Crítica | O Terror da Serra Elétrica

O Terror da Serra Elétrica

estrelas 3

Gostaria de propor um desafio ao leitor. Pense em um filme violento. Apenas um. Logo depois, multiplique por dez e some todas as cenas sangrentas dos filmes de Quentin Tarantino e Martin Scorsese. Se possível, coloque no caldeirão os assassinatos mais sangrentos das franquias Sexta-Feira 13, Halloween, Pânico e O Massacre da Serra Elétrica. O que importa aqui não é a quantidade de sangue, tampouco o número de mortes. O ponto de vista inicial é único e exclusivo: poucas vezes tive a oportunidade de ver tantos assassinatos brutais, apresentados de maneira gráfica com o propósito de incomodar, tamanha a ira do algoz em relação às suas vítimas.

Ironias à parte, creio que desta forma, eu consiga expressar a reação que tive ao me deparar com tanta degeneração na sessão de revisitação ao europeu O Terror da Serra Elétrica, filme de 1982, produção que embarcou na “modinha” do slasher que tomou havia tomando a indústria cinematográfica a rendia bastante grana. Com elementos do slasher estadunidense (ambientação universitária e jovens nuas) e do giallo italiano (voyeurismo, psicopata vestido de roupas e luvas pretas), o filme traz para mais um elemento: a motosserra, arma responsável por desmembrar as vítimas da história.

Como dito anteriormente, a proposta do filme é ser visualmente chocante, com direito a desmembramentos, litros de sangue jorrados, decapitações e clima de degeneração social. Sem nenhum pudor, a trama nos remete aos anos 1940, especificamente no segundo ano da década, com uma câmera curiosa nos revelando o pequeno Timmy se divertindo com um quebra-cabeça que tem como imagem uma garota nua.

Para quem conhece bem esta época de códigos sexuais rígidos, sabe que a mãe não gostou nada da ideia ao flagrar o filho neste momento íntimo, repreendendo-o agressivamente. Em alguns minutos, o garoto surpreende a mãe com golpes de machado, rachando-a literalmente diante da tela. Catatônico quando a polícia chega, a criança afirma que um homem havia assaltado a casa e dizimado a sua mãe.

Num salto narrativo de 40 anos, a trama nos leva aos anos 1980. Um psicopata está causando terror numa universidade. O seu projeto possui tem como metodologia montar um quebra-cabeça humano, com partes de diferentes mulheres. Como se pode imaginar, o psicopata é o mesmo jovem que esquartejou a mãe, o lance da vez é descobrir quem é. Nesta colcha de retalhos há ainda os investigadores Bracken (Christopher George), Mary Riggs (Lynda Ray George) e o universitário Kendall (Ian Serra), trio que passa uma boa parte dos 85 minutos de filme tentando descobrir o responsável pelos crimes brutais, envolvidos numa bolha de sadismo, diálogos ruins e situações que beiram ao inverossímil.

Antropofágico até não poder mais, O Terror da Serra Elétrica devora as suas referências, cria algo relativamente novo, mas não apaga os rastros das suas referências, sendo O Massacre da Serra Elétrica a maior delas. Como filme de mistério e investigação é um fiasco quase sem precedentes. No que diz respeito às atuações então, outro desastre, mas o espectador que é antenado, saberá separar as coisas e compreender que este não é o tipo de filme para grandes desempenhos dramatúrgicos.

Como diz o seu slogan, “não é preciso ir ao Texas para ver um massacre com uma motosserra”. Desta vez, longe do clima árido texano, as vítimas são retalhadas num clima europeu. Ademais, a narrativa serve para pensarmos o quanto a relação entre cinema e sociedade mudou nos últimos 35 anos desde o lançamento desta produção que para cineastas como Eli Roth e Brad Jones, é uma “pérola”. Visto hoje, numa época de posturas cada vez mais em busca do politicamente correto, O Terror da Serra Elétrica não é uma opção muito desejável para uma sessão em família, coisa quem em minha infância, era corriqueira e visto sem grandes ressalvas. Outros tempos.

O Terror da Serra Elétrica (Mil gritos tiene la noche) – Espanha/EUA/Itália/Porto Rico, 1982
Direção: Juan Piquer Simón
Roteiro: Dick Randall, Joe D’Amato, Juan Piquer Simón
Elenco: Christopher George, Lynda Day, Frank Baña, Edmund Purdom, Ian Sera, Paul L. Smith, Jack Taylor
Duração: 85 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.