Crítica | “O Terno” – O Terno

estrelas 3

Há alguns anos atrás uma banda paulista de nome sofisticado lançava seu primeiro álbum e ganhava o título de uma das revelações da música brasileira. Essa era O Terno. O álbum de estreia, 66, garantiu uma quantidade razoável de fãs para a banda. Agora, ela lança seu homônimo e segundo disco, um trabalho diferente e mais complexo que o primeiro. É bom já deixar claro que resposta da pergunta “Esse álbum supera o primeiro?” você não encontrará aqui, se tratando de obras bem distintas.

A missão de um power trio é sempre difícil. O som do grupo corre sempre o risco de soar cru, como se faltasse algo. No caso de O Terno, isso soa natural, ainda que não signifique perfeição. A banda se caracteriza por ter ideias muito boas, ainda que os dois discos do grupo também possuam seus momentos pouco interessantes ou fracos, seja pelas desafinações do vocalista ou alguns arranjos cansativos.

Enquanto 66 tendia muito para o lado alternativo e indie, o novo disco soa experimental e carregado de rock psicodélico, marcado principalmente durante a era sessentista do rock. O grande mérito da banda está nos arranjos inovadores e nas ótimas letras. Eu Confesso é um exemplo, a harmonia de vozes e a simplicidade instrumental fazem a melodia perfeita para a letra: “Minha mãe me falou que bonito era eu, mais ninguém/ Como pode a mãe dele ter dito pra ele também?”. Até mesmo arranjos estranhos, bastante experimentais e um tanto repetitivos conseguem se redimir com a letra, como acontece no caso da faixa Brazil.

O rock setentista e a psicodelia podem ser encontrados em Vanguarda, enquanto um ar mais acústico é visto em Quando Eu Me Aposentar, faixa que lembra outra banda “revelação” dessa geração, os talentosos meninos do Apanhador Só. A dinâmica psicodélica de Medo do Medo, com a brilhante participacão de Tom Zé, garante à canção um dos destaques. Certamente os solos psicodélicos fazem ótimas coberturas de bolo, veja que O Cinza serve para mostrar a eficiência instrumental da banda, certamente a faixa mais vívida e “roqueira” do disco. Por outro lado, algumas passam a impressão de pouca inspiração, nada muito surpreendente é demonstrado (o que não significa também que se tratam de faixas necessariamente ruins), soando como o “mais do mesmo” do rock nacional, seja Bote ao Contrário ou Pela Metade.

Desaparecido fecha o disco com uma característica que poucos podem ver: Black Sabbath. Uma história de terror, nos moldes de Frankenstein, é contada através de seus versos e melodias se encaixando perfeitamente para narrá-la. Entretanto, a faixa deixa um incômodo: por que o disco não contém outras faixas nesse molde? Esse tipo de faixa é o ponto forte da banda e, ainda assim, eles parecem arriscar pouco nele. O mesmo fato ocorreu no álbum anterior, que possui outro excelente conto de terror musical, Zé, Assassino Compulsivo.

Vamos com calma. O Terno pode ser uma boa banda, mas ainda precisa se provar um pouco mais pra ser o que alguns andam dizendo. O álbum nao flui tão bem quanto aparenta, mas tem, sim, seus devidos méritos. Deve ser tomado o devido cuidado para que a banda não se torne uma nova bandinha “cult” comercial, ou, mais diretamente, um novo  “Los Hermanos”. Bem, qualidade e potencial o Terno já mostrou que possui, basta investir cada vez.

O álbum está disponível no site oficial da banda.

O Terno
Artista: O Terno
País: Brasil
Lançamento: Agosto de 2014
Gravadora: Independente
Estilo: Rock Psicodélico

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, fascinado por música, cinema e quadrinhos. Um fã de ficção científica e aventura que carrega seu fone de ouvido por todo lado e se emociona facilmente com música, principalmente com "The Dark Side Of The Moon". Enquanto não viaja pelo tempo e espaço em uma TARDIS, viaja pelo mundo dos livros e da música.