Entre os anos de 1936 e 1939, deflagrou-se a Guerra Civil Espanhola. As frentes políticas em luta viram, nesse período, a Espanha dividir-se em correligionários de distintas ideologias e defesa de diferentes modelos de governar o país. De um lado, uma aliança crítica entre Anarquistas e Comunistas e, do outro, os Nacionalistas — espinha dorsal ideológica do golpe de Estado em 36 –, um grupo extremamente conservador, falangista, de viés católico e maioritariamente aristocrático. Como resultado do grupo vitorioso, Francisco Franco assumiu o poder em 1939, encabeçando uma sangrenta ditadura que seguiria até 1975. Seguiu-se então a Transição Espanhola, cuja coroação ocorreu com as eleições de junho de 1977.

Nesse processo de fim de ditadura e chegada de um novo governo democrático (lembrando que em 1981 uma ala dos militares tentaram dar outro golpe, o 23-F, mas fracassaram) veio a Anistia, que tanto serviu para os presos políticos durante o Franquismo, quanto para os que participaram desse governo. O documentário O Silêncio dos Outros, dirigido e roteirizado por Robert Bahar e Almudena Carracedo, aborda exatamente as consequências para a base legal do que ficou conhecido como Pacto do Esquecimento, a Lei de Anistia da Espanha, aprovada em 15 de outubro de 1977 e colocada em vigor dois dias depois. A proposta dessa lei era para que a sociedade espanhola “deixasse de lado as diferenças e se esquecesse do passado para que pudessem seguir em frente“.

Neste documentário, filmado ao longo de seis anos, conhecemos algumas vítimas e familiares de vítimas da ditadura de Franco, que buscam por justiça. O ideal aqui, porém, é bastante complexo. Para alguns, na casa dos 80 anos, o desejo é de remoção dos ossos de parentes mortos pela ditadura das valas comuns. O desejo de enterrar os entes queridos. Para outros, a justiça se dará com uma forte posição contra a amnésia do Estado e uma revisão do Pacto do Esquecimento, trazendo à tona os crimes contra a humanidade. Pela lei espanhola, todavia, é impossível julgar uma pessoa por crimes cometidos durante a ditadura franquista, não importam as provas ou os depoimentos de indivíduos torturados. O filme começa com um pouco de dificuldade para organizar as ideias, mas quando elas se estabelecem, entendemos os muitos lados, os sonhos e os caminhos legais que a representação de Direitos Humanos tenta mover contra os torturadores.

O desenvolvimento da fita toca em outros pontos sensíveis como o de crianças desaparecidas (roubadas de suas mães no dia do parto e reportadas como mortas — embora esse não seja um caso exclusivo da Espanha), nomes de ruas em Madri com nomes de militares do regime franquista e outros relatos pessoais envolvendo a Resistência que também aparecem no enredo. Em alguns momentos, as linhas de abordagem interagem bem, mas o miolo do documentário acaba sendo um pouco bagunçado. A quantidade de assuntos e o tempo que demorou para ser feito, especialmente quando aborda o “Processo Argentino”, acabam se sobrepondo. Como não são assuntos fora do período retratado, é possível recebê-los bem, no todo, mas alguns atalhos bem que poderiam ser deixados de fora, pois desviam bastante a nossa atenção.

A discussão para salvar a memória, para fazer com que a História seja ensinada e crimes contra a humanidade sejam punidos é o grande ganho de O Silêncio dos Outros. Um filme sobre como um longo período da História de um país é comunitariamente deixado de lado em prol de uma suposta “união de lados”, algo que o tempo deixa claro que nunca aconteceu. Ao contrário, o cio do período com o qual não fez a devida leitura, abordagem, punição e total exposição, volta à tona. Se para nações onde a memória histórica passou pelo devido tratamento expositivo, isso ainda acontece, imaginem só para aquelas em que o silêncio sobre o que aconteceu e a incorporação dos mesmos agentes da ditadura na nova democracia foram as ordens do dia! O Silêncio dos Outros é um documentário sobre falar a respeito dos horrores que um dia banharam a nação de sangue. Denunciar. Lidar com os algozes da História. Jamais escondê-los.

O Silêncio dos Outros (The Silence of Others) — EUA, Espanha, 2018
Direção: Robert Bahar, Almudena Carracedo
Roteiro: Robert Bahar, Almudena Carracedo, Ricardo Acosta, Kim Roberts
Duração: 96 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.