Crítica | O Sushi dos Sonhos de Jiro

estrelas 4,5

Que fantástico ver em um filme em tese sobre culinária, sobre um microscópico restaurante surpreendentemente tri-estrelado pelo notório guia Michelin, algo muito mais profundo, uma verdadeira lição de vida. Focando em Jiro, o senhor japonês de 85 anos (mas que não parece mais do que 60!) dono do cobiçado local com um único tipo de prato – sushi – em uma estação de metrô de Tóquio, David Gelb, produtor, roteirista e diretor dessa pequena pérola documental faz um favor ao mundo ao mostrar o que a dedicação e humildade podem alcançar.

Sim, dedicação e humildade. E não especificamente a uma profissão ou a uma causa. O exemplo do octogenário Jiro, capturado tão bem pelas lentes de Gelb, transcendem barreiras culturais e sociais. Mostra que o mergulho profundo em um objetivo aumentará em muito as chances de sucesso e que esse sucesso, normalmente tão fugaz, não é algo que vem da noite para o dia, mas sim ao longo de décadas de duríssimo esforço. Reparem bem: o documentário aborda o “segredo do sucesso” de um mini-restaurante que por fora ninguém daria nada, que só serve um tipo de prato e que fica localizado no subterrâneo de uma cidade e que nem banheiro tem. Um restaurante que os especialistas do guia Michelin literalmente não tiveram opção que não dar as três estrelas – cotação máxima reservada a pouquíssimos pelo mundo e certamente nenhum restaurante dessa natureza – em razão da manutenção da qualidade ao longo dos anos, algo raro de se ver por aí, por mais reconhecido que algum chefe ou estabelecimento seja.

Para alcançar esse posto, Jiro começou a trabalhar com 10 anos de idade, sempre na mesma atividade. Nunca mudou. Muitos, hoje, podem torcer o nariz para isso. “Como assim ele nunca fez outra coisa que não sushi?” “Cadê a ambição nele?” Hoje, o mundo é volúvel demais, com prazeres efêmeros. Todos querem sucesso e dinheiro imediatos, como se ele nascesse em árvore e como se todos fizessem por merecer só porque trabalharam “muito” no conceito turvado do “muito” que muitos têm. Sucesso verdadeiro só vem com dedicação e 70 anos – 70 anos, repararam bem? – fazendo sushi elevaram Jiro a um patamar diferenciado. Ele é o mestre dos mestres nessa iguaria. Alguém que não só seus colegas têm a maior reverência como todos na cadeia, digamos, alimentar de seus sushis respeitam como ninguém. Seus fornecedores – de arroz, de atum, de polvo – batem no peito com orgulho por venderem produtos para o restaurante de Jiro. Muitos se recusam a vender para cadeias hoteleiras renomadas por não considerar que elas manusearão seus produtos da mesma maneira. Raciocínio japonês? Provavelmente, mas ele deveria valer para o resto do mundo. Um mundo que deveria perseguir a excelência e não ficar sentado esperando que ela caia no colo.

E Jiro é o sol no centro de uma constelação de excelência. Não são só os fornecedores, mas também seus dois filhos, o mais velho Yoshikazu e o mais novo Takashi. A tradição japonesa determina que o mais velho siga os passos do pai, mas Jiro fez questão que ambos aprendessem sua profissão e de maneira completamente “não japonesa”, sugeriu que os dois não fizessem faculdade e largassem tudo para se juntarem a ele. E a dedicação dos dois deu certo. No entanto, a tradição – certa ou errada, pouco importa – também se manteve, pois Takashi, por sugestão de Jiro, fez voo solo e abriu outro restaurante de sushi – exatamente igual ao do pai, mas sem o pai, claro – enquanto que Yoshikazu se manteve com Jiro, algo que continuava pelo menos até o final da produção do documentário. E vemos em Yoshikazu a vontade de dar seus próprios passos, mas também entendemos sua resignação e respeito pela posição do pai, sem que isso signifique que ele não tenha que se tornar um sushiman melhor ainda que seu progenitor. Será difícil, com certeza. Quase impossível. Mas isso não o faz ficar sentado em berço esplêndido.

Ver a relação de Jiro com Yoshikazu e a deles com seus subalternos no restaurante e também com seus fornecedores no mercado de peixes de Tóquio são o ponto alto da fita. Vemos a perseguição diária da excelência descortinar-se diante de nossos olhos, ainda que sintamos a dureza do passado de Jiro que se refletiu na relação entre o pai e os filhos. Há, sem dúvida, um tom exageradamente laudatório a tudo que Jiro faz que Gelb não esconde, mas talvez caiba a nós extrairmos o que é realmente importante da narrativa.

Mesmo assim, David Gelb não é bobo. Ele sabe que muitos espectadores esperarão ver um documentário sobre culinária. E, para esses, há também suculentos momentos que são engrandecidos por uma lente íntima,  a médio plano durante as entrevistas, às vezes em close-up e o abuso de câmeras lentas e de time lapse no que diz respeito à comida em si. Observamos a preparação do sushi desde a aquisição dos frutos do mar e do arroz até a degustação por convidados no restaurante.

Nada escapa do trabalho de Gelb, ainda que ele não faça o óbvio. A montagem não é linear e ele não começa em uma ponta para acabar em outra. Ele conta pequenas histórias e anedotas sobre as vidas de Jiro e seus filhos por suas próprias palavras e também pelos de seus fornecedores e por um crítico gastronômico inseridas em um contexto maior que precisa ser “remontado” na mente do espectador. Aprendemos muito sobre o processo, mas quase nada sobre os segredos, pois o segredo de Jiro não é uma receita passada de geração em geração que ele esconde a sete chaves, mas sim uma coisa só que já mencionei exaustivamente aqui: dedicação.

Sem dedicação, nada tem significado. Sem dedicação não há excelência. Sem dedicação, tudo se torna banal. O Sushi dos Sonhos de Jiro é um documentário que poderia facilmente ser uma fábula de Esopo, com suas por vezes cáusticas lições de moral e de perseverança que precisam ser aprendidas por todos.

O Sushi dos Sonhos de Jiro (Jiro Dreams of Sushi, EUA – 2011)
Direção: David Gelb
Roteiro: David Gelb
Com: Jiro Ono, Yoshikazu Ono, Takashi Ono, Masuhiro Yamamoto, Daisuke Nakazama, Hachiro Mizutani, Harutaki Takahashi, Hiroki Fujita, Tsunenori Ida
Duração: 82 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.