Crítica | O Sonho de Cassandra

estrelas 4

Durante muito tempo, o cineasta Woody Allen ficou conhecido por sua abordagem cínica da vida. Mesmo nas tramas que adentravam na seara do drama, uma pitada de humor ou ironia encontrava-se presente. Em O Sonho de Cassandra, bem como no ótimo Match Point – Ponto Final, a carga dramática alcançou níveis bem altos, sem espaço para redenções e esperanças. O que o espectador pode contemplar diante da tela é o uso dos modos de produzir medo e piedade propostos por Aristóteles em sua Poética.

Diferentes em suas ambições, mas unidos pelos laços familiares, os irmãos Ian (Ewan McGregor) e Terry (Colin Farrel) são colocados diante de situações que mudarão para sempre o destino de suas vidas. Ian, o primogênito, trabalha no restaurante da família. Enquanto o pai não se recupera de um problema cardiovascular, ele gerencia os negócios, sem deixar de alimentar o seu sonho de um dia abrir o próprio negócio. O mais novo, Terry, não é apenas humilde em suas conquistas materiais, mas até mesmo no plano das ambições. Trabalha numa oficina de automóveis caros, local que serve de espaço para o seu irmão tomar alguns carros emprestados para posar de “playboy”, e é viciado em jogos.

Certo dia, o destino de ambos vai colocar uma curva bem sinuosa em seus respectivos caminhos, tendo o dinheiro e o poder como ponto de chegada desta estrada rumo aos momentos mais trágicos de suas vidas. Ao passo que a narrativa se desenvolve, Ian conhece, “por acaso”, uma linda atriz de teatro, Ângela Stark (Hayley Atwell), uma mulher que segundo o próprio pai informa, “é uma moça de gostos caros”. Ela acredita que Ian seja o que afirma, um homem de negócios, dono de hotéis na Califórnia. A cada mentira contada por Ian, as coisas vão tornando-se mais bifurcadas. No caso do seu irmão, os jogos o levam para um caminho tortuoso. Numa perigosa investida, o rapaz perde muito dinheiro, afundando-se em dívidas, o que coloca todos ao seu redor em perigo.

Apesar de estar mais para Dostoievski, uma aparente fagulha de esperança ao estilo Charles Dickens surge nos horizontes pré-definidos dos personagens. O idolatrado tio Howard (Tom Wilkinson), um homem que venceu nos negócios e possui uma conta bancária bem equilibrada, o que de vez em quando lhe permite ajudar a família. De passagem bem rápida pelo local, o tio leva todos para jantar e durante um intervalo, é interpelado pelos sobrinhos, tendo em vista um empréstimo de dinheiro para a resolução dos anseios materialistas da dupla. Com sinal verde do empresário, ambos respiram aliviados, até que são levados para um local mais reservado, pois o dinheiro não chegará assim tão facilmente. Eis a hora da contraproposta: também precisando de ajuda, o tio fará uma proposta audaciosa, envolvendo um crime hediondo que selará o destino dos envolvidos nesta narrativa que a partir deste momento, caminha para o seu trágico epílogo.

No que tange aos aspectos técnicos, o filme é muito bem realizado. A trilha sonora funciona como um ótimo guia para os acontecimentos trágicos, principalmente quando aliada ao ótimo trabalho da direção de fotografia, numa representação nublada e sombria de Londres. Os enquadramentos, em sua maioria, são fechados, até mesmo em espaços abertos, tais como as cenas em que os personagens velejam ou então circulam de automóveis. A ideia é sufocar bastante e deixar o clima de tragédia se estabelecer nos quartos, salas de jantar e plateias de teatro bem estreitas, através do uso constante do close e do primeiro-plano, bem como do eficiente contra-plano.

