Crítica | O Sobrevivente (1987)

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Stephen King e Arnold Schwarzenegger são dois importantes nomes da cultura pop que alcançaram o auge de sua popularidade durante os anos 1980. King publicou algumas de suas obras mais célebres durante este período, ao mesmo tempo em que se tornou um dos autores mais adaptados para o cinema. Schwarzenegger, por sua vez, estrelou alguns dos filmes mais icônicos desta década, como Conan: O Bárbaro (1982), O Exterminador do Futuro (1984) e Comando Para Matar (1985), por exemplo. Embora tenham obtido reconhecimento mundial na mesma época, é em um primeiro momento bastante difícil imaginar o nome dos dois atrelados a um mesmo projeto. Mas foi isso que aconteceu em 1987, quando o ator austríaco estrelou O Sobrevivente (The Running Man, no original) baseado no romance de mesmo nome (publicado no Brasil como O Concorrente) escrito por King sob a alcunha de Richard Bachman.

O filme, dirigido por Paul Michael Glaser, se passa em 2019, quando, após um colapso econômico, os Estados Unidos tornou-se um Estado totalitário. É neste mundo que vive Ben Richards (Schwarzenegger), um piloto de helicóptero da polícia que se recusa a atirar em um grupo de civis desarmados que protestava pacificamente. Quando os manifestantes são massacrados, de qualquer forma, pelas forças policiais, Ben é apontado como o único responsável, sendo preso injustamente. Após uma tentativa de fuga mal sucedida, o ex-piloto é enviado para o programa de televisão que dá título ao filme, um Reality Show mortal comandado por Damian Killian (Richard Dawson), onde os participantes devem sobreviver à uma caçada humana realizada por assassinos dentro de uma região isolada da cidade, em troca de anistia e de um prêmio em dinheiro.

O roteiro escrito por Steven E. De Souza utiliza apenas o nome de alguns personagens e a premissa básica do romance de King, de um Reality Show mortal usado como ferramenta de alienação por um governo totalitário para construir uma típica aventura de “ação brucutu” oitentista. Não por acaso, De Souza colaborou no roteiro dos dois primeiros filmes da franquia Duro de Matar, além de ter sido responsável pelo texto do já citado Comando para Matar. O roteiro claramente não se leva muito á sério como ficção científica, já que possui um forte tom satírico, mergulhando em todos os clichês possíveis envolvendo as tramas de futuro distópico. Para constatar isso, basta apenas observar o nome de alguns dos assassinos que caçam Ben no programa, como Buzzsaw, Fireball e Dínamo, cujos nomes fazem referência às armas de cada um deles, como uma motosserra, um lança-chamas e por aí vai. O Sobrevivente parece se assumir completamente como uma galhofa de ação, o que não significa que seja uma boa galhofa.

Um dos maiores problemas está na condução das cenas de ação. Não que essas cenas sejam mal dirigidas por Paul Michael Glaser, mas elas se tornam extremamente repetitivas e pouco dinâmicas, sendo variações umas das outras. Basicamente Schwarzenegger enfrenta um assassino, apanha um pouco, depois começa a bater e acaba matando o adversário com a sua própria arma, não sem antes dar a indispensável frase de efeito. O longa-metragem também não envelheceu muito bem visualmente. Mesmo que claramente se preste à sátira, é muito difícil não ficar incomodado com os ridículos uniformes dourados usados pelos participantes do Reality Show ou as armaduras utilizadas pelos assassinos do programa, que parecem saídas de alguma convenção de cosplays não muito bons de Comandos em Ação.

A fotografia utiliza muitas luzes coloridas quase estouradas para construir o senso de espetáculo do programa, mas acaba sendo um recurso estético que não funciona muito bem, não só dando ao filme um aspecto datado, mas também por ser um recurso utilizado à exaustão durante a obra, mudando-se apenas as cores das luzes de acordo com a ameaça enfrentada por Ben e seus aliados. A luz, entretanto, não é o único problema. Analisado esteticamente como uma ficção científica distópica, O Sobrevivente é um filhote típico dos anos 80. O que não é um problema, mas todos os clichês visuais da época são utilizados à exaustão e não de forma inteligente. Todos os signos estão lá: as ruas cobertas de fumaça de poluição, punks estereotipados e ricos com maços de dinheiro na mão assistindo TV enquanto apostam, mas tudo como se o diretor estivesse seguindo uma lista de coisas necessárias para se construir visualmente um cenário futurista distópico ao invés de parecer um processo natural.

Falando um pouco do elenco, além de Schwarzenenegger, que se limita a interpretar o típico herói durão de ação oitentista, o filme ainda conta com a presença de Yaphet Kotto — de Alien e 007: Viva e Deixe Morrer — como um dos aliados do protagonista, e de Maria Conchita Alonso como uma das poucas personagens femininas do filme, presente basicamente pra dar uma quebra em tanta testosterona. Mas o destaque do filme acaba ficando para o vilão vivido por Richard Dawson, que incorpora a natureza paródica da narrativa em seu maligno apresentador de Game Show, parecendo entender que este realmente não era um filme pra se levar á serio.

O Sobrevivente é um representante típico do cinema de ação dos anos 80 e uma sátira não muito bem realizada das ficções científicas distópicas da mesma época. Acabou se tornando um cult nos Estados Unidos ao longo dos anos, embora o autor Stephen King não tenha aprovado o resultado, tendo inclusive pedido para ser creditado no filme apenas com o pseudônimo de Richard Bachman, mesmo que na época todos já soubessem que Bachman e King eram a mesma pessoa. Embora muitas vezes eu tenda a discordar de algumas opiniões de King a respeito das adaptações de suas obras, neste caso, eu concordo completamente com o autor. E não por que o filme vai por um caminho totalmente diferente do material-base, e sim por ser um exemplo ruim do cinema brucutu oitentista.

O Sobrevivente (The Running Man). Estados Unidos, 1987.
Direção: Paul Michael Glaser
Roteiro: Steven E. De Souza
Elenco: Arnold Schwarzenegger, Maria Conchita Alonso, Richard Dawson, Yaphet Kotto, Jim Brown, Jesse Ventura, Erland Van Lidth, Marvin J. Mclntyre, Gus Rethwisch, Edward Bunker, Kurt Fuller, Sven-Ole Thorsen, Jon Cutler, Ken Lerner.
Duração: 101 Min.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.