Crítica | O Último Amor de Mr. Morgan

estrelas 4

Foi Claude Lelouch, o diretor de Um Homem e Uma Mulher, quem disse: ¨em uma história de amor, quanto mais frio, mais se almeja o calor¨. Essa sensação pode ser reconhecida na solidão invernal em que Michael Caine se isola no filme O Último amor de Mr. Morgan. Diferente do que o título tende a indicar, esse amor se dá na forma do reencontro com o amor que está em falta para Matthew Morgan, após a morte da esposa.

Um encontro inusitado entre o protagonista e uma jovem sorridente chamada Pauline, em quem esbarra no ônibus, abre a oportunidade para uma relação que tenta preencher o vazio de cada um deles. Afinal, quando ele passa a ter o impulso de cuidar de outra pessoa, ele se sente útil novamente. Matthew enxerga nessa moça o passado feliz do qual não consegue se desapegar. Nessa dor ele havia se tornado um viúvo que vive a apatia crescente em virtude da solidão, o que vai se dissipando com a presença de Pauline.

A relação com a esposa aparece como uma forte ligação. Morando em Paris há anos, Matthew nunca aprendeu a falar francês. O desinteresse em aprender o idioma é apenas uma maneira de demonstrar como ele criou uma relação de dependência com a esposa. Era através dela que ele vivia e sem ela já não havia livros, não havia os detalhes que criam motivos para apreciar a vida. Essa cumplicidade entre o casal remete ao filme de Michael Haneke, Amour.

Esse roteiro é costurado com cenas-chave que servem para descrever visualmente a narrativa, de forma que o uso de palavras não se faz necessário. Um exemplo disso é a cena em que Matthew caminha sozinho pela rua e, de repente, vemos uma mão segurando na sua e em um instante isso se desfaz e assistimos o caminhar desse homem desacompanhado, numa clara motivação narrativa para indicar que a presença da esposa se fazia presente dentro dele.

No entanto, o filme tem muitas outras cenas com apelo visual e cheias de momentos ricos de significados. Como quando ele abre uma janela emperrada e consegue avistar a Torre Eiffel, construindo o sentido de que ele está mais uma vez receptivo aos estímulos de confiança e simpatia que Pauline instiga nele.

Com a trilha sonora assinada por Hans Zimmer, a eloquência entre som e visual é inevitável, criando uma aura que combina com o gênero de filme e consegue dar graça e sutileza à apatia em que está entregue Matthew. Em geral, esse filme assume um caráter um tanto quanto previsível, mas ainda assim cativa por esses momentos poéticos que são enfatizados pela estética da fotografia que consegue legitimar as tonalidades do inverno. O inverno de Matthew, que se apega à Pauline pela forma calorosa com que ela o trata. 

O Último amor de Mr. Morgan (Mr. Morgan’s Last Love, Alemanha/Bélgica/EUA/França – 2013)
Diretor: Sandra Nettelbeck
Roteiro: Sandra Nettelbeck
Elenco: Michael Caine, Michelle Goddet, Jane Alexander, Miles Morgan, Pauline Laubie, Karen Morgan
Duração: 116 min.

GABRIELA MIRANDA . . . Cinéfila inveterada, sigo a estrada de ladrilhos amarelos ao som de Jazz dos anos 20 enquanto escrevo meu caminho entre as estrelas. Com os diálogos de Woody Allen correndo soltos na minha cabeça, me pego debatendo entre gostar mais do estilo trapalhão ou de um tipo canalha de personagem. Acima de tudo, acredito que tenho direito de permanecer com minha opinião. Mas acredite, nada do que eu disser poderá ser usado contra os filmes.