Crítica | O Ultimato Bourne

estrelas 5,0

Obs: Há spoilers dos filmes anteriores, cujas críticas podem ser lidas aqui: franquia Bourne. Crítica originalmente publicada em 05 de setembro de 2012.

Que Batman que nada. Querem ver o encerramento perfeito de uma trilogia? Assistam O Ultimato Bourne. O filme é uma excitante experiência audiovisual moderna como poucas por aí.

Sem nem perder tempo com introdução e partindo da premissa que todo espectador se lembra perfeitamente de A Supremacia Bourne, Paul Greengrass nos joga no meio da ação, exatamente no final do filme anterior, logo depois que Jason Bourne (Matt Damon) mata Kirill (Karl Urban), o assassino de Marie (Franka Potente). Vemos como ele deixa os russos a ver navios e parte para, de uma vez por todas, desbaratar o programa Treadstone da CIA, que o criou. O que vemos, em seguida, é uma impressionante e bem orquestrada investigação por parte de Bourne que o leva para a Londres, Madri, Tânger e, finalmente, Nova Iorque.

Se minha crítica tivesse apenas um parágrafo, eu a dedicaria integralmente ao ponto alto do filme – e de toda a série – que, por incrível que pareça, acontece no começo e não no fim da obra. Trata-se da cena passada na estação de Waterloo, em Londres, em que Bourne tenta, de toda maneira, proteger um repórter abelhudo (Simon Ross, vivido por Paddy Considine) que o investiga. A seqüência é longa e crivada de cortes e movimentos de câmera precisos que nos mostra exatamente aquilo que é necessário para acompanharmos seu desenvolvimento. Repare que, quando Bourne dá instruções a Ross via celular, Greengrass permite que nós vejamos precisamente aquilo que Bourne observa, mas, quando o foco é em Ross, um completo leigo na arte da espionagem, a precisão da câmera se perde, transmitindo-nos de maneira magistral o que cada um dos personagens vê, sente, imagina e calcula. Esse é um daqueles momentos cinematográficos que merece ser visto e revisto só para percebermos cada um dos detalhes da rápida montagem, que ainda conta com trechos em Nova Iorque, na sala de controle da CIA, com Noah Vosen (David Strathairn) no comando da asfixiante missão.

No entanto, minha crítica tem mais de um parágrafo e, assim, posso me dar ao luxo de comentar ainda outras cenas que, mesmo não alcançando o patamar técnico da que descrevi acima, não deixam de ser excitantes e instrumentais para o desenrolar do filme. Greengrass demonstra um controle de tempo e ritmo extraordinário, seguindo um espertíssimo roteiro de Tony Gilroy (novamente escrevendo, juntamente com outros dois roteiristas) que não tem mais amarras narrativas como o romance de Bourne com Marie para quebrar a fluidez da película. Tanto é assim que, de Londres, Bourne parte para Madri, onde vemos uma cena menor, em local escuro, em que nosso herói mostra toda sua habilidade de MacGyver para derrotar seus caçadores. O mesmo vale para a perseguição de moto pelas ruas e a pé pelos telhados de Tânger e, claro, a obrigatória fuga automobilística – esta muito parecida com a de A Supremacia Bourne – para fechar a pancadaria ininterrupta.

Mesmo com um ritmo ainda mais frenético que seus antecessores, Greengrass e Gilroy não esquecem do conflito de seu personagem. Afinal de contas, Bourne não é Bourne sem seus tormentos internos, suas memórias esfaceladas, sua angústia comovente. Damon está novamente perfeito no papel, transmitindo suas emoções com clareza, apesar do frenesi de suas ações. Agora, Bourne é atormentado com visões do que parece ser o início de seu condicionamento especial e seu foco é descobrir de onde ele veio, como ele se tornou o que é. Há uma volta ao tema de A Identidade Bourne, em que  o protagonista não sabe quem é exatamente, mas não deseja ser aquilo que descobre que é. Em Ultimato, Bourne já aceitou sua condição, mas não se conformou com ela. Precisa descobrir seu criador. Precisa tentar evitar que esse processo continue com outros.

Todas as ações de Bourne fazem sentido e têm como objetivo essa descoberta final, que se dá no centro de treinamento dos agentes, depois que as várias perseguições se acalmam. É um momento quase lírico, quando Bourne encara o Dr. Albert Hirsch (Albert Finney, ótimo) na sala em que deixou de ser David Webb para abraçar integralmente sua nova persona. Tudo branco, vazio, só os dois presentes com uma arma entre eles. Quem realmente era Bourne antes de ser Bourne? A revelação é aterradora.

Gilroy não deixa pontas soltas. Ele encerra sua trilogia de maneira lógica e satisfatória. Greengrass faz jus ao roteiro e dirige magistralmente, arrancando atuações intensas de Damon, Allen, Strathairn e Finney e até mesmo dos assassinos calados que só cumprem ordens, sem, em nenhum momento, descuidar da montagem e fotografia.

Olhando para hoje em dia por um momento depois de rever a trilogia Bourne – e agora fugindo um pouco dos comentários objetivos sobre O Ultimato Bourne – noto como a arte de fazer filmes mudou em tão pouco tempo. A reunião de cérebro com ação é algo cada vez mais raro hoje em dia, pois, aparentemente, isso não deve dar dinheiro. Será que o público é tão simplório assim ou será que os produtores nos subestimam? Considerando a quantidade de filmes rasos que nos são jogados pela máquina hollywoodiana a cada semana, com receptividade gigantesca do público, talvez nós tenhamos que olhar para nossos próprios umbigos e concluir que quem não quer pensar muito somos nós. Filmes como os da trilogia Bourne são escassos, em um mundo em que o bom, o “correto” é requentar ideias, seja sob a forma de reboots, remakes ou de continuações. Sim, Bourne teve duas continuações em última análise desnecessárias como quase todas as continuações, mas reparem na sua execução cuidadosa. Havia histórias relevantes para contar. Havia um arco evolutivo crível de um personagem que cativa a platéia. Não foram continuações feitas apenas para que mais coisas pudessem ser explodidas ou mais cabeças pudessem ser cortadas. O desenrolar da trama parece lógico e consistente e trabalhado com uma cadência de dar inveja a um sem número de outras trilogias. Sim, sei que há várias que merecem nosso respeito e, em certos casos, veneração, mas, no cômputo geral, o público tem saído perdendo com o “quanto mais barulho melhor” que cada vez mais se estabelece como o slogan da indústria audiovisual americana.

Sei que aproveitei para desabafar, mas não resisti. Espero que meus leitores compartilhem desse sentimento e façam comentários aqui. Os que discordarem também. Uma coisa, porém, é indubitável: O Ultimato Bourne é o fecho de ouro para uma trilogia impressionante que reinventou o gênero.

O Ultimato Bourne (The Bourne Ultimatum, Estados Unidos/Alemanha, 2007)
Direção: Paul Greengrass
Roteiro: Tony Gilroy, Scott Z. Burns, George Nolfi
Elenco: Matt Damon, Julia Stiles, David Strathairn, Scott Glenn, Paddy Considine, Édgar Ramírez, Albert Finney, Joan Allen, Tom Gallop, Corey Johnson, Daniel Brühl, Joey Ansah, Colin Stinton, Dan Fredenburgh, Lucy Liemann
Duração: 115 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.