Crítica | O Trapalhão no Planalto dos Macacos

estrelas 2

Todo mundo já passou por essa experiência. Filmes assistidos durante a infância e adorados que são revistos quando já adultos somente para eles se revelarem verdadeiras bombas cinematográficas. Faz parte do processo de amadurecimento, que nos permite ver com outros olhos aquilo que carrega uma forte e pessoal atmosfera nostálgica e sentimental. O resultado é uma pilha de filmes que entram nessa gaveta mental e uma lição que quase sempre é acertada: essas obras assistidas em tenra idade que geram boas lembranças não devem ser reassistidas com mais idade, sob o perigo de todo o seu charme nostálgico esvair-se diante de nossa incapacidade plena de julgamento à época.

Provavelmente vocês concluirão que eu direi agora que O Trapalhão no Planalto dos Macacos é uma dessas fitas para mim, que eu a vi quando criança e que, revendo para redigir a crítica, não sobrou pedra sobre pedra. Mas não. Não é o caso aqui. Com um misto de vergonha profunda e felicidade intensa, confesso que saí surpreso da minha volta ao passado longínquo, quando os filmes dos Trapalhões eram tão aguardados por mim quanto hoje eu aguardo um filme de Christopher Nolan, Dennis Villeneuve ou David Fincher. Os tempos mudaram, mas, pelo visto, nem tanto, pois a paródia tosca, trash e na fronteira do tenebroso de O Planeta dos Macacos com Renato Aragão, Dedé Santana e Mussum, este no primeiro longa com o grupo, divertiu-me agora mais do que tinha direito e minha admissão disso, aqui, é quase como uma tentativa de expiar um pecado, de pedir clemência por um crime indesculpável.

Mas talvez uma explicação para meu prazer em rever O Trapalhão no Planalto dos Macacos resida em meu intenso desgosto pela exacerbação do politicamente correto em que quase nada pode ser dito sem que a patrulha da completa falta de lógica e noção e da incompreensão sobre o que é liberdade de expressão ligue as sirenes, aponte dedos e trancafie “malfeitores”. Os Trapalhões é anacrônico e idiossincrático hoje em dia e isso é maravilhoso. Um nordestino que não tem vergonha de abraçar os estereótipos, um almofadinha que tem sua masculinidade a todo tempo posta em dúvida e um negro que fala “erradis” e é viciado em “mé” me fizeram sorrir e rir muito mais do que muita comédia antisséptica que volta e meia vejo por aí.

Logicamente, reconheço o amadorismo da técnica cinematográfica de J.B. Tanko neste sexto filme dos Trapalhões dirigido por ele, 11º filme em geral do grupo que começou com Na Onda do Iê-Iê-Iê, em 1965. Seu roteiro é básico, composto de uma perseguição sem sentido no início que leva Conde (Aragão), Alex (Santana) e o guarda Azevedo, digo, Azevids (Mussum), além do balonista Rodrigo (Alan Fontaine) em um balão para uma terra dominada por símios e onde encontram pérolas valiosíssimas descartadas por eles e que são recolhidas com ganância por Conde. É uma bobagem completamente nonsense e mal-costurada, com paródia não só do óbvio, mas também de Tubarão, lançado um ano antes, em um momento deliciosamente constrangedor.

As atuações de todo o elenco de apoio são inexistentes. Fontaine é assustador de ruim e Fátima Leite, que faz Ula, versão dos Trapalhões de Nova, tem dotes artísticos que envergonhariam Megan Fox. O divertido Carlos Kurt, por sua vez, aparece sem máscara fazendo uma ponta de alguns segundos, somente para, depois, encarnar o Macaco Guerreiro (essa vergonha aí da imagem), tendo toda sua já pouca qualidade dramática destruída por uma prótese que não dá nem para chamar de prótese de verdade, estando mais para uma máscara carnavalesca sem qualquer expressão e que, hilariamente, abafa sua voz completamente, voz essa que a produção nem se deu ao trabalho de regravar em estúdio (afinal para que, não é mesmo?).

Com isso, somente a trinca principal funciona naquele estilo corporal de ser, com os exageros usuais de Didi, Dedé e Mussum, exageros esses que, confesso mais uma vez, me fizeram rir diversas vezes, especialmente o jeito esganiçado e sofredor de Mussum sempre correndo atrás dos outros dois gritando “cacildis” e nunca entendendo nada do que está acontecendo ao seu redor. Em determinado momento, quando os símios (ah, macacos, vai…) transformam Alex em um deles – porque sim, isso acontece – a ação surreal engrena, com direito a anestesia-porrete e a pérolas negras que são, na verdade, cocô de cabra. É uma imbecilidade tão gostosa que os 84 minutos da fita voaram, especialmente depois que os desnecessários 25 minutos iniciais sem macacos acabaram.

O Trapalhão no Planalto dos Macacos é um “trashão” cômico nacional da melhor qualidade. Um filme que dialogará perfeitamente com quem viveu a época e gostava do grupo e horrorizará (no bom sentido, arrisco dizer, mas não me importo se for no mau sentido), aqueles que nunca viram Os Trapalhões e só os conhecem de nome (ou nem isso…).

O Trapalhão no Planalto dos Macacos (Brasil, 1976)
Direção:  J.B. Tanko
Roteiro:  J.B. Tanko
Elenco: Renato Aragão, Dedé Santana, Mussum, Alan Fontaine, Rosina Malbouisson, Carlos Kurt, Fátima Leite, Renato Bastos, Vera Capua, Milton Carneiro, Olívia Pineschi, Youssef Salim Elias, Ferreira Duarte, Edson Farias, Afonso Brazza
Duração: 86 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.