Crítica | O Terror, de Dan Simmons

  • Leiam, aqui, as críticas dos episódios da minissérie de TV que adapta o livro.

Mergulhar de cabeça em um livro de mais de 750 páginas que não seja um daqueles clássicos da literatura mundial que todos deveriam ler pelo menos uma vez na vida é uma tarefa que exige concentração e dedicação redobradas, por melhor que seja seu conteúdo. Afinal, no mundo frenético em que vivemos, parar para sorver qualquer obra dessa magnitude, que não seja dividida em vários tomos pop para absorvição fácil e despretensiosa, tem como pré-requisito desligar-se um pouco exatamente desse frenesi todo e desbravar um texto que no mínimo pede carinho e perseverança.

E é por isso que resolvi abrir a presente crítica – completamente sem spoilers – com um aviso importante: O Terror não é exatamente um livro de… bem, terror… pelo menos não de terror “básico” ou “padrão”, daqueles que todo mundo espera de uma forma ou de outra. Ele é muito mais um romance histórico do que uma obra que se fia em uma entidade – sobrenatural ou não – para dar medo no leitor. Mal comparando, O Terror é como It – A Coisa, de Stephen King, uma longuíssima história cujos detalhes da jornada são infinitamente mais importantes do que o elemento clássico de horror que está lá em seu âmago ou mesmo seu desfecho; é muito mais sobre a Humanidade do que sobre um monstro peludo ou um palhaço assassino; é uma narrativa para ser absorvida aos poucos, com calma e com concentração. Se o pretendente a leitor desta obra souber o que esperar e imbuir-se de força de vontade para acompanhar as tripulações dos navios expedicionários britânicos Erebus e Terror, então a satisfação é garantida, pois o romance do prolífico escrito americano Dan Simmons é um pesadelo do começo ao fim, mas um pesadelo muito maior do que aquele monstro que vive no armário ou debaixo da cama e, mais do que isso tudo, um pesadelo que recompensa o leitor mesmo que isso signifique algumas noites em claro não com aquele medo básico de escuro, mas sim pensando na extraordinária força de vontade e no destino desses homens no mundo gelado em que pereceram.

Mas calma, pois não contei nenhum spoiler aqui sobre o fim dos personagens. Simmons escreve sobre a razoavelmente conhecida Expedição Franklin que, em 1845, partiu da Inglaterra com o objetivo de descobrir e desbravar a chamada Passagem Noroeste, que liga os Oceanos Atlântico e Pacífico, pela calota polar ártica. À época, esse mítico caminho, que muitos teorizavam, mas todos haviam falhado em encontrar, seria o caminho mais curto da Europa para a Ásia ou para a costa oeste dos Estados Unidos, lembrando que  o Canal de Suez só seria inaugurado em 1869 e o Canal do Panamá só começaria a ser construído em 1880 e demoraria ainda um bocado para ficar pronto. Basta o leitor saber que a Expedição Franklin não só falhou em descobrir a Passagem Noroeste (o mérito ficou com o norueguês Roald Amundsen, entre 1903 e 1906), como jamais retornou à Inglaterra, com os navios desaparecendo completamente e só sendo achados – pasmem! – em 2014 e 2016 (o Erebus e o Terror, respectivamente).

O que Simmons faz é pegar a história  dessa trágica força expedicionária e criar uma ficção ao redor, tentando explicar o que “realmente” teria acontecido, acrescendo-lhe os tais elementos clássicos de horror que mencionei brevemente acima em meu parágrafo de aviso. Mas, antes de ficcionalizar, o autor buscou a verdade, a realidade dos fatos conducentes à expedição em si, às suas principais figuras e ao seu eventual fracasso. É aqui que está o verdadeiro valor da leitura de O Terror, em sua magnífica riqueza de detalhes sobre as mais importantes personalidades que efetivamente fizeram parte da tripulação dos navios (quase todos os personagens citados existiram de verdade) e sobre o mundo da Marinha Britânica em meados do século XIX. É um retrato detalhado – impressionantemente detalhado – desse período, com considerações políticas, econômicas, científicas, tecnológicas, médicas, geográficas e hierárquicas da época retratada em que o leitor aprende não só sobre os grandes navios de nomes assustadores que foram retrofitados e transformados nos mais tecnologicamente avançados da era para penetrar no gelo ártico, como cada detalhe sobre os mais diferentes escaleres, os variados tipos de formações de gelo, as várias profissões e atividades dentro de navios, os animais que populam a região e, claro, as relações humanas em espaços confinados dessa natureza.

