Crítica | O Silêncio (1963)

estrelas 5

Ingmar Bergman é um daqueles cineastas que durante sua carreira exaltou o cinema em todas as suas categorias. Os campos temáticos de seus filmes vão da Idade Média (A Fonte da DonzelaO Sétimo Selo) ao mundo conturbado e fragmentado do século XX (Sonhos de MulheresDa Vida das Marionetes, Saraband) e retratam de forma poética a existência humana e as dificuldades e pulsões pelas quais essa existência se arrasta. Após uma fase neorrealista ao fim dos anos 1940 e de uma estruturação temática com ganho de estilo próprio e maturidade nos anos 1950, ele produziu uma sequência de obras-primas onde toda a incredulidade com o mundo, o descaso irônico com as relações amorosas e religiosas e sua posição social e cultural estariam à flor da pele.

Um dos primeiros resultados desta manifestação de genialidade estruturada nos anos 1960 foi a posteriormente denominada “Trilogia do Silêncio”, composta por Através de Um Espelho (1961), Luz de Inverno (1963), e O Silêncio (1963).

O Silêncio não foi apenas o desfecho da Trilogia, mas o início de uma nova liberdade artística para Bergman, tanto no sentido monetário junto ao estúdio, quanto no sentido de “prestar-se a escrever e filmar determinadas coisas”, onde a ousadia, em diversas modalidades e medidas, seria o núcleo de boa parte das produções posteriores, culminando em Persona (1966).

Foi em O Silêncio que o cineasta esbanjou tudo o que havia proposto em sua carreira até então, e foi neste filme que o frenesi erótico, a histeria, a sensibilidade, a inocência e “a vida como espetáculo” mostrou-se pela primeira vez de forma completa em uma obra sua.

O longa nasceu das explosões e do sufoco de um Concerto para Orquestra de Béla Bartók. Quem conhece a obra do compositor entende o clima claustrofóbico que se vê no início de O Silêncio, quando três protagonistas estão em um trem, visivelmente sufocados pelo calor. O que se segue é a (não)-relação entre as irmãs Anna e Esther, e a ambiguidade do relacionamento entre Anna e seu filho Johan.

Pela fragilidade da saúde de Esther (a irmã mais velha), os três são obrigados a interromper a viagem e descansar em uma cidade não identificada — o anonimato social é o plano de fundo de toda a trama, algo que, de início, já nos alerta para não darmos importância demais aos tanques de guerra que tem o papel do “evento de coação”, assim como as epidemias e o estardalhaço da violência que se vivia nos anos 1960.

A estadia de Esther, Anna e Johan acabará por se revelar caótica e deixará vir à tona a repressão ou a exposição dos desejos, o vazio existencial das personagens e o mundo paralelo (um tanto autista) que vemos Johan criar para si, vez ou outra saindo dele e se deparando com uma tia neurótica e doente, e uma mãe voluptuosa e inconstante. As dificuldades de distribuição e classificação etária da fita preocuparam a Svensk Filmindustri, que posteriormente não acreditaria (assim como Bergman) no sucesso de bilheteria e na difamação que o filme receberia desde a projeção inaugural.

Escrito e dirigido por Bergman, O Silêncio é um angustiante grito de socorro. Já no no plano inicial, a câmera está fixa e mostra em primeiro plano o pequeno Johan dormindo. À direita, a sexy Gunnel Lindblom (Anna), com a boca entreaberta e o decote mostrando parte dos seios, abana-se, languidamente. Ao seu lado, uma séria e formal Ingrid Thulin (Esther) olha para o chão, visivelmente oprimida. Os três estão em um trem, mas não se ouve nada. Os atores, dispostos de forma teatral, executam uma encenação que substitui qualquer diálogo. A fotografia de Sven Nykvist é opressiva, genialmente montada para inserir o espectador no mundo sombrio, pulsante e apertado das personagens. Os tons claros das roupas dos atores contrastam com o escuro do vagão e da paisagem exterior — que apenas em um momento se revela acolhedora, e só pelo olhar de Johan, quando ele se deslumbra com o sol através da janela.

A primeira tentativa de comunicação no filme é infrutífera. Johan pergunta para Esther o que está escrito em um aviso que há na porta da cabine. Ela não sabe dizer. Mesmo sem saber o quê, o garoto lê o conteúdo do papel por proximidade fonética. Assim como a cidade, a língua falada não existe.

O quarto onde os três ficam é um bom exemplo do elemento espaço-teatral que transpassa o filme. São claramente definidos dois cenários: o quarto de Esther, cuja cama é o foco central da morbidez da personagem; e o quarto de Anna e Johan, amplamente explorado, do sofá, ao banheiro. É a partir deste quarto que uma outra esfera de relações entre o trio se revela.

A convivência que vemos acontecer no filme é um processo de “queda das máscaras”. Nada é o que parece. As duas irmãs fingem o tempo inteiro e sofrem quando seus fingimentos são rasos demais para se segurarem em situações específicas. Talvez a única personagem que não se encaixa nesta visão seja Johan, que tem outras preocupações — como a necessidade heroica, escapista e masculina de sair atirando com seu revólver de brinquedo — e que durante a estadia vai se deparar com momentos importantes para ele em diversas intensidades: os anões circenses, o velho camareiro e suas carícias, o amante da mãe e a crise da tia.

A rede intricada do existencialista e psicanalítico roteiro passa pelo lesbianismo de Esther e seu desejo pela irmã como também pelo (outro) incesto, que é o de Anna em relação a Johan. Este, por sua vez, não permite que a tia o toque ou o acaricie, ao que esta, meio decepcionada, diz: “Só a mamãe pode te tocar, não é?”. O ambiente fica cada vez mais opressivo. Mesmo o sexo, que aparentemente seria a válvula de escape, torna-se lancinante — a cena em que Anna assiste a relação de um casal, no cinema, é particularmente reveladora nesse sentido. Ainda poderíamos acrescentar no mundo-espetáculo do filme a apresentação de fantoches que Johan faz para a tia, a conversa sartreana que as irmãs têm no quarto com o amante ouvindo-as e o bilhete que Esther escreve para Johan, quando ele se vai: tudo representação.

Com esplêndidas interpretações e excelente direção, O Silêncio é um filme para ver, sentir e pensar. Os lapsos de música (jazz, Bach, pop), a direção de arte que vai do grotesco cinema de rua ao quase pomposo quarto de hotel, os figurinos que servem como uma carta de apresentação emocional das personagens e a bela e bem modulada fotografia de Sven Nykvist são elementos de um patamar artístico aplaudível que fez de O Silêncio um manifesto ao frenesi subconsciente. Deus, como era de se esperar, não se revela ou se faz sentir. Diante de muitos desejos, nenhuma resposta. Apenas o silêncio.

O Silêncio (Tystnaden) – Suécia, 1963
Direção: Ingmar Bergman
Roteiro: Ingmar Bergman
Elenco: Ingrid Thulin, Gunnel Lindblom, Birger Malmsten, Håkan Jahnberg, Jörgen Lindström
Duração: 96 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.