Crítica | O Último Grito, de Thomas Pynchon

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Com a paranoia, Thomas Pynchon consegue amalgamar elementos tão diversos e distantes uns dos outros, que qualquer outro autor trataria em separado, em livros diferentes. Tecnologia, judaísmo, maconheiros, yuppies, família, jazz, o atentado de 11 de Setembro e capitalismo tardio são — e ainda há mais, muito mais — elementos unidos com destra coerência por Pynchon em O Último de Grito. Para quem já leu seus romances titânicos, como O Arco-Íris da Gravidade, com seus mais de 400 personagens, não há de ficar tão impressionado. O que faz a diferença aqui é o Pynchon amadurecido, quase um Pynchon pai de família. Sempre com suas críticas para todos os lados, o livro trás diversas complicações familiares como base de intrigas monumentais e problemas que atingem a sociedade em um escopo quase sem fim.

Acompanhamos a história de Maxine Tarnow uma judia examinadora de fraudes ex certificada, seus filhos (Ziggy e Otis), seu relacionamento com seu ex marido (Sid Kelleher) e o confuso caso, que o documentarista desmiolado Reg Despard, a envolve. A história já começa no primeiro dia da primavera de 2001, com Maxine levando seus filhos para a escola, antes de começar seu dia no trabalho, seu escritório de investigação de fraudes, algo que já deixa qualquer leitor de Pynchon surpreso. Surpreso por um motivo apenas: o destaque dado aos filhos e suas vidas, logo de cara, e isso segue até o final. Já nesse primeiro capítulo, somos apresentados ao início da investigação e a um montante incontável de personagens e eventos passados, da forma louca que Pynchon sempre imprime. A investigação começa a partir do momento que Reg, fazendo um documentário sobre a Hashslingrz, uma firma de segurança de computadores, acha algumas coisas estranhas acontecendo na empresa e passa o caso para Maxine, que começa a investigar. Ao mesmo tempo em que começa a descobrir os podres da empresa, seu ex-marido volta à cidade para trabalhar no World Trade Center — o que de cara já nos leva a um pensamento sobre um destino para o personagem.

Bleeding Edge é o título original do livro e faz referência à expressão que denomina tecnologias tão novas que não se sabe o nível de confiabilidade que pode-se dar a elas, ou se haverá algum investidor em um futuro próximo. O personagem Gabriel Ice, dono da empresa Hashslingrz, é, ao mesmo tempo, um gênio da computação, desenvolvedor de diversas novas tecnologias – muitas não confiáveis – e, ele próprio, sendo um Bleeding Edge dos seres humanos – tanto um representante do início dos humanos ultra-ligados a máquinas e informação a qualquer custo, como um produto do capitalismo tardio, tudo isso sempre ligando à geração atual e jovens adultos. Ele é o vilão excessivamente paranoico, como todos os personagens do livro, na verdade, e é, ao mesmo tempo, um brinquedo de um jogo maior que ele; é um homem esperto e ambicioso, mas também um jovem adulto ingênuo. Ele é binário como as máquinas que o faz ganhar dinheiro. É um dos melhores personagens já criados por Pynchon e representa muito do que o mundo se tornou. Vale ainda lembrar que é um dos únicos personagens do livro cuja família (pai e mãe, quem sabe irmãos) não é representada, e cuja família que está formando (Tallis, sua esposa, e Kennedy, sua filha) é toda quebrada, em relação aos laços emocionais.

Além de tudo, o livro fala sobre o ataque às Torres Gêmeas em Nova Iorque, um evento que mudou o modo de viver, até hoje, nos EUA e é tratado de uma forma surpreendente em O Último Grito: é contado como nunca antes foi, e como sempre precisou. Como sempre, Pynchon escreve sobre o passado, querendo falar sobre o presente e não tinha nada melhor do que falar sobre 11/9. De fato, mais um golpe de mestre do autor. Trazendo tudo que já tinha em sua literatura, mais uma idílica novidade: a relação de família, a última esperança da sociedade “o último grito”, se você quiser. Thomas Pynhcon é um paranoico, verborrágico, cuja linguagem é tão natural que parece estar ao nosso lado, contando a história. Ele é um autor desesperado para ser ouvido, construindo o que sabe melhor, uma narrativa. E em O Último Grito esse autor deu um passo à frente daquilo que já tinha feito.

O Último Grito – Bleeding Edge (EUA, 2013)
Autor: Thomas Pynchon
Editora original: Penguin Press
No Brasil: Companhia das Letras (2017)
Tradução: Paulo Henriques Britto
584 páginas

GABRIEL FERREIRA VIEIRA . . . Vivi em Recife por um longo tempo... até que eu fiz uma viagem para a Inglaterra dos anos 1990. Passei tanto tempo lá, ouvindo Radiohead em um apartamento melancólico, que nem lembro mais quanto foi. Depois voltei mais duas décadas no tempo e fui para o condado de Enfield (descobri que a casa lá era mal-assombrada mesmo). Quando já não dava mais de tanta depressão eu fui pra a Itália torcer para o Juventus e aproveitar o verão. Com essa turnê pelo mundo eu me senti preparado para começar a escrever...