Crítica | O Último Ato

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estrelas 4,5

Rosto de máscaras. A comédia e a tragédia sob os holofotes do teatro projetam sombras na tela do cinema. Com uma fotografia que busca os detalhes, os trejeitos, a roupa, e tudo aquilo que faz parte da construção da aura de um personagem de uma peça, O Último Ato (2014) joga com o claro e escuro para divagar entre a farsa e a realidade vivida por Al Pacino na pele de Simon Axler, que se diz incapaz de distinguir um do outro e envolve o espectador nessa sensação confusa e conflituosa.

Seria um descuido não traçar a comparação inevitável desta fita com Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) (2014)Existe um certo deja vù implícito na história dos bastidores da controvérsia de um ator envelhecido que tem um passado de fama à expiar. O desfoque intencional que tira a certeza do espectador. O questionamento do talento e da habilidade em exercer o ofício que antes vinha tão fácil e agora partiu para uma queda gradual pelo apetite esmaecido, e outros pontos bem semelhantes, tratam de entrelaçar os filmes.

Mas existem diferenças latentes. Lá existe a crítica ao crítico e à indústria de entretenimento, aqui existe uma crítica à interação com a platéia e como ela reage (nisso incluo o espectador). Além do mais, as discussões tomam rumos completamente diferentes.

Nesta adaptação do romance A Humilhação de Philip Roth, a conversa se baseia na exploração dos papéis criados e vividos por todos na sociedade. A frase que abre o filme e é repetida por Pacino em tons e interpretações diferentes diz muito sobre o que o filme vai tratar: “o mundo inteiro é um palco”.

Existem personagens que irrompem em cena para acentuar e possibilitar a descoberta de algumas características deste homem que a câmera segue com curiosidade. Ele perdeu a habilidade de rememorar as falas e se vê diante de uma platéia apática, que deixou de interagir com as emoções que transbordam no palco. E, por conta da humilhação de não conseguir mais proferir as palavras escritas por Shakespeare, decide que o suicídio deve ser o ato final antes de fecharem as cortinas.

As luzes piscando durante todo o filme indicam que algo está para começar. A partir daí Pacino “cria” personagens para acompanhar ele no último ato. Greta Gerwig interpreta Pegeen, uma menina-mulher lésbica que tem uma paixão platônica por Pacino desde criança e se identifica com o jeito excêntrico dele. Ela dá a deixa para outras figuras entrarem em cena: uma mulher mais velha que se sente vulnerável por ter acreditado nas palavras doces de Pegeen e um homem transexual, que vivia com ela quando ainda era uma mulher.

Tem uma frase interessante que Pacino usa para responder a uma pergunta sobre a razão de ter levado Gerwig para fazer uma mudança de figurino. Ele explica que todos os personagens de uma peça tem de se vestir de acordo para não confundir a audiência. Esse ponto é realmente sujeito a uma reflexão maior. Porque no fundo existem vários “papéis” que não se enquadram.

Por vezes a iluminação usada remete ao Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças (2004) — que dialoga com a temática da mente em que constrói e desconstrói memórias e mostra uma fuga para manter o que será perdido — com o uso de uma única fonte de luz, como se Pacino estivesse sendo procurado pelo holofote do palco mesmo fora dele. Isso cria a impressão de uma barreira esmaecida entre a verdade e o que ele quer acreditar.

Juntos ele e Gerwig montam um trenzinho que percorre a casa inteira e no meio de uma cena em que a intenção parece ser explorar em que ponto a solidão dele vira um convite para a crise de identidade dela, a frase que marca é: “somos engenheiros brilhantes, nem tivemos que contratar mão de obra escrava”. Isso marca claramente uma pitada da comédia que eles usam para tentar equilibrar e desestabilizar com o drama. O filme todo faz esses jogos de verso e inverso.

Ao fim resta a incrível habilidade de Pacino, como fazia tempo que não era vista, para traduzir a complexidade em torno de uma performance honesta, buscada todo tempo pelo personagem dele, e a ficção. Ele se desmente todo tempo quando uma hora quer convencer as pessoas da platéia de que aquilo que veem no palco é real e no outro instante quer que acreditem que aquilo que ele faz é mera ficção, faz de conta. Essa é a crise e a “identidade” dele. O rosto de máscaras oscilantes.

O Último Ato (The Humbling, EUA – 2014)
Diretor:
Barry Levinson
Roteiro:
Buck Henry, Michael Zebede, adaptado do livro escrito por Philip Roth
Elenco:
Al Pacino, Greta Gerwig, Kyra Sedgwick, Dianne Wiest, Charles Grodin, Dylan Baker, Dan Hedaya.
Duração:
112 min.

GABRIELA MIRANDA . . . Cinéfila inveterada, sigo a estrada de ladrilhos amarelos ao som de Jazz dos anos 20 enquanto escrevo meu caminho entre as estrelas. Com os diálogos de Woody Allen correndo soltos na minha cabeça, me pego debatendo entre gostar mais do estilo trapalhão ou de um tipo canalha de personagem. Acima de tudo, acredito que tenho direito de permanecer com minha opinião. Mas acredite, nada do que eu disser poderá ser usado contra os filmes.