Crítica | O Touro Ferdinando (2017)

Contém spoilers de acontecimentos na trama, embora, particularmente, eles não estraguem a experiência.

Vocês sabem que essa não é a primeira vez que a história do touro Ferdinando ganha espaço no audiovisual. Em 1938, a Walt Disney Productions produziu a primeira adaptação de The Story of Ferdinand, do autor americano Munro Leaf. O curta-metragem Ferdinando, o Touro não só arremataria para casa o coração de muita gente, como conquistaria uma estatueta de Melhor Curta-Metragem no Oscar. Virada do século e eis que estamos diante de mais uma revisitação a esse livro infantil, agora estendido em duração e virando um longa-metragem. Talvez o maior aliado da Blue Sky Studios na confecção dessa nova adaptação é o próprio Ferdinando, um protagonista que não pede muito para encantar o público, crianças ou adultos. Nesse novo filme, no entanto, o objetivo é investir no escopo do personagem e do mundo a sua volta, não se contentando com a “simplicidade” da obra original. Ferdinando e sua vontade de passar todo o tempo embaixo de uma árvore, apreciando o aroma das flores, continua sensacional, um personagem apaixonante, mas Carlos Saldanha, diretor de obras como Rio, tem mais para apresentar do que “só” isso.

Podemos perceber as diferenças nessa empreitada, em comparação com a história original, logo de início, quando somos apresentados a uma narrativa que trabalha mais do que apenas Ferdinando e seu jeito doce de encarar a vida. O universo das touradas, no ponto de vista do animal, é construído sobre os olhos de pequenos bezerros para depois ser desconstruído, indicando as cutucadas do filme a tal cultura espanhola. Na premissa, Ferdinando (John Cena) foge do rancho que estava sendo criado, destinado a ser um touro feroz que ele nunca quis verdadeiramente ser, após perceber que seu pai não retornaria da seleção que o enviou para um confronto. Ao encontrar uma fazenda para chamar de lar, o bezerro cresce em um lugar condizente por completo com os seus desejos maiores de plenitude e admiração. Já crescido como um touro, um incidente acontece durante uma convenção de flores e Ferdinando é enviado de volta para o rancho, tendo que encarar com chifres e dentes um sistema cruel com os animais, independente do caminho que lhes é oferecido.

Por diversas vezes me peguei pensando, antes da exibição do filme, se a obra de Carlos Saldanha procuraria criticar as touradas, uma violência bárbara sem justificativas, tanto para o homem quanto para o animal. Na própria Espanha, o evento já foi banido em alguns lugares, enquanto que em outros vai perdendo sua relevância gradativamente, como podemos ler nesse texto do El País, de Juan Arias. Todavia, no curta de 1938 e na própria história de Munro Leaf, uma discussão acerca dessa temática ainda não era uma pauta possível. Se até mesmo a Declaração Universal dos Direitos Humanos não existia, tendo sido criada apenas dez anos depois do curta, qualquer reivindicação de direitos para animais estava ainda mais longe de acontecer. Porém hoje estamos vivendo uma evolução no que tange muitos aspectos do resguardo da vida e integridade animal. Embora a adaptação seja de um livro infantil, o qual não precisaria necessariamente ter nenhuma intenção a não ser o contar de histórias usual, o roteiro se esforça em trazer comparações interessantes para o meio. A relação que se faz entre ir para a arena e ir para um abatedouro ganha peso, ao passo que, surpreendentemente, a obra acaba comentando sobre o consumo de carne animal, não da forma destruidora feita por Okja, mas de uma forma leve, não traumatizante, impactante na medida certa para as crianças assistindo ao filme.

Um dos aspectos mais fortes da obra, aliás, é o senso de coletividade que ele emprega na história. Enquanto tínhamos antes um Ferdinando vivendo a sua individualidade plena, sem se preocupar com mais nada além de suas flores, neste filme o personagem busca, com a ajuda de seu carisma que vai aos poucos conquistando cada um dos touros do rancho, fazer com que os seus iguais enfrentem as correntes que homens os alienam a seguir. Em O Touro Ferdinando, a mensagem que se passa é de que cada um pode ser o que quiser, e não ser obrigado – pela ideia de ou você vive ou você morre, ou qualquer variação menos extrema que essa – a seguir paradigmas datados. Um dos momentos que mais funcionam em mostrar a conexão que está sendo criada entre os animais no rancho é a competição de dança entre eles e os cavalos, estes segundos que, apesar de não funcionarem em um primeiro momento (no qual a veia cômica do filme ainda estava desencontrada), ficam muito mais engraçados a partir desta cena. Tal situação teria tudo para apresentar uma jocosidade gratuita, mas acaba por surpassar essa barreira, denotando uma construção de vínculos honestos entre os personagens.

Ademais, assim como se comenta sobre uma “melhora” na funcionalidade dos cavalos como alívios de humor, o mesmo pode ser dito de Angus (David Tennant), o qual começa extremamente deslocado e bobo na narrativa (as crianças irão adorar), até que recebe uma virada de roteiro inesperadamente boa, a qual rende em consequência um plano muito bonito com ele e Ferdinando admirando o horizonte. Da mesma forma que encontrou a beleza nessa cena, a animação optou por tonalidades vivas, especialmente na fazenda, lugar no qual Ferdinando foi verdadeiramente feliz. Em contraste com ela, o rancho é muito mais sujo cinematograficamente falando, mas não necessariamente sombrio. Um dos pontos que são realçados na qualidade técnica do trabalho dos animadores é a textura dos touros, ainda mais a de Ferdinando, personagem que transmite uma verdadeira imponência física, apesar da sua personalidade mais amena.