Se o leitor deixar-se perder nas páginas desta obra, sem sofreguidão e sem exigir mortes violentas a cada capítulo, a experiência será completamente imersiva. Afinal, é por intermédio do detalhamento de cada personagem, especialmente o capitão Francis Rawdon Moira Crozier e o anatomista/cirurgião Dr. Harry D.S. Goodsir que mergulhamos profundamente na história que, inteligentemente, é narrada, por pouco mais do que seu terço inicial, de forma não linear, com eventos começando no inverno de 1847, com os navios já presos no oceano congelado e com uma ameaça desconhecida que vem matando alguns tripulantes, além do abrigo dado a uma misteriosa esquimó com língua cortada que é apelidada de Lady Silêncio, que é intercalado com capítulos que voltam meses e até anos antes que vão vagarosamente nos contando como foi que a expedição chegou a esse ponto. Depois, a história passa a ser linear, com alguns capítulos que se passam simultaneamente e alguns flashbacks para a vida de Crozier antes de embarcar na fatídica expedição, o que abre o leque para que vários outros pontos de vista, de vários outros personagens sejam abordados compassadamente por Simmons.

Aliás, estruturalmente, os capítulos são intitulados com o sobrenome de cada personagem cujo ponto de vista é usado naquele momento (além da data, longitude e latitude, quando disponíveis), de forma muito parecida com o que George R.R. Martin faz em seu épico ainda inacabado As Crônicas de Gelo e Fogo, mas de forma bem menos difusa e bem mais fácil de seguir do que as histórias sobre Westeros e Essos. Simmons foca em alguns nomes principais, claro, mas não se esquiva de apresentar novos personagens na medida em que a ação progride (lentamente, é sempre bom lembrar), criando uma rica vida pregressa para cada um deles, mesmo quando ele faz um uso muito efêmero de determinada pessoa unicamente para marcar um ponto ou para ilustrar determinada situação específica.

Há momentos, porém, que estão lá para testar a paciência do leitor mais budista. São poucos, mas eles se fazem presentes, como a recontagem de mortos por Crozier que toma literalmente um capítulo inteiro e contém um dilúvio de nomes, cargos, comentários pessoais sobre o que o capitão acha de cada um e assim por diante. E o mesmo pode ser dito de algumas descrições e repetições sobre o gelo, sobre a comida e, bem mais para a frente, sobre outro tipo de comida. Mas, no conjunto da obra, são momentos perfeitamente assimiláveis que nos arremessam para dentro da mente do personagem que comanda o respectivo capítulo. Funcionam para a imersão, mas exigem paciência redobrada. Por outro lado, é absolutamente fascinante ler cada detalhe excruciante da tripulação morrendo aos poucos pelos mais diferentes males, seja escorbuto, tuberculose ou fome. Claro que muita coisa, a partir de determinada altura do livro, não passa de especulação de Simmons, já que não há relatos para sustentar completamente o que ele aborda aqui e ali, mas o realismo do que ele retrata nos pega de assalto e nos deixa paralisados e incrédulos sobre o ponto que vai a força de vontade humana para sobreviver em uma situação francamente desesperadora. E há vários pontos de vista diferentes para ilustrar a forma como cada um encara aquele inferno gelado e a desesperança que abate a todos, o que mostra a pluralidade e a engenhosidade da raça humana, mesmo que também revele seu lado mais sombrio e assustador, algo muito mais aterrorizante do que a criatura que os espreita.

Não falarei aqui sobre qualquer detalhes das últimas 150 páginas, que é quando Simmons efetivamente faz sua narrativa caminhar para o final. Se há um ponto que pode criar algum tipo de tensionamento entre os leitores que conseguirem comprar a narrativa lenta, ele está aqui, ou, mais especificamente, em como o autor costura seu encerramento. Falo não só da forma como os sobreviventes chegam até determinado ponto, como também o elemento clássico de horror que está sempre ao seu redor. Há uma convergência boa na história, mas não se pode dizer que é um fechamento confortável ou clássico. Simmons arrisca, mas, pelo menos em minha opinião, é um final muito bem executado que somente engrandece tudo o que veio antes.

O Terror, arriscaria dizer, é um pequeno (mas enorme) clássico moderno de horror que usa a atmosfera e a ambientação para prender o leitor, para causar claustrofobia mesmo nos gigantescos espaços abertos gelados descritos na história. É angústia do começo ao fim. Mas uma angústia boa de sentir.

O Terror (The Terror, EUA – 2007)
Autor: Dan Simmons
Editora original: Little, Brown and Company
Data original de lançamento: 08 de janeiro de 2007
Editora no Brasil: Editora Rocco
Tradução para o português: Alexandre Martins
Data de lançamento no Brasil: 06 de novembro de 2017
Páginas (versão impressa brasileira): 752

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.