Crítica | O Último Pistoleiro

o ultimo pistoleiro

estrelas 3,5

É praticamente impossível, para um apreciador do western, desgostar de O Último Pistoleiro. Don Siegel, que à época já havia nos trazido os clássicos Vampiros de AlmasPerseguidor Implacável (Dirty Harry), realiza uma verdadeira homenagem ao gênero do faroeste e um de seus maiores ícones, John Wayne. A obra, além do teor dramático de sua narrativa, ganha um caráter ainda mais melancólico e, é claro, histórico – este foi o último trabalho de Wayne, que morreria apenas três anos depois, em 1979, graças ao câncer em seu estômago, condição que o seu personagem deste filme compartilha.

Esse tom que beira a retrospectiva já se faz visivelmente presente nos minutos iniciais da projeção. Somos contados, rapidamente, a história de J.B. Books (John Wayne), um lendário pistoleiro do Velho Oeste e, agora, um dos poucos que permanece com vida. A cena utiliza planos de antigos filmes estrelados por Wayne, dentre eles Rio Vermelho Onde Começa o Inferno, já fortemente apelando para o saudosismo dos fãs do gênero. Tais dias, contudo, estão no passado e partimos para um Books mais velho em seu cavalo. Mas sua idade não significa o término de sua habilidade com o revólver, como logo aprendemos.

Ao chegar na pequena cidade de Carson City, J.B. prontamente procura o médico, velho conhecido seu, Dr. Hostetler (James Stewart), para descobrir a origem de uma dor que vem o incomodando faz algum tempo. Para sua desolação, o pistoleiro descobre que se trata de um câncer e que ele tem apenas alguns dias de vida. Sabendo disso, Books decide procurar um lugar tranquilo para passar seus dias finais e encontra a morada de Bond Rogers (Lauren Bacall), onde aluga um quarto. A partir daqui, a narrativa assume uma estrutura fragmentada em dias, nos mostrando a crescente e silenciosa angústia do cowboy enquanto sua doença avança. John Wayne nos entrega uma figura que não esconde toda a glória de seu passado – a mantém pelo seu porte e forte personalidade – mas que cuja condição acaba revelando, pouco a pouco, sua idade já avançada.

Um dos pontos mais interessantes da obra é justamente observar essa mudança do personagem, que se reflete perfeitamente através não só de sua aparência física, como das roupas que veste. Wayne, por mais que se mantenha no típico strong silent type, demonstra nuances de sua impotência em relação à morte. Sua relação com Bond e o filho dela, Gillom (Ron Howard) é organicamente construída pelo roteiro e, através da direção de Don Siegel, consegue nos convencer do princípio ao fim, nos trazendo momentos verdadeiramente dramáticos que deixam qualquer um com um coração mole.

Por outro lado, a já mencionada, estrutura fragmentada da obra acaba quebrando, em determinados momentos, nossa imersão. O filme acaba soando como uma narrativa episódica, que encerra algumas situações de maneira levemente apressada. É claro que temos a linha principal sendo seguida – o avanço da condição do protagonista – mas isso não consegue nos tirar a percepção de que estamos diante de diversas situações distintas unidas sem uma maior coesão. Essa característica afeta, principalmente, o desfecho da obra, que nos parece mal-construído, perdendo, portanto, grande parte de seu impacto.

As distintas sequências do longa ainda contam com um agravante: transições demasiadamente bruscas. Apesar de estarmos falando de um cinema tipicamente clássico americano, o encadeamento de diversas cenas nos causa um estranhamento, em especial levando em consideração a edição do som, que acaba dispensando uma maior harmonia. Felizmente, tal fator se limita a alguns momentos apenas, não prejudicando o filme inteiro.

Porém, mesmo com esses problemas, O Último Pistoleiro nos deixa com um triste sorriso, ao passo que atua como uma ótima despedida para John Wayne. Don Siegel pode não nos trazer um dos melhores westerns já feitos – longe disso – contudo, acaba nos entregando um filme a ser lembrado, parte pela história em si, parte pelos eventos que ocorreriam três anos após a sua estreia.

O Último Pistoleiro (The Shootist – EUA, 1976)
Direção:
Don Siegel
Roteiro: Miles Hood Swarthout, Scott Hale
Elenco: John Wayne, Lauren Bacall, Ron Howard, James Stewart, Richard Boone, Hugh O’Brian, Bill McKinney, John Carradine
Duração: 100 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.