Crítica | O Último Metrô

estrelas 4

François Truffaut já havia homenageado a literatura em Fahrenheit 451, dentro de um contexto político, e o cinema em A Noite Americana, dentro de um contexto emocional e amoroso. Em ambas as visões, a arte é um caminho para a revelação de alguma surpresa, de algum segredo. Em o Último Metrô essas realidades são misturadas ao momento histórico da Segunda Guerra Mundial, durante a ocupação nazista na França, e ganham espaço no teatro, mais uma das artes que Truffaut admirava imensamente.

O toque metalinguístico do longa é apenas um de seus muitos atrativos. O roteiro não se desdobra em documentar atrocidades dos campos de concentração ou contar mortos, investigar o funcionamento do Estado nazista. É claro que a ameaça de morte é constante e o medo, o ódio e o racismo estão presentes em todos os aspectos da França ocupada, mas estes elementos são colocados como parte do cotidiano dos franceses naquela época. Assistimos então a um drama histórico cuja base são as relações artísticas de um povo sob domínio de outro, tendo unicamente o medo como prova visual e física dessa ocupação.

Alguns espectadores chegam a chamar Truffaut de “alienado” devido a essa abordagem mais “distanciada” da guerra. Todavia, esta é apenas uma forma de olhar a situação. O cineasta em nenhum momento faz uma exposição alienada. O interesse dele era o mundo do teatro, uma disfarçada história de amor e o comportamento dos franceses em meio à tragédia instalada no país naquele período da História. A estes interesses se junta o conflito. O que chamam de alienação aí é uma das muitas formas de abordar o tema.

O filme traz algumas boas surpresas ao longo de suas pouco mais de duas horas. De início, temos uma visão pouco simpática em relação à personagem de Catherine Deneuve, algo que vai se dissipando aos poucos, tanto no aspecto político quanto no aspecto amoroso. Sua personagem possui uma força e uma seriedade que a torna bastante difícil de ler, como Bernard, personagem de Gérard Depardieu, atesta, ao final do longa, e isso é essencial para que fiquemos apaixonados por ela.

Além da surpresa no trabalho com aparências e a realidade de cada um, temos o suspense criado em torno de Heinz Bennent, cujo personagem, um judeu diretor e proprietário do teatro onde a maior parte da ação acontece, é o núcleo principal. Ele é escondido pela esposa e espera uma oportunidade para escapar através da “França livre”, de onde espera partir para a Espanha. À medida que o Terceiro Reich perde espaço e a guerra começa a pender para o lado dos aliados, a fuga pela “França livre” se torna cada vez mais difícil. Lucas Steiner, o personagem, acaba sendo mantido no porão do teatro e passa a trabalhar à distância, dirigindo uma peça em produção à distância.

Em algum momento do filme essa dinâmica cansa um pouco, mas não a ponto de nos atrapalhar no aproveitamento da obra. Talvez a redução do espaço e o pouco aprofundamento que o roteiro traz para os personagens ou mesmo para algumas situações acabam por tornar algumas passagens insossas, mas isso é apenas uma visão crua sobre um ponto negativo do filme. Ele continua sendo muito bom a despeito deste aspecto de seu desenvolvimento.

A bela música de Georges Delerue vai crescendo compassadamente ao longo do filme, mas é a fotografia, a cargo de Néstor Almendros, que ganha destaque absoluto. Optando por cores quentes — a constante ligação do vermelho da bandeira nazista e o vermelho (ou tons quentes aproximados) imperante no cenário é algo visualmente marcante — e através de filtros bastante suaves, o diretor de fotografia mantém uma aparência cativante da primeira à última cena. O filme é vivo, alegre e muito disso se deve ao trabalho de Almendros, que junto com Truffaut, contrasta o ambiente principal da obra com o seu pano de fundo, a guerra, ao mesmo tempo que alude ao sangue do front de batalha.

Embora não seja uma obra-prima, O Último Metrô é um excelente filme, mais uma declaração de amor de Truffaut a uma arte, mostrada em exercício num tempo de dificuldade e pelo diretor exposta de forma crítica em um tempo de retorno ao passado, onde a tragédia ganha outros tons e a metalinguagem é a verdadeira personagem principal.

O Último Metrô (Le dernier métro) — França, 1980
Direção: François Truffaut
Roteiro: François Truffaut, Suzanne Schiffman, Jean-Claude Grumberg
Elenco: Catherine Deneuve, Gérard Depardieu, Jean Poiret, Andréa Ferréol, Paulette Dubost, Jean-Louis Richard, Maurice Risch, Sabine Haudepin, Heinz Bennent, Christian Baltauss, Pierre Belot, René Dupré
Duração: 131 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.