Crítica | O Último Exorcismo

O Último Exorcismo

estrelas 4

Câmera tremida, elenco desconhecido e relatos aparentemente “reais”. Não estamos falando de franquias de sucesso como A Bruxa de Blair ou Atividade Paranormal, mas de O Último Exorcismo, exemplar digno do subgênero que desde O Exorcista entregou poucas produções interessantes. Com elementos do found foutage e das narrativas de possessão, a trama inovou e conquistou algumas plateias do grande público e de festivais ao redor do planeta.

A trama nos leva a Louisiana, nos Estados Unidos, para deflagrar o que Louis Sweetzer (Louis Herthum) acreditar ser a possessão demoníaca de sua filha Nell (Ashley Bell). Animais estão morrendo, coisas estranhas acontecendo, num aparente surto de negatividade. Para resolver o problema a narrativa traz o reverendo Cotton Marcus (Patrick Fabian), um homem experiente que já tendo feito outros exorcismos, decidiu documentar o que designou como a sua última expulsão demoníaca. Sendo assim, leva a sua produtora e um cinegrafista para registrar toda a situação.

O que ele não esperava era que ao chegar ao local, as coisas iriam sair do planejado. E é neste ponto que devemos parabenizar o roteiro da dupla Andre Gurland e Huck Botko.  Antes de partir para a sua missão, aliás, antes dela ser apresentada ao público, o filme radiografa o personagem do reverendo, demonstrando que ele é alguém que não tem a fé necessária para realizar rituais deste tipo. Cotton recebe constantes cartas de pessoas que alegam estar possuídas por demônios, mas a sua ideia durante a realização destes rituais é provar que nem Deus nem o Diabo existem.

Segundo o personagem, “se as pessoas acreditam que estão com o demônio e eu as ajudo a sair de suas cabeças, sinto que cumpri o meu papel”. É nesta linha de pensamento que ele segue para produzir o seu documentário, numa interessante crítica ao fanatismo religioso que vem tomando o mundo na contemporaneidade, refletindo traços milenares que oprimem e colocam povos e pessoas em estado de guerra.

Ao aproximar-se de Louisiana, Cotton narra as suas experiências e fala para os seus companheiros de viagem, bem como para o público, a situação do estado. É neste momento que o filme se mostra mais interessante, pois as imagens coadunam com as afirmações do personagem. Um misto de beleza e silêncio, desolação e quietude, num local que ainda guarda resquícios seculares da sua história, num caldeirão cultural que envolve pentecostalismo, catolicismo romano, vodu, etc., questão pulsante responsável por mexer tanto com as crenças das pessoas que topam fornecer depoimentos sobre as suas experiências religiosas.

Cotton, ao chegar, estuda o espaço, busca compreender a situação da família, aproxima-se de todos, utiliza o seu arsenal placebo (uma gravação de sons guturais que imitam “demônios”, crucifixo que expele fumaça e um anel que dá choque nos “possuídos”). Após cumprir a sua missão, recebe o dinheiro, segue rumo para a sua casa, mas antes, decide dormir num hotel à beira da estrada, visando viajar mais descansado.

É quando a equipe se surpreende com a presença de Nell na localidade. Em estado catatônico eles a levam para um hospital próximo e ao receber socorro, são informados que a moça está grávida. Como assim? É neste ponto que as coisas se tornam ainda mais complexas, haja vista as afirmações fervorosas do pai sobre a virgindade de Nell e a sua decisão de aniquilar a filha, afinal, além de possuída, ela está sendo violada pelo demônio, algo inaceitável de acordo coma  fé da família.

Um segundo exorcismo é solicitado, o que abala parcialmente as concepções de Cotton. No entanto, além de não saber mais se de fato a garota está ou não possuída, ele e a equipe ainda serão surpreendidos por um gancho narrativo final ao estilo O Bebê de Rosemary, pois nada é o que parece naquela região e Nell pode ser apenas um instrumento para uma conspiração satanista. Ou não? O filme reserva surpresas, confira você mesmo, caro leitor. Adianto que o final é pessimista e depressivo, diferente do que inicialmente poderíamos imaginar.

Comparado ao que já foi realizado no subgênero, tendo orçamentos exorbitantes e atores de grande porte, O Último Exorcismo é uma obra-prima. Ashley Bell cumpre muito bem a sua tarefa, entregando contorcionismos e caretas assustadoras que dispensam efeitos especiais. Ao longo dos seus 87 minutos, o filme demonstra-se eficiente, vacilante em alguns poucos momentos. A direção de Daniel Stamm não peca para alguém que estava em início de carreira.

O filme foi um sucesso. Realizado pelos mesmos produtores de Madrugada dos Mortos e O Albergue, O Último Exorcismo custou quase U$2 milhões e arrecadou dez vezes mais somente em seu final de semana de estreia. O sucesso financeiro, no entanto, abriu precedentes para coisas ruins posteriormente, leia-se O Último Exorcismo – Parte 2, bomba atômica cinematográfica, reflexão, entretanto, cabível para outra crítica.  .

O Último Exorcismo (The Last Exorcism) – EUA /2010
Direção: Daniel Stamm
Roteiro: Andrew Gurland, Huck Botko
Elenco: Allen Boudreaux, Ashley Bell, Iris Bahr, Jamie Alyson Caudle, Louis Herthum, Patrick Fabian, Shanna Forrestall, Tony Bentley
Duração: 80 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.