Crítica | O Tigre e o Dragão

o tigre e o dragao ang lee

estrelas 5,0

Há muito de poesia em artes marciais. A junção de ritmo, leveza, graciosidade e exatidão dos movimentos de corpos e das coreografias e golpes em lutas, nos melhores filmes do gênero são capazes de impressionar e nos fazer ver o espaço e as leis da gravidade de forma diferente.

Coreografado por Yuen Woo-Ping (que foi coordenador de lutas em filmes como Kill Bill Vol.2 e O Grande Mestre) e dirigido por Ang LeeO Tigre e o Dragão representa com grande vigor esse quê de poesia em movimento das artes marciais, mostrando-nos uma história história de situações simples e até bastante objetivas, mas vividas por personagens complexos capazes de fazer impossibilidades que nos deixam vidrados na tela.

A base do roteiro é literária, trazida do homônimo e penúltimo volume da Pentalogia de Ferro, de Wang Du Lu, lançado no início dos anos 40. O enredo se enquadra no Wuxia, o gênero chinês de ficções ou fantasias de artes marciais ambientadas em uma Idade Média ou Idade Moderna idealizadas, porém, mescladas com elementos históricos verdadeiros, vide as referências visuais à China do século XVIII aqui em O Tigre e o Dragão. Na verdade, é estabelecido pelo roteiro original que as ações se passam no ano de 1779, que se enquadra na Dinastia Qing (1644 – 1912). Nesse espaço entre um mundo que se transformava politicamente e a “anacrônica” jornada de alguns homens e mulheres para alcançar a iluminação, conhecemos o guerreiro Li Mu Bai e sua famosa espada ‘Destino Verde’; seu interesse romântico em uma mulher negócios também treinada, Yu Shu Lien; e Jen Yu, uma jovem aristocrata prestes a se casar, mas que sonha com a vida misteriosa dos guerreiros de quem tanto ouve falar.

Ang Lee entendeu e executou com graça a ideia geral do livro, que é fazer dois mundos interagirem de forma quase natural, tendo uma parte interesses comuns, com momentos cheio de tristezas e felicidades, e outra parte mais propensa à abnegação em prol de algo maior que ela mesma. Princípios do Taoismo e motivos tradicionais da cultura, religiões e artes marciais chinesas como a relação de opostos ente mestre e discípulo, o contato íntimo do homem iniciado com o ambiente natural e elementos de honra, irmandade, família e amor se juntam para contar a história do trio principal, trio este que interage diretamente com personagens muito importantes de seu passado e que de uma forma bastante forte interferem no presente de cada um deles. Exemplos como Dark Cloud, Sir Te e principalmente, Jade Fox se mostram no filme com pontos distintos de importância, mas todos servindo para dar início e até mesmo fim a algum conflito que moverá o Tigre Agachado e o Dragão Escondido. O clímax dessa relação aparece com outro importante símbolo para a mitologia desse universo: o veneno.

Mas o veneno é um elemento motivador também, não apenas o ponto final de toda a luta. Ele começou bem antes dessa história, quando a Raposa envenenou o Mestre de Li Mu Bai e uma promessa de vingança foi feita. Sob esse ponto de vista, O Tigre e o Dragão acaba sendo um filme sobre ciclos causados por coisas inesperadas, impulsos ou emoções muitos fortes, forças maiores. E nesse ciclo vital de acontecimentos, o espectador percebe o quanto uma direção e uma montagem precisas funcionam como reguladoras de sentimentos do público. O filme se constrói como um castelo de penas em uma grande tempestade. Há muito movimento, há lutas gloriosamente coreografadas, saltos e exploração de todas as partes de cenários habitados e naturais, como se os iniciados tivessem domínio sobre tudo e pudessem estar em todos os lugares. Como se pudessem experimentar e manipular o ar, a flora, os animais, a água e outras pessoas a seu favor, para alcançarem algum objetivo. Como todos no filme estão procurando alguma coisa — ou são despertados para procurar e deixar de apenas desejar –, essa forma de abordagem do diretor Ang Lee acaba dando ainda mais dinamismo à busca. Em O Tigre e o Dragão, tudo flui.

A trilha sonora composta por Tan Dun e gravada em pouquíssimo tempo pela Orquestra Sinfônica de Xangai reafirma essa fluidez através de uma tradicional e profunda simplicidade. Dois grandes destaques são as peças para violoncelo, instrumento explorado de maneira a dar toda a docilidade e ao mesmo tempo agressividade da saga (lembre-se do fluxo entre os opostos que perpassa a história), acompanhado por instrumentos de percussão ou por cordas em pizzicato cuja função é a mesma, marcar o dinamismo cênico dos personagens dentro do quadro (a palavra mise-en-scène se aplica aqui de forma originalíssima) de maneira que o movimento não seja encoberto ou tenha sua força dissipada por uma trilha épica, mas ao mesmo tempo, que seja embalado por algo marcante, belo e simples. E a despeito do teor fantástico que marca esses movimentos, há ali tanta elegância e simplicidade quanto a música nos sugere. As duas partes juntas nos são de um verdadeiro enlevo.

Marcado por ser inteiramente falado em mandarim, mesmo com diferentes sotaques, já que parte dos atores não tinham essa língua nativa ou sequer dominavam o idioma; e por ter sido uma grande sensação no Ocidente, levando, só no Oscar, 10 indicações (vencendo em 4 categorias), o que é um feito para um filme estrangeiro, O Tigre e o Dragão é uma obra tão interessante e tão convincente em seu lirismo que consegue nos fazer superar a única parte incômoda de seu roteiro, que é o flashback desnecessário sobre o passado de Jen Yu e Dark Cloud. Mas ao final da sessão, nos lembramos apenas da película ímpar que acabamos de ver. Das situações inacreditáveis, dos belos e acertados figurinos (também pensados em opostos, ora extravagantes e floridos, ora de uma simplicidade monástica), da fotografia que faz milagres em cenas noturnas e realiza algumas das melhores capturas de ambientes naturais em cores dos anos 2000, da saga de três pessoas e alguns aliados durante uma intensa busca. Este é um filme diante do qual não é possível ficar indiferente.

O Tigre E o Dragão (Wo hu cang long) — Taiwan, Hong Kong, EUA, China, 2000
Direção: Ang Lee
Roteiro: Hui-Ling Wang, James Schamus, Kuo Jung Tsai (baseado no livro de Du Lu Wang)
Elenco: Yun-Fat Chow, Michelle Yeoh, Ziyi Zhang, Chen Chang, Sihung Lung, Pei-Pei Cheng, Fa Zeng Li, Xian Gao, Yan Hai
Duração: 120 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.