Crítica | O Último Mestre do Ar

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estrelas 2

Como qualquer cineasta vítima da má visão do público e, tão impiedosa quanto, da crítica, era natural que Shyamalan recorresse, em algum momento, a alguma saída que lhe desse novas perspectivas de, se não recuperar o respeito adquirido no passado por O Sexto Sentido de imediato, ao menos segurar seu nome na indústria. Após as recepções nada amistosas da fantasia contemporânea A Dama na Água e da sátira B, Fim dos Tempos, o indiano recorreu, pasmem, a uma adaptação de um popular desenho animado da TV. Motivado por suas filhas, de acordo com as línguas mais curiosas, o live-action do indiano para Avatar: The Last Airbender parecia sim, ser a oportunidade ideal para Shyamalan conquistar novamente o carinho do público através de um gênero inédito em sua filmografia, mas debaixo das amarras dos estúdios, o tiro acabou saindo pela culatra.

Claro, pois é bastante notável os constantes esforços de Shyamalan em abraçar as oportunidades do material que carrega em mãos, inicialmente ricos em simbolismos envolvendo a natureza e a humanidade (temas recorrentes no filme do diretor), mas também está bastante latente a limitação de tudo o que envolve o projeto, seja pelo roteiro formulaico que dá dois passos para trás a cada nova inserção de uma boa ideia, seja pela técnica artificializada que pouco auxilia na ambientação mágica daquele universo, seja pelo elenco mal preparado e desconfortável em ser obrigado a recitar um número incontável de diálogos prontamente calculados para causar algum efeito. Em suma, O Último Mestre do Ar é um filme fadado ao vexame.

O que, em nenhum momento, se torna culpa do indiano. Como dito, os esforços em levar seu toque autoral a uma história de apelo tão popular (mas tão mal aceita em seu lançamento quanto os filmes anteriores do diretor) são perceptíveis, desde a elaboração de planos-sequência nas cenas de ação que priorizam o acompanhamento gradual da movimentação ou os planos abertos que expandem a beleza daquele universo (mas como já mencionado, a técnica não ajuda). Shyamalan também denota respeito pelo material adaptado e não se poupa nas referências ao desenho original, algo comprovado na abertura fiel onde vemos os elementos Fogo, Água e Terra serem manipulados.

Ou seja, boa vontade por parte de Shyamalan o filme têm, mas seu formato imposto para uma fórmula propositalmente limitada e mastigada pelo estúdio impede que a aventura alce voos maiores. O Último Mestre do Ar ainda denota o talento de Shyamalan como artesão de imagens e contador de histórias, só faltou a liberdade devida para que a adaptação, inicialmente pensada como uma trilogia, não tivesse naufragado logo em sua primeira investida.

O Último Mestre do Ar (The Last Airbender) — EUA, 2010
Direção:
 M. Night Shyamalan
Roteiro: M. Night Shyamalan
Elenco: Noah Ringer, Nicola Peltz, Jackson Rathbone, Dev Patel, Shaun Toub, Aasif Mandvi, Cliff Curtis, Seychelle Gabriel, Katharine Houghton
Duração: 103 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.