Crítica | O Tigre e o Dragão: A Espada do Destino

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estrelas 1

Não. Não. E não. Está tudo errado.

Quando Ang Lee nos presenteou com O Tigre e o Dragão, em 2000, sua grande conquista foi passar para as telas a essência bélica e poética da obra de Wang Du Lu, em seu penúltimo livro da Pentalogia de Ferro. Havia ali uma exploração precisa e milimétrica do movimento dos corpos em luta — alcançada tanto pela ótima direção de Lee quanto pela fotografia de Peter Pau –, uma grande força narrativa focada mais nos personagens do que nas situações — talvez com uma pequena exceção ao flashback –, e principalmente, um grande respeito e interação dos personagens com o seu mundo, ambiente natural e questões sociais amplas com sentido para aquele momento da História, seja como ficção do gênero Wuxia, seja como um diálogo semi-realista com a China do século XVIII, onde a trama se passava.

Em tese, a continuação [desnecessária, como todas] deveria se dar o trabalho de seguir os passos do original e avançar a história, no mínimo respeitando os princípios daquele universo. Mas não é isso o que vemos em O Tigre e o Dragão: A Espada do Destino (2016). Com produção do Netflix em parceria com duas grandes produtoras chinesas, o longa traz novamente a atriz Michelle Yeoh no papel de Yu Shu Lien, 18 anos após os eventos do primeiro filme. O universo revisitado e o belo início da fita nos deixam animados pelo que está por vir. Há alguma indicação de que uma trama madura será construída e mesmo que já aí falte habilidade ao diretor Yuen Woo-ping em capturar a luta com a leveza que ela merecia (apesar da boa coreografia), o primeiro embate é bom e acaba funcionando bem como introdução. Os problemas começam quando o primeiro corte estrutural da montagem nos leva para o castelo de Hades Dai e em seguida para o clã de Te, o herdeiro de Sir Te.

Sequências, bem mais do que refilmagens e pré-sequências [todas desnecessárias, como sempre], possuem um peso enorme na formulação de seu conteúdo, porque não só devem ser boas em si mesmas, em produção técnica e narrativa, como também possuem a obrigação de capturar a essência da obra que pretendem continuar. Se a primeira parte disso é difícil, imaginem a segunda. Pois bem, aqui em A Espada do Destino, uma personagem e alguns elementos estéticos de O Tigre e o Dragão permanecem, mas o roteiro tem uma ideia totalmente romantizada e cômica — isso mesmo, cômica, no sentido pastelão! — desse ambiente e nos empurra um incoerente drama pessoal de Yu Shu Lien, migalhas infames do legado de Li Mu Bai e, a pior de todas as coias, a aparição de Silent Wolf.

O roteirista John Fusco comete o mesmo equívoco que os roteiristas de 47 Ronins (2013) e transforma uma ficção de concepção Taoista e representativa da filosofia do Kung Fu em um romance de aparência épica, com lutas burocráticas, trilha sonora intrusiva e extremamente narrativa, principalmente quando não deveria ser (o oposto absoluto, comparado à trilha de Tan Dun para o original) e ligação entre os personagens que trai tudo aquilo que fora explorado na primeira obra. Realmente me impressiona que a atriz Michelle Yeoh tenha aceitado fazer parte do projeto, que em um passe de mágica transforma tradição e artes marciais chinesas em ciranda de amores, magia à la Shadowhunters, história de vingança na esteira dos Faroestes e pouco, quase nada, de Tigre e o Dragão.

É certo que o espectador irá encontrar, a despeito de todo o desprezo à cultura Oriental e ao filme original, alguns bons momentos em A Espada do Destino, especialmente na ótima direção de fotografia, assinada por Newton Thomas Sigel (o mesmo de Drive e X-Men: Dias de um Futuro Esquecido). De todos os aspectos técnicos do filme, este é o mais preocupado, embora não seja perfeito, em criar uma ambientação que situe bem o cenário do presente e nos faça lembrar dos dias passados. De forma muito inteligente, o fotógrafo vai alterando as percepções de imagem ao longo do filme, partindo do uso de tons suaves e com filtro, no início, para cores quentes e em forte contraste no clã do herdeiro Te, passando em seguida para a ambientação fria do castelo de Hades Dai. Apesar de nesse ponto ter um pensamento binário e manipulador da luta entre bem versus mal, portanto, descaracterizando o original e perdendo pontos por isso, a fotografia ainda assim nos propicia um número bem maior de momentos coesos dentro do filme e dentro de sua ideia principal: ser continuação de algo.

O Tigre e o Dragão: A Espada do Destino falha miseravelmente em continuar o legado de Li Mu Bai e a história de Yu Shu Lien. Há romance demais onde deveria haver abnegação; há demonização demais onde deveria haver a aceitação de opostos que precisam existir para completar a realidade, que não pode ser feita de uma única força; há americanização demais em uma sequência que tinha por princípio e execução mostrar uma forma oriental de contar histórias. Seria melhor o Netflix ter adaptado O Cravo e a Rosa. Pelo menos este é o espírito que, inadvertidamente, imprimiram neste filme que supostamente deveria ser a continuação de O Tigre e o Dragão.

O Tigre e o Dragão: A Espada do Destino (Crouching Tiger, Hidden Dragon: Sword of Destiny) — China, 2016
Direção: Yuen Woo-ping
Roteiro: John Fusco (baseado no livro de Wang Du Lu).
Elenco: Donnie Yen, Michelle Yeoh, Harry Shum Jr., Jason Scott Lee, Eugenia Yuan, Juju Chan, Chris Pang, Darryl Quon, Roger Yuan
Duração: 96 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.