Crítica | O Sono da Morte (2016)

estrelas 3,5

Da franquia A Hora do Pesadelo ao recente bem-sucedido A Origem, a abordagem dos sonhos não apenas não é novidade no cinema, como, talvez, seja o tipo de campo temático sempre receptivo à revitalização. Afinal, seja como visão do futuro ou como mera expressão do inconsciente, de nossos medos e alegrias, num mundo onde tudo é possível e cuja única escapatória conhecida é acordar, o mistério dos sonhos engloba infinitas possibilidades entre os apelos emocional e sensorial.

É nessa expectativa de possibilidades que se apoia O Sono da Morte, de Mike Flanagan, mais conhecido por sua direção no regular O Espelho. Na trama, após a perda do filho pequeno, o casal Jessie (Kate Bosworth) e Mark (Thomas Janes) adota um garotinho, Cody (Jacob Tremblay). Estranhamente, a criança apresenta um histórico de adoções consecutivas, não permanecendo com qualquer família por muito tempo. O casal também não tarda a observar o receio do menino em adormecer e, com o tempo, revela-se o motivo de tal temor: os sonhos de Cody, bons ou ruins, tornam-se realidade.

Sob tal premissa, evidencia-se o referido apoio do filme na expectativa das possibilidades. Afinal, Cody poderia sonhar com um trem descarrilando ou com um oceano sem fim e tais visões configurarem-se reais na tela, de um momento para o outro. De fato, o longa é feliz ao brincar com essa expectativa, em seu primeiro ato, quando mesmo o seu título original, Before I Wake, evoca um problema ligado ao adormecer. Inicialmente, porém, a ameaça representada pelo adormecer de Cody é evocada segundo a escola do terror psicológico – possivelmente, a forma mais efetiva de terror, mas a que é utilizada com menor frequência na sétima arte -, quando se vê tudo, menos a ameaça em questão, alimentando-se, assim, o imaginário do espectador para o que está por vir e para a real extensão do problema.

Além disso, o roteiro se esforça para que o público se identifique com as figuras centrais da trama. A relação entre o casal é problematizada com a perda do filho, apesar da adoção, com o marido esforçando-se em projetar um recomeço, enquanto a mulher demonstra maior dificuldade para se desapegar da memória da cria perdida. Pensando nisso, é interessante observar como o filme, habilmente convertendo tal drama numa extensão da problemática envolvendo os sonhos de Cody, opta por limitar o dom do menino, após a referida criação de expectativa, a representações específicas. Opção essa, é verdade, que garante um desenrolar mais seguro por parte do roteiro, com elementos fixos e delimitadores para trabalhar, mas que impossibilita o longa de se tornar mais do que um produto regular.

Não é à toa que a produção trabalha muito bem com quase tudo o que se propõe a fazê-lo. Sagaz, o texto torna as borboletas o elemento representante da alegria, do bem-estar de Cody – as quais, simbolicamente, podem ser associadas à mudança, à transição experimentada pelos personagens centrais em suas vidas -, enquanto o monstro representa o medo e/ou a infelicidade do menino. O problema é que, no caso do monstro, este não apenas pouco aparece, como o roteiro se preocupa tanto em abordar o drama do casal enlutado que a exploração do fator psicológico representado pela criatura – interessante, pode-se dizer, e revelado somente ao final da trama -, fica em segundo plano. Tanto que, em verdade, a produção, apesar de classificada como pertencente ao gênero terror, converte-se quase em um melodrama com toques de suspense aqui e ali.

Já a trilha sonora, ainda que não se destaque, cumpre bem seu papel. Orquestrada e muito regada a violino, pode parecer um tanto abstrata, a princípio, mas o observador atento notará certos padrões, como nos momentos nos quais Cody leva o casal a um contato, digamos, quase real com a fonte do seu luto, momentos esses, por sinal, que melhor relacionam os dramas dos personagens centrais – o do casal e o de Cody.

O resultado, portanto, é um filme perfeito em quase tudo o que se propõe, mas que, por quebrar com a expectativa alimentada inicialmente, tem seu tom prejudicado a ponto de não se poder elevá-lo para além do status de regular. Se visto por uma criança que não tem medo do bicho-papão, converte-se, tranquilamente, em um terror para a família.

O Sono da Morte (Before I Wake), EUA – 2016
Direção: Mike Flanagan
Roteiro: Mike Flanagan, Jeff Howard
Elenco: Jacob Tremblay, Kate Bosworth, Thomas Jane, Annabeth Gish, Dash Mihok, Scottie Thompson, Jay Karnes, Kyla Deaver, Lance E. Nichols, Hunter Wenzel
Duração: 97 min

LUCAS BORBA . . Gaúcho e estudante de jornalismo, vê nessa profissão a sua porta de entrada ao mundo artístico, uma de suas grandes paixões. Cinema, séries e seriados, animes e animações, literatura e até radionovelas compõe sua ânsia insaciável pelo vômito da arte. Opa, não, só por arte mesmo. Sem falar, é claro, em paixões como batata frita, panquecas (destaque para as de espinafre e de guisado, com bastante requeijão, e para as de chocolate), estrogonofe, navegação e otras cocitas más - repare que a comida ganha destaque, apesar da sua, sim, magreza.