Crítica | O Sorriso de Uma Vida / Eversmile, New Jersey

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É quase inacreditável que uma comédia meio surreal e de qualidade atroz como O Sorriso de Uma Vida / Eversmile, New Jersey tenha Daniel Day-Lewis em seu elenco e, como ano de estreia, o mesmo que Meu Pé Esquerdo, obra onde o ator entregou uma das melhores interpretações do cinema de sua geração, levando por ela, o Oscar de Melhor Ator e aclamação internacional. Eu procurei dados sobre as datas de início e final das filmagens deste longa de Carlos Sorin para ver se antecederam ou sucederam as de Meu Pé Esquerdo, e talvez aí encontrar uma explicação para a atuação ordinária de Day-Lewis ou uma justificativa para que ele tenha aceitado participar da obra, em primeiro lugar.

A história acompanha o dentista itinerante Fergus O’Connell (Day-Lewis), que viaja pela Patagônia, Argentina, em uma das fases de sua jornada pelo continente americano em prol da higiene bucal. Após um acidente, ele encontra a família de Estela (Mirjana Jokovic, atriz sérvia mais conhecida por Underground – Mentiras de Guerra), jovem que está para se casar, mas prefere fugir de seu compromisso, passando a ser assistente de Fergus, mesmo que este inicialmente não a queira por perto.

A versão que conhecemos do filme é, na verdade, o segundo corte, feito exclusivamente a mando dos produtores e contrário ao diretor. Após verem a primeira versão pronta, os chefões resolveram tomar conta da fita, reeditá-la, mudando também toda a trilha sonora, dando ao filme uma intenção completamente diferente daquela que Sorin havia empregado em sua versão. Essas mudanças mais a dublagem mal feita, o uso pouco caprichado da edição de som e o fato de o enredo dar a entender um road movie que se descaracteriza aos poucos também não ajuda em nada a apreciação do espectador.

O principal problema é a falta de foco narrativo. O texto ensaia alguma coisa nos primeiros 10 minutos, mas depois abandona essa ideia e deixa Fergus e Estela apenas tratando de pessoas com dor de dente pelas cidades e colocando alguns obstáculos que, em outro cenário, poderiam trazer à discussão coisas interessantes sobre os sistemas de tratamento de saúde. Todavia, da forma como isso é exposto no filme, nos parece que Fergus defende uma utopia, como se todo dentista fosse adotar o modelo itinerante para fazer valer a nobreza de sua profissão. Curioso é que essa “nobreza” é colocada pelo personagem em momentos onde não há nenhuma indicação lógica pela ela. A frase “eu sou um dentista!” se torna o ponto aleatório para tudo o que ele não aprova. Uma prostituta quer sair com ele? “Eu sou um dentista!“. Ele não concorda com alguma prática de uma pequena cidade? “Eu sou um dentista!“. Nada faz sentido.

A direção tem o mérito de explorar bem o cenário natural e algumas boas locações argentinas, como os bares e a igreja, esta última, com o único momento realmente bom da fotografia; mas nada disso ganha um valor maior porque a quantidade de blocos soltos, internamente ruins e com diálogos sofríveis dos personagens (sem contar que ver Daniel Day-Lewis atuando de maneira medíocre é um sofrimento tremendo) e uma finalização que leva a dupla e o público para lugar nenhum, indicando uma loucura por parte de Fergus, o que também não faz sentido, simplesmente tiram qualquer valor de linguagem que a obra poderia ter. Com tramas adicionais que não servem para absolutamente nada (que bem fez à história aquela linha sobre a esposa de Fergus? Ou o jantar-debate com um dentista de consultório?) e paupérrima construção de personagens, Eversmile, New Jersey é o tipo de filme muito ruim diante do qual o espectador procura encontrar o mínimo de sentido e acaba cheio de dúvidas existenciais do tipo “de onde veio? Para onde vai?“.

O Sorriso de Uma Vida / Eversmile, New Jersey (1989) — Argentina, Reino Unido
Direção: Carlos Sorin
Roteiro: Jorge Goldenberg, Roberto Scheuer, Carlos Sorin
Elenco: Daniel Day-Lewis, Mirjana Jokovic, Gabriela Acher, Julio De Grazia, Ignacio Quirós, Miguel Ligero, Ana María Giunta, Boy Olmi, Eduardo D’Angelo, Alberto Benegas, Roberto Catarineu, Miguel Dedovich, José María Rivara, Viviana Tellas, Omar Tiberti
Duração: 91 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.