A montagem oferece ao filme um ritmo ágil, tal como a contemporaneidade e os seus prazos frenéticos. Tudo acontece muito rápido, sem deixar tempo para o espectador se questionar sobre o destino de todos aqueles personagens. Basta pensar que estamos diante de um roteiro que não se inspirou nas clássicas tragédias gregas, bem como as cita em algumas passagens. Do mesmo modo que os personagens da tragédia, o destino dos irmãos delineia-se a cada atitude, não deixando espaço algum para a redenção, pois ao contrário do que nós desejamos, a cada passo dado, o painel abre precedentes para uma intensa, conflitante e bem sinuosa curva dramática.

Eis uma narrativa que funciona sem os aparatos mirabolantes das ótimas realizações cinematográficas contemporâneas, mas mesmo assim, consegue ser muito bem desenvolvida. O barco, “obscuro objeto de desejo”, surge no começo ao final, como uma espécie de aparato para reforçar o caráter cíclico da tragédia que se apresenta diante do espectador. Em certo ponto, o filme nos faz lembrar Macbeth, uma das melhores tragédias de Shakespeare. Em certo momento da peça, Lady Macbeth afirma que “o que está feito está feito”, para logo adiante, durante dolorosas sessões de culpa e desconforto, reafirmar que “o que está feito não pode ser desfeito”. Melhor relação, impossível, haja vista a força desta tragédia shakespeariana.

No que diz respeito aos temas, O Sonho de Cassandra pode ser considerado um filme sobre a ambição e o dinheiro. É uma trama que traz em suas bases o empreendedorismo como um dos caminhos na seara do capital. As pessoas querem ser poderosas, donas de algo, guiar os seus destinos, diferenciar-se dentro do trivial, em suma, querem dinheiro, o que por sua vez, ganha ressonâncias nas instâncias do poder.

Tendo a culpa como um dos pontos mais altos do texto, O Sonho de Cassandra parece ser um desdobramento do que Woody Allen fazia há tempos, desde os seus primeiros filmes: uma espécie de análise do ser humano. Entre os outros temas, temos a ideia de sorte e destino, constantes na produção do cineasta. Em certo momento, a namorada atriz de Ian alega que “podemos fazer o nosso próprio destino”. Será? Fica para você, caro leitor, dar para si mesmo essa resposta.

O trágico permeia a narrativa e exala por todos os poros possíveis. Desde a fotografia e a trilha sonora, passeando pelos diálogos e atitudes, até chegar aos seus momentos finais. Morrer, segundo a proposta do filme, parece ser a melhor opção, ao viver uma vida marcada pela culpa e pelo pânico.

Outro tema bastante interessante e comum nas obras do cineasta é a presença da família e dos seus valores e condições pré-estabelecidos. O estatuto da “família unida até o fim” está nas conversas da mãe cansada da vida de dona de casa, bem como no trato proposto pelo tio e nos diálogos entre os irmãos. Vale tudo quando o lance é família, correto?

Ao longo dos seus 95 minutos, a produção aproxima-se e distancia-se do jeito de ser do cineasta Woody Allen. Na época de seu lançamento, algumas análises apontaram o diretor como uma grife cinematográfica, ou seja, um realizador que em todas as suas obras, é cobrado por “marcas de expressão autoral”. As pessoas vão ao cinema em busca de determinados traços identitários em seus filmes, como se de fato fosse obrigatório o passo a passo de uma cartilha, o que não acontece em O Sonho de Cassandra. Cabe ressaltar, portanto, que isso não faz da trama um filme menor, ao contrário, é um drama grandioso e profundo, que pede ao espectador as suas próprias interpretações e extensões reflexivas com o nosso contexto, mesmo que a trama ofereça dados e situações pré-estabelecidas desde os seus primeiros minutos de projeção.

O Sonho de Cassandra (Cassandra´s Dream) –  EUA, França e Inglaterra, 2007.
Direção:  Woody Allen.
Roteiro: Woody Allen.
Elenco: Ewan McGregor, Collin Farrel, Jennifer Highham, Dan Carter, Hayley Atwell, Andrew Howard, John Benfield, Clare Higgins, Sally Hawkins.
Duração: 108 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.