Retomando a nota do âmbito humorístico da produção, O Touro Ferdinando é bastante divertido. Entretanto, durante sua duração, o longa-metragem não acerta em muitas das suas tentativas de fazer graça. A relação do touro com a cabra Lupe (Kate McKinnon), assim como muitos outros pontos da história, só engata nos seus finalmentes. A adição da personagem no enredo soa preguiçosa porque não tenta trazer algo de substancial logo de início. Quando o rancho retorna a ser o cenário do conto, a história de Ferdinando demora um pouco para encontrar ritmo e instigar o espectador em saber o que acontecerá. A cabra seria a chave para que isso não acontecesse, mas continua por muito tempo sendo uma coadjuvante indiferente à trajetória do touro. Um pouco diferente de Lupe, Valente (Bobby Cannavale) traz mais vigor à narrativa, além de que um dos grandes momentos da obra relaciona-se muito bem com o que seu personagem é em essência, a qual sofre, posteriormente, uma virada interessante, apesar de previsível. Um adendo especial ao Máquina (Tim Nordquist), o único alívio cômico do filme que funciona integralmente. Não existe uma única piada envolvendo esse personagem que não irá tirar um sorriso do rosto do espectador.

Sem querer ou não, o livro de Munro Leaf foi uma gigantesca afronta a muitos pensamentos violentos que se tiveram antigamente, os quais, infelizmente, ainda se mantém consideravelmente nos dias de hoje. Na época de seu lançamento, a história foi proibida na Espanha, condenada por ser uma suposta crítica à guerra civil no país. O livro, e suas duas adaptações, são todos pregadores da não violência, da paz, e de outras qualidades que atendem os nossos anseios utópicos para o futuro da humanidade – e por que não o futuro dos próprios animais? Uma das questões, contudo, que me incomodam na sequência final da obra, a tão esperada luta de Ferdinando contra El Primero, o Matador (Miguel Ángel Silvestre), é o fato do touro ser levado a “atacar” os homens na arena, durante um momento de confusão que lhe é submetido. De fato o personagem não agride ninguém propositalmente, mas teria sido muito mais frutífero para a intensificação do próprio discurso do filme se o mesmo permanecesse o tempo todo sereno, mantendo uma pose (embora diante da sua iminente morte) pacífica de tranquilidade, da mesma forma que no curta de 1938. O que acontece é que ele acaba vencendo El Primero por pura sorte, quando teria sido muito mais impactante se ele fizesse o mesmo sem avançar contra o Matador uma única vez. Apenas sentando no chão e apreciando as flores, desestabilizando assim a estrutura do espetáculo de horror como espetáculo. Sua morte não seria uma “ocasião”, mas uma execução. De qualquer forma, é bom que o roteiro não force um antagonista completamente vilanesco, além de que, quando o filme decide fazer ambos os personagens se encararem, ele faz isso muito bem.

A complementar a análise, não podemos deixar de citar os demais personagens humanos. Apesar de no início do filme o laço entre Nando e Nina (Lily Day) ser aparentemente bem estruturado, é impossível comprar a atitude do pai diante da relevação de que o touro da família irá ser o protagonista do confronto de despedida de El Primero. O homem certamente conhece o destino que aguarda os touros. Sabendo que o que acaba acontecendo com Ferdinando – sua vitória – é, em um primeiro plano, algo deveras improvável, levar sua filha para a arena é um pouco doentio, pois ele está levando-a, na verdade, para assistir a execução de seu melhor amigo. Um imenso furo de roteiro, o qual existe apenas para criar um momento extremamente piegas entre o touro e a menina, dado o fato da garota ter sido simplesmente esquecida em termos dramáticos depois do “sequestro” de Ferdinando.

Mesmo com todas essas ressalvas, O Touro Ferdinando é uma animação tecnicamente muito bonita, que encontra sua relevância nas críticas sociais que faz, mesmo que não as trabalhe da maneira mais focada e determinada. Apesar disso, e do humor de altos e baixos, o espectador definitivamente estará assistindo a uma revisitação charmosa de uma história que não perde a sua beleza, pois conta com um personagem amável que, décadas depois, ainda continua cheirando as mesmas flores embaixo daquele mesmo sobreiro. Diferentemente de 1938, Ferdinando agora ainda conta com grandes amigos para lhe acompanhar na sua contemplação da vida.

  • A sessão assistida para elaboração dessa crítica foi dublada, portanto, nenhum comentário foi feito sobre as performances das vozes originais. Se querem ler um pouco de uma revolta que compartilho sentimentalmente, leiam o Plano Polêmico a seguir.

O Touro Ferdinando (Ferdinand) EUA, 2017
Direção: Carlos Saldanha
Roteiro: Robert L. Baird, Tim Federle, Brad Coperland (baseado na obra de Munro Leaf)
Elenco: John Cena, Kate McKinnon, Bobby Cannavale, Jeremy Sisto, Jerrod Carmichael, Julia Saldanha, Raúl Esparza, Peyton Manning, Gina Rodriguez, Anthony Anderson, David Tennant, Tim Nordquist, Daveed Diggs, Miguel Ángel Silvestre, Gabriel Iglesias, Lily Day, Juanes, Flula Borg, Boris Kodjoe, Sally Phillips
Duração: 108 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.