Crítica | O Somma Luce

estrelas 3

De todas as “leituras” dirigidas por Jean-Marie Straub, O Somma Luce (2010) é uma das que eu menos gosto, mas devo confessar que o filme nos traz uma situação tão reflexiva que é impossível ficar indiferente. Na verdade, a ousadia da composição geral nos chama bastante atenção, e o todo do filme tem mais complexidade e gera muito mais discussões se trouxermos à razão os sete minutos de tela negra sob a música Déserts de Edgard Verèse. Essa “abertura nula” e sua passagem para a completa luz pode nos dizer tanto quanto o monólogo dantesco ouvido no “segundo ato”.

A transposição entre os pólos narrativos é dramaticamente ascendente: do nada (Inferno ou Purgatório) representado pela cartela negra de abertura, passamos para a luz do “Paraíso”, mas este não é um lugar como na idealização cristã, estilizado, coberto de riquezas materiais inestimáveis. O Paraíso de O Somma Luce é uma paisagem calma, composta de muitos elementos naturais, que a câmera de Straub vasculha em repetidas panorâmicas conforme a leitura de Giorgio Passerone muda o tom e o foco.

O Somma Luce é um trabalho cinematográfico com a parte final do Canto XXXIII da Divina Comédia, obra máxima de Dante Alighieri. Não se trata de uma adaptação e sim de uma leitura dramática, algo que pretende trazer a atmosfera metafísica e divina do poema (com o reconhecido de Dante de sua necessidade da “luz”, que é a “razão”, a fim de compreender o mundo onde vive e o plano divino). Os tercertos lidos por Giorgio Passerone tratam da visão de Deus e da unidade de Universo, dos mistérios da Trindade e da encarnação e do esforço da mente de Dante para entender tudo o que viu em sua épica viagem.

O modelo ensaísta, quase metalinguístico, se levarmos em consideração a quebra do fluxo diegético pelas diversas “consultas” que o ator faz ao papel, me incomoda um pouco, e principalmente por isso, tenho certa resistência ao filme. Gosto das panorâmicas sobre as árvores e o céu, mas a repetição também é algo que não me agrada muito. Fato é que o “cinema puro”, simples, cultivado por Straub e sua esposa Danièle Huillet durante quase meio século de exercício como cineastas é um fator a considerar-se, e O Somma Luce é um exemplo dessa estética. O curta, mais do que qualquer outro tipo de filme-ensaio, é daqueles contundentes, ou se gosta ou se odeia, raramente cabe-lhe um meio-termo. Eu gosto, mas alguns caminhos formais usados me incomodam e causam estranheza.

De qualquer forma, o filme é válido pelo que é: uma reflexão sobre a visão do Divino, sobre o encontro do homem com a luz, após a saída das escurecedoras trevas. Nem é preciso dizer que dependendo da relação do espectador com a obra de Dante ou com a experiêcia do sagrado, a simpatia e interpretações do filme podem atingir níveis sequer citados aqui. E aí está a magia do cinema, magia que exala, das trevas mas a luz, como em O Somma Luce.

O Somma Luce (França, 2010)
Direção: Jean-Marie Straub
Roteiro: Dante Alighieri (Canto XXXIII de A Divina Comédia)
Elenco: Giorgio Passerone
Duração: 18min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.