Crítica | O Som ao Redor

estrelas 5,0

Kleber Mendonça Filho é um dos melhores cineastas do Brasil contemporâneo. Ao lado de Claudio Assis, Marcelo Gomes, Paulo Caldas e Lírio Ferreira, o profissional que escreve, dirige e ainda colabora na edição, representa a colaboração de Pernambuco para a produção cultural audiovisual do país. O Som ao Redor é a prova destes adjetivos: ácido, dinâmico, profundo e sem necessariamente obedecer aos ditames das narrativas clássicas, o filme poderia se chamar “Brasil”, tamanha a eficiência ao radiografar as principais questões que acometiam o país em 2012.

Visto hoje, representa as ressonâncias da época de seu lançamento. Um país dominado por uma classe média ávida por ascensão, em detrimento de determinados setores da sociedade, geralmente os menos favorecidos, para constar. Interessante observar que assim como Aquarius, a produção ganhou mais projeção em território estrangeiro. Nos Estados Unidos ficou entre os 10 melhores, numa lista que continha Django Livre e Lincoln, o segundo, em especial, exaltação dos valores americanos que eles amam tanto.

O filme todo se passa em Setúbal (região da classe média de Recife) e nos apresenta os dilemas dos moradores de uma rua, numa metáfora incisiva que parece costurar período colonial e a sua transição com a modernidade, com seus modelos e padrões sociais que insistem em continuar em vigor. Dividido em três partes, Cães de Guarda/Guardas noturnos/Som ao Redor, o filme apresenta um numeroso conjunto de personagens, mas os destaques são Bia (Maeve Jinkings) e Clodoaldo (Irandhir Santos), a dona de casa estressada com o cão do vizinho e o responsável pelo serviço de segurança particular da rua, respectivamente.

Gravitam em torno da dupla Francisco (W. S. Solha), um proprietário da maioria dos imóveis da rua, dono de um engenho de onde vem parte da sua riqueza; João (Gustavo Jahn), neto de Francisco, o “mauricinho”; Sofia (Irma Brown), espécie de guia da narrativa, responsável por nos apresentar a alguns dos personagens principais. Neste panorama microcósmico tem um pouco de tudo: o primo delinquente, o tio saudosista, o segurança prestativo, o avô poderoso etc, todos, por sua vez, unidos por uma linha reflexiva: estão preocupados com a segurança local ou constantemente são pegos recordando algo da infância.

É através deste argumento que somos apresentados a um feixe de elementos culturais brasileiros revisitados da melhor maneira possível. O racismo velado, o homem cordial, o patriarcado, as tensões entre a Casa Grande e a Senzala e mais contemporaneamente, o individualismo e o consumo e a especulação imobiliária.  Além destas questões críticas, a trama também comporta, sem excessos, um manancial de memórias.

A Casa Grande aparece desesperada através de excertos dos diálogos: “o quarto de empregada é com janela”. É notável como tal camada da sociedade parece agoniada e determinada em conter a invasão da senzala. A reunião de condomínio, então, é de uma ‘brasilidade” incontrolável, negativamente falando. O síndico impaciente, uma senhora chateada com o porteiro que entregou a sua “Veja” (berro e gritos com esta cena) fora do plástico. Há também o traficante entregador de água nas horas vagas, determinado a conquistar rizomaticamente o seu espaço, a diarista que leva as suas netas ao local de trabalho e a doméstica que faz sexo na lavanderia no expediente etc.

Apesar da forma escultural e cheia de estilo, O Som ao Redor ganha mais valor quando detemos o olhar para o roteiro. Escrito em 2008, demonstra que o texto passou por um processo de amadurecimento de quatro anos, tempo suficiente para colocar cada questão em seu lugar e entregar uma narrativa coesa e eficiente dramaturgicamente.  Os diálogos são construídos sem nenhuma película de proteção, sem artificialidades, em suma, é como se estivéssemos sentados em um local a escutar conversas alheias. A impressão, em certos momentos, é a de que estamos dentro do filme, como se fizéssemos parte daquele ambiente repleto de tensões.

Na seara da análise estética, o som é um dos melhores elementos trabalhados no filme, principalmente quando trabalhado fora de campo. Há duas músicas que se destacam, ambas oriundas do aparelho de som da personagem Bia: Crazy Little Thing Called Love, do Queen, e Charles: Anjo 45, interpretada por Caetano Veloso. Além disso há a presença frequente de sons, tais como risadas, ruídos, gritos, coisas arrastadas, carros barulhentos, em suma, sons da vida urbana.

“Ele é uma prova de vida, um elemento mal-educado, entra pela janela e nos incomoda”, afirmou o cineasta, quando falava do título e do “som’. No filme, isso fica bem delineado. É o barulho do cotidiano, do vizinho que nos incomoda, do sucesso de determinados indivíduos ou grupos que deixam outros com uma fatia menor do bolo etc. Nem é preciso observar detidamente para perceber como a narrativa flerta com o nosso imaginário acerca da classe média conservadora, um nicho de patrões, proprietários e donos do ponto de vista, entes que colaboram com a manutenção de práticas do passado.

Mas como apontado, o som pode ser um dos melhores elementos, mas a captação de imagens também demonstra excelência, numa prova de que não é preciso experiência vasta para o alcance primoroso da forma. As fotografias em preto e branco da abertura, numa alusão aos resgates da memória que são constantes, bem como o uso do primeiro plano focado em grades de residências e na arquitetura claustrofóbica que se constrói com paredes decadentes, corredores sinuosos e estreitos, uma piscina vazia, ruas vazias e escuras, porões abandonados e até mesmo uma ótima metáfora com um gato, animal conhecido por sua liberdade, a caminhar entre muros e obstáculos. No filme, a sua aparição se resume ao encarceramento.

No que diz respeito aos recursos metalinguísticos do filme, a imagem e o som esmiúçam a vida alheia, desde o porteiro flagrado dormindo, aos amassos do casal no elevador, ao vídeo de celular que registra um crime. Já no que tange aos aspectos culturais de Recife na atualidade, o filme consegue fazer um trabalho similar ao estilo documental. Nos últimos anos, a cidade tem sofrido os impactos de uma especulação imobiliária pouco antenada com as questões urbanas, ambientais, culturais e sociais. Aquarius, recentemente, nos reforçou esta “realidade”. Os arranha-céus, devidamente enquadrados num excelente trabalho de cinematografia, surgem e pressionam as figuras humanas que ocupam o centro deste espaço ofegante culturalmente.

O Som ao Redor foi um dos indicados para a seleção de filmes do Oscar. Não vingou no prêmio máximo exclusivo da indústria hollywoodiana, mas quem se importa, depois de passear e ser prestigiado em festivais mais renomados intelectualmente, tais como Polônia, Sérvia e Toronto? Mendonça Filho começou com curtas-metragens, lançou o interessante Crítico, documentário road-movie, em 2008, estreou com este O Som ao Redor quatro anos depois e parece que terá uma carreira bastante promissora, haja vista o sucesso de Aquarius, ainda em voga em 2016. Basta esperar para ver o que será lançado adiante. Com o nível que suas produções têm alcançado é coerente que tenhamos “grandes esperanças”.

O Som ao Redor Brasil, 2013 
Direção: Kléber Mendonça Filho
Roteiro: Kléber Mendonça Filho
Elenco: Clébia Souza, Gustavo Jahn, Irandhir Santos, Irma Brown, Lula Terra, Maeve Jinkings, Maria Luiza Tavares, Sebastião Formiga, W. J. Solha, Waldemar José Solha, Yuri Holanda
Duração: 131 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.