Crítica | O Último Cine Drive-In

estrelas 5,0

Primeiro longa de Iberê Carvalho, O Último Cine Drive-In é um filme sobre o amor ao cinema e à família com um forte verniz nostálgico pelo qual  é impossível não se apaixonar. Uma pitada de Cinema Paradiso aqui, outra de Campo dos Sonhos ali e pronto, está montado um filme que arrancará sorrisos e lágrimas na mesma medida em qualquer um, além de ativar, nos mais velhos, aquela parte do cérebro quentinha e gostosa que é recheada de memórias de uma época mais simples.

Marlombrando (Breno Nina) trouxe sua mãe (Fátima, vivida por Rita Assemany) para Brasília para ela se  tratar em um hospital. Ainda não se sabe exatamente o que ela tem, mas a demora no atendimento e a cada vez maior complexidade de diagnóstico o leva a procurar seu pai, Almeida (Othon Bastos), dono do último drive-in do Brasil, para ter onde ficar. O lugar está caindo aos pedaços, tornando-se um motel ao ar livre, com dois ou três carros por noite, mas Almeida continua firme e forte, sem desistir do seu propósito de projetar filmes todas as noites, com seu confiável projetor apropriadamente apelidado de Matusalém.

Almeida tem sua própria “família” no drive-in, seu fiel ajudante Zé (Chico Sant’anna) e Paula (Fernanda Rocha), uma moça grávida que ele trata como filha, ou o mais próximo disso que ele consegue. Quando “Brandinho” volta ao lar, Almeida o recebe de braços abertos, mas o rapaz só quer mesmo uma cama para dormir, pois há anos não fala com o pai e não pretende começar agora.

O roteiro é econômico. Mostra muito mais do que explica. Deixa nas entrelinhas, no silêncio, muito mais informação que muito roteiro verborrágico por aí. É nas meias palavras, nos olhares, nos momentos de contemplação que o filme triunfa onde outros afundam. Quem quiser explicações em detalhes do passado de Marlombrando, Fátima e Almeida, não encontrará em O Último Cine Drive-In. Da mesma maneira, quem quiser surpresas, reviravoltas e coisas do gênero, ficará a ver navios. O filme é simples, com uma narrativa básica, perfeitamente previsível a partir de 10 minutos de projeção.

Mas isso não prejudica a fita. Não mesmo. Nem de longe. O seleto time de atores, capitaneado pelo veterano Othon Bastos, com sua característica “carranca bondosa”, tem excelente química. Ninguém parece fora do lugar ou tem algum tipo de interação artificial, mesmo a esculhambada, mas divertida “Paulinha”, que funciona como alívio cômico em diversos momentos.

O trabalho de fotografia de André Carvalheira (Uma Dose Violenta de Qualquer Coisa) faz o melhor para capturar o espírito de Brasília e transportá-lo para o filme. A cor avermelhada é transposta para seu trabalho, assim como tomadas vazias de pessoas, espelhando as principais características da cidade, sem usar seus característicos prédios (a única exceção é a Catedral Metropolitana, que aparece ao longe em alguma sequências) e sem depender da beleza natural. Ele empresta um ar urbano e solitário à fita, emulando os sentimentos de Marlombrando, que ressente a bipartição de sua família.

Iberê Carvalho não economiza no silêncio, no som diegético e em tomadas simples, sem bruscos movimentos de câmera para dar um ar contemplativo ao seu trabalho, de maneira que nós mesmos possamos pensar na experiência de ir ao cinema e, também, no poder da família e da amizade. Sobre esse último ponto, vale destacar a tomada em que Almeida, fora da tela, conversa com seu amigo milionário Amir (Mounir Maasri), que aparece sentado em seu enorme home theater caseiro de meros 80 lugares. Sentimos a solidão dos dois e, ao mesmo tempo, o calor do diálogo que ganha visualmente essa característica com o “vermelho-cinema” das cadeiras que a câmera parada foca.

O Último Cine Drive-In é de uma plasticidade frugal, um verdadeiro prato cheio para cinéfilos e famílias em geral. Todos serão premiados com uma história enriquecedora e despretensiosa – simples, é verdade, mas simplicidade não deveria ser um problema, não é mesmo? – e atuações na medida para fazer qualquer um sair da sala escura com um sorriso no rosto.

O Último Cine Drive-In (Idem, Brasil – 2014)
Direção: Iberê Carvalho
Roteiro: Iberê Carvalho, Zé Pedro Gollo
Elenco: Othon Bastos, Rita Assemany, Breno Nina, Fernanda Rocha, Chico Sant’anna, Zécarlos Machado, André Deca, Rosanna Viegas, Mounir Maasri
Duração: 98 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.