Crítica | O Tigre da Índia / O Tigre de Bengala

estrelas 4

A carreira de Fritz Lang se estendeu de 1919 a 1960, e contou com produções na Alemanha, seu país natal; na França e nos Estados Unidos, onde o cineasta passou vinte anos em exílio político, após fugir da Europa temendo ser perseguido pelo Partido Nazista. O último filme do diretor na terra do Tio Sam foi Suplício de uma Alma (1956), depois do qual Lang se estabeleceu novamente em seu país de origem e realizou mais quatro filmes. O Tigre da Índia (ou O Tigre de Bengala, ou ainda, O Tigre de Eschnapur) foi o primeiro deles.

Tendo como base um projeto pessoal de levar às telas um livro de sua ex-esposa, Thea von Harbou, Fritz Lang lançou seu olhar para a Índia, fez um bom número de visitas ao país e dividiu a aventura em duas partes, sendo a primeira esta que hora escrevemos sobre, e a segunda, O Sepulcro Indiano, lançado cerca de dois meses depois.

A princípio, o diretor queria fazer um filme sobre o Taj Mahal. Encantava-lhe a história por trás do monumento e ele acreditava que tendo uma produção europeia, o filme ficaria exatamente como uma obra cinematográfica sobre o Taj Mahal deveria ser. Mas as dificuldades de levar adiante o ambicioso projeto fez com que o diretor aceitasse a proposta menos ambiciosa de Artur Brauner (produtor polonês com mais de 300 filmes no currículo, atuante no período de 1946 a 2011!), que lhe oferecia um bojudo orçamento e liberdade criativa para filmar a história novelizada por Thea von Harbou, cuja origem foi um roteiro que o próprio Lang havia escrito com ela por volta de 1920.

A história de O Tigre da Índia guarda uma forte semelhança com os contos das Mil e Uma Noites, onde um estrangeiro chega a um local, encanta-se com o exotismo daquela terra e por uma bela mulher, cultiva a ira de um poderoso, é perseguido com afinco e tem um destino perigoso traçado, ponto em que a história é interrompida para ter continuação num outro capítulo, em outro dia – exatamente a dinâmica usada nesse roteiro, inclusive com o cliffhanger, um intrigante ponto de interrogação deixado para ser resolvido em O Sepulcro Indiano.

Harald Berger é um arquiteto europeu convidado pelo Marajá Chandra para projetar o que seria a nova face de Eschnapur, a cidade real. Sua chegada à Índia não é vista, mas o início de sua estadia sim, e antes mesmo de seu encontro com o príncipe, temos a primeira quebra dramática do roteiro, que consiste no encontro do protagonista com Seetha, a dançarina de Shiva por quem ele e o espectador se apaixonam. O que se segue é uma versão típica das “aventuras românticas orientais”, sejam elas do médio ou extremo Oriente: um golpe de Estado se estrutura nos bastidores, as aparências são mantidas mas o espectador sabe que há algo de podre no reino, e o amor que nasce entre os pombinhos protagonistas já traz consigo uma semente de tragédia.

Há um quê de banal na história, mas Fritz Lang filma a trama de modo tão preciso e tão elegante, que é impossível se chatear durante a sessão. A montagem também ajuda bastante, com um ritmo equilibrado durante toda a projeção, mesmo quando o roteiro apresenta o seu plot de perigo, algo que geralmente faz com que o andamento mude completamente e sem aviso.

Todavia, o que realmente se destaca em O Tigre da Índia é o seu apuro estético-visual, encabeçado por todo o desenho de produção e pela incrível fotografia. Há um rigor tremendo no uso de cores, tons e adereços dos figurinos (excelentes, por sinal), nas paredes, chão e decoração dos jardins, salões e outros ambientes internos visitados pela câmera. O interior do palácio do Marajá impressiona não só pela construção distinta de cada cômodo, mas por locais como a gruta dos leprosos e o labirinto de passagens secretas que ligam o tempo a outros lugares do prédio. A predominância de branco e amarelo tanto no cenário quanto nos figurinos nos dá uma impressão ainda mais exótica e contrastante com a realidade que se desenvolve na tela, uma ótima sacada do diretor e sua equipe técnica.

O Tigre da Índia é uma aventura romântica muito divertida e realidade com grande apuro estético. Eu já citei a aparência banal da história narrada, mas o modo como a vemos faz com que se mantenha em alta conta, mesmo se considerarmos uma incômoda linha de pensamento que destaca a superioridade dos europeus frente aos hindus. De qualquer forma, o filme marca com graça a fase final da carreira de Fritz Lang e, embora não traga os elementos críticos tão presentes em suas obras anteriores, nos brinda com uma concepção visual deslumbrante, o que nos faz voltar no tempo, para os cenários grandiosos utilizados pelo diretor do díptico dos Nibelungos ou em Metropolis. O mesmo homem, a mesma mão poderosa na direção e concepção de um filme, um outro tempo. Impossível não querer ver um fruto dessa fase.

O Tigre da Índia (Der Tiger von Eschnapur) – Alemanha Ocidental/França/Itália, 1959
Direção: Fritz Lang
Roteiro: Werner Jörg Lüddecke, Fritz Lang (baseado na obra de Thea von Harbou)
Elenco: Debra Paget, Paul Hubschmid, Walter Reyer, Claus Holm, Luciana Paluzzi, Valéry Inkijinoff, Sabine Bethmann, Angela Portaluri, René Deltgen, Guido Celano, Jochen Brockmann, Richard Lauffen, Jochen Blume
Duração: 101 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.