Crítica | O Soldado do Futuro

Antes de trabalhar na longa franquia de filmes Resident Evil, Paul W.S. Anderson dirigiu O Soldado do Futuro, obra espiritualmente parte do mesmo universo de Blade Runner, funcionando como um sidequel, ou seja, com eventos que ocorrem em paralelo ao longa-metragem de Ridley Scott. Roteirizado pelo co-roteirista da clássica adaptação de Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, de Philip K. Dick, o filme de Anderson apresenta alguns conceitos similares ao seu “primo”, trazendo, inclusive, referências, como a batalha de Tannhauser Gate, citada por Roy Batty, em seu discurso próximo ao fim de Blade Runner, com um spinner aparecendo como easter-egg. Infelizmente, enquanto o longa de 1998 em tese herda o universo da obra de Scott, ela não apresenta sequer um terço de sua qualidade.

A trama tem início com o treinamento de Todd 3465 (Kurt Russell), criado desde cedo para ser o soldado ideal. De imediato ele já apresenta ter habilidades superiores aos seus colegas, fazendo dele o melhor de seu pelotão. Isso, porém, não é o suficiente para que ele supere os novos soldados geneticamente modificados do coronel Mekum (Jason Isaacs) e, em uma demonstração de proficiência, Todd é derrotado e tido como morto. Um tempo depois ele acorda no interior de uma nave de entulho, que o joga em um planeta distante, onde ele conhece uma comunidade que também ficara presa ali. Enquanto se aproxima dessas pessoas, o batalhão de Mekum é enviado para o mesmo setor, representando alto risco para todos que vivem ali.

Em essência, O Soldado do Futuro nada mais é que Pocahontas (ou Dança com Lobos) no espaço. O roteiro de David Webb Peoples é extremamente previsível e segue praticamente a mesma premissa desses dois filmes citados, com a principal diferença sendo, claro, o próprio Kurt Russell e seu personagem, que permanece calado a maior parte do tempo. Por ser completamente clichê, o texto já tira grande parte do envolvimento do espectador com os personagens da obra e Webb Peoples sequer se esforça para trazer algo de novo – do momento que Mekum anuncia a missão de ir até esse setor da galáxia, já sabemos precisamente o que irá acontecer.

Não ajuda, claro, o fato da construção de personagens ser praticamente inexistente. Como esperado, Todd é totalmente unidimensional e sua mudança de soldado impiedoso para homem preocupado com o bem-estar daqueles a seu redor não ocorre de forma gradativa, é apenas jogada em tela, com o texto sequer se preocupando em dar falas ao protagonista. A impressão que fica é que ele apenas luta para proteger aquela comunidade por ter se apaixonado por uma das mulheres locais, Sandra (Connie Nielsen) – romance esse, aliás, que é composto unicamente por trocas de olhares pouco expressivos, já que Russell veste o seu rosto de durão durante todo o longa-metragem.

Para piorar, a direção de Paul W.S. Anderson, que está longe de contar com uma invejável filmografia, parece se espelhar em aberturas de séries de televisão dos anos 1990, com direito a câmera lenta em excesso, alguns congelamentos que precedem a transição entre sequências, sem falar nas cenas de ação pouco envolventes, que apenas tornam evidente a péssima coreografia apresentada. A tragédia é tamanha que sequer conseguimos conter as risadas em determinadas cenas, de tão “bregas” ou artificiais, quebrando, claro, por completo a nossa imersão, que já era praticamente inexistente.

Nem mesmo esse universo “compartilhado” com Blade Runner soa tão atrativo aqui, já que os cenários são resumidos a terrenos sucateados, com poucos elementos a serem, de fato, observados pelo espectador. Em geral vemos ambientes ausentes de detalhes que permitem enxergarmos como é, de fato, aquela sociedade futurista, já que Anderson busca ocultar todo o espaço ao redor dos personagens, ora com planos mais fechados, ora com focos de luz ou escuridão, que nos impedem de explorar, com o olhar, todo o cenário. Trata-se, portanto, de uma ficção científica bastante pobre no seu visual, distanciando-se, dessa forma, de seu “primo”.

Mesmo que tenha sido imaginado como um sidequel da obra de Ridley Scott, O Soldado do Futuro soa muito distante de Blade Runner, configurando-se mais como um filme de ação genérico do que qualquer outra coisa. Com roteiro clichê e extremamente previsível, direção de arte pouco inspirada, direção que beira o ridículo e zero construção de personagens, não é a toa que esse filme tenha sido esquecido, já que sequer é capaz de entreter o espectador, por mais que esse almeje assistir algo descompromissadamente.

O Soldado do Futuro (Soldier) — Reino Unido/ EUA, 1998
Direção:
 Paul W.S. Anderson
Roteiro: David Webb Peoples
Elenco: Kurt Russell, Jason Scott Lee, Jason Isaacs,  Connie Nielsen, Sean Pertwee,  Jared Thorne, Taylor Thorne, Mark Bringelson, Gary Busey
Duração: 99 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.