Crítica | O Terceiro Tiro

estrelas 4

O que você faria se, sozinho, encontrasse um cadáver? A maioria, é claro, notificaria a polícia ou logo sairia dali, temendo a suspeita de qualquer envolvimento. O Terceiro Tiro, contudo, não lida com a maioria e retrata justamente essa problemática a partir de personagens nada convencionais em situações nada comuns. Mais uma vez Hitchcock nos mostra uma história na qual a casualidade da morte é evidente.

Tudo começa quando o Capitão Albert Wiles (Edmund Gwenn), caçando na floresta, encontra um corpo caído. Sua primeira reação é de espanto e logo tira a conclusão de ter matado o desconhecido. Um acidente inocente, ele considera e, para não ser incriminado, decide esconder o corpo. As coisas complicam, porém, quando um a um moradores da cidade aparecem no local e vão embora, cada um reagindo diferente para o morto. Aqui já fica claro o tom de humor negro da obra que nos traz situações inusitadas que pouco parecem considerar aquilo como uma tragédia.

A trilha sonora corrobora esse tom mais leve ao mesmo tempo que reitera os esparsos momentos de tensão. Há uma grande similaridade com Festim Diabólico tanto nessas ocasiões quanto na própria trama como um todo. A construção do suspense é feito justamente a partir do medo dos protagonistas que temem a descoberta do assassinato por parte das autoridades. É claro que estamos falando de um filme de Hitchcock e não dura muito tempo a certeza de que o capitão é o culpado – logo outras peças entram no tabuleiro e inúmeras teorias vão surgindo.

A partir daí surge uma das grandes qualidades de O Terceiro Tiro, a interação entre os novos personagens que vão entrando na trama. Os ótimos diálogos construídos por John Michael Hayes não só asseguram o tom de casualidade do filme como conseguem manter o espectador ainda mais entretido, arrancando risadas das situações menos esperadas. Mesmo a paixão instantânea entre Sam (John Forsythe) e Jennifer (Shirley MacLaine) consegue se misturar na narrativa e não soa tão artificial quanto deveria.

Dessa forma se constrói O Terceiro Tiro repleto de humor negro, personagens bem estabelecidos e diversas situações de tensão. A casualidade da morte, notável, nos primeiros minutos logo se torna uma parte indistinguível da narrativa e, aos poucos, Hitchcock consegue até nos transmitir parte dela, ao ponto que entendemos seus personagens e torcemos por eles. É um longa que prende o espectador do início até os famosos letreiros finais. The trouble with Harry is over.

O Terceiro Tiro (The Trouble with Harry, EUA – 1955)
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: John Michael Hayes (baseado no livro de Jack Trevor)
Elenco: John Forsythe, Shirley MacLaine, Edmund Gwenn, Mildred Dunnock, Mildred Natwick, Jerry Mathers, Royal Dano, Parker Fennelly, Barry Macollum, Dwight Marfield
Duração: 99 min.

 

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.