Crítica | O Terminal (2004)

A carreira de Steven Spielberg é das mais ecléticas do cinema. Mesmo passeando por gêneros que me atraem bem pouco, sou ao menos capaz de admitir que a versatilidade e a regularidade de sua produção são admiráveis. Desde o difícil lançamento de Tubarão, que lhe deu fama mundial, o norte-americano construiu uma filmografia extensa e amargou poucos fracassos de público e de crítica. O Terminal, longa-metragem de 2004, parece ser um desses raros exemplos. Após interpretar brilhantemente Chuck Nolan em O Náufrago, Tom Hanks se juntou ao consagrado diretor para filmarem mais um filme sobre um protagonista extraviado, alijado de um mundo que ora o esquece, ora não o reconhece mais. O Terminal contém muito do espírito do longa-metragem de Robert Zemeckis, mas bem pouco de sua inspiração e de sua coerência narrativa. Dessa vez, as virtudes inquestionáveis de Tom Hanks nem de longe bastaram.

O primeiro ato do filme é até bastante bom. Spielbeg inicia seu longa-metragem inserindo o espectador no ambiente onde Viktor Navorski irá passar alguns meses de sua vida em uma espécie de limbo geopolítico – o aeroporto JFK, em Nova York. Impedido de entrar em território americano e de voltar a Krakozhia, seu país natal fictício, que acabara de sofrer um golpe de Estado que o tornou um cidadão de nenhum lugar. A premissa não só é interessante como também muito bem abordada. Os planos que se fecham sobre as malas dos passageiros, que chegam de toda a parte do mundo ao movimentado aeroporto, alternam-se em cortes rápidos para outros que evidenciam toda a impessoalidade com que as autoridades os tratam. Respostas protocolares, formulários, documentos e toda sorte de procedimentos burocráticos são trazidos à baila antes de o protagonista ser apresentado ao público. Era de se esperar que, a partir desse ponto, fosse construído um verdadeiro estudo de personagem à luz daqueles primeiros minutos.

A introdução do filme parece promissora ao evocar certo tom kafkiano. A situação insólita de Viktor chega a lembrar a do protagonista K., de O Castelo, impedido de entrar no castelo ao qual foi chamado e condenado a permanecer em seus arredores sem receber qualquer explicação. Mas O Terminal vai, pouco a pouco, optando por não desenvolver nada relacionado a isso. Escolhe caminhos mais fáceis e, por isso mesmo, flagrantemente preguiçosos e genéricos. O primeiro a sofrer com essa escolha do roteiro é o próprio protagonista. Se Tom Hanks consegue evitar exageros no sotaque de Viktor Navorski, o roteiro acaba errando feio na composição do personagem, que se embaraça nas situações mais simples, prova um big mac como se sanduíches nem existissem ou fossem especiarias das mais raras em seu país e chega a levar um tombo constrangedor no piso molhado do aeroporto. O roteiro e a direção de Spielberg tentam pintar o protagonista como um outsider, mas exageram nas momices e nos espalhafatos. Isso enfraquece demais o protagonista, que ganha pouca profundidade ao longo da projeção.

A coisa não é nada melhor em relação aos demais personagens, que parecem estar ali apenas para tornar tudo mais palatável para um espectador médio. Sobram caricaturas e personagens funcionais por toda parte. O faxineiro indiano Gupta Rajan faz as vezes do coadjuvante excêntrico, que no fim só serve para salvar o protagonista com sua loucura burlesca. O vilão da história – o chefe de segurança Frank Dixon – não perde a chance de sofrer seus ataques furibundos e de empreender sua perseguição sem fundamento contra Viktor. Também é completamente dispensável ao desenvolvimento do protagonista o surgimento do romance com Amelia Warren, mulher solitária que passa constantemente pelo aeroporto para se encontrar com seu amante casado. O relacionamento dos dois constrói uma sub-trama folhetinesca que desperdiça mais de um terço do filme. Viktor Navorski vive um dos momentos mais difíceis da sua vida, mas O Terminal simplesmente opta por suavizar sua experiência. Perde completamente também a chance de inserir qualquer comentário político mais relevante.

O grande problema do longa-metragem de Steven Spielberg é se perder completamente em seu discurso. O Terminal se transforma em um jogo de gato e rato sem qualquer profundidade e investe na figura de um vilão tradicional como o grande antagonista de Viktor Navorski. A questão que fica ao final da projeção é se o sadismo tão clichê de um único homem seria realmente a melhor escolha para esse posto ou se o próprio contexto geopolítico apresentado, com seus entraves burocráticos e seus mecanismos de exclusão de pessoas, poderia ter sido mais bem aproveitado por Spielberg. Eu, sem titubear, apostaria na segunda opção.

O Terminal (The Terminal) – EUA, 2004
Direção: Steven Spielberg
Roteiro: Andrew Niccol, Jeff Nathanson, Sacha Gervasi
Elenco: Tom Hanks, Catherine Zeta-Jones, Stanley Tucci, Zoe Saldaña, Diego Luna, Chi McBride, Kumar Pallana, Barry Shabaka Henley
Duração: 128 minutos

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.