Crítica | O Último Trago (2016)

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estrelas 2,5

Se eu não tivesse visto este filme em uma sessão com a presença de dois dos três diretores e perguntado a eles sobre o que quiseram transmitir com essa viagem quase lisérgica, minha visão da obra seria bem menos positiva ou animadora do que ficou após o debate e o esclarecimento das propostas. Mas ainda assim, a visão final em O Último Trago (2016) não é exatamente lisonjeira.

Segundo os diretores, a proposta veio após uma reunião amigável, há quatro anos, onde começaram a rascunhar um argumento que tinha como seguinte proposta: a não rejeição de ideias surgidas durante a conversa, desde que estas não fossem muito expositivas ou tivessem sentido óbvio e imediato. A ideia do argumento, assim como os diferentes tratamentos do roteiro nos anos seguintes, era fazer o espectador pensar sobre uma série de coisas a partir de peças (isoladas ou não) fornecidas pela película.

O princípio dadaísta da construção do roteiro resultou em um drama histórico, marcado por um realismo mágico e político, investigando as raízes brasileiras, pensando sobre a História e memória nacional, sobre o massacre de índios e negros, sobre a presença esquecida das mulheres — existem três guerreiras simbolizando três patamares e tempos distintos do país –, sobre a opressão e a mortandade (oficiais ou não) no Brasil, que permaneceram esquecidas e/ou escondidas do grade público. O Último Trago é, portanto, um filme experimental sobre a História do sangue que regou o solo brasileiro desde o início da colonização. E convenhamos, a proposta é ótima.

No início, o filme nos aparece como um instigante mistério. A escolha do mar e do homem nu são parcialmente explicadas ou aludidas na reta final, mas elas dão conta de um resgate acidental, que não era para acontecer. Um pequeno ato de bondade e gentileza para com o agredido. A direção já se mostra sóbria e não dá para negar o excelente trabalho de fotografia, que se estende por toda a obra, principalmente do meio para o final. É também curioso que quanto mais belo, barroco (no bom sentido) e com um desenho de produção cada vez mais escrupuloso o filme fica — além de uma trilha sonora muito bem utilizada e com canções de letras belíssimas. Em uma das cenas, a forma como Marlene canta, vestida de saia vermelha e o ambiente com saturação de cor mais a direção precisa nos traz imediatamente memórias de Johnny Guitar –, mais o espectador se perde na narrativa (no mal sentido), sofrendo um pouco da arrogância dos realizadores em nos colocar signos e símbolos em doses cavalares, sem pausa alguma e sem o mínimo de considerações um pouco mais racionais para que nos apegássemos e entendêssemos o lado metafórico da obra.

Alguém poderá argumentar que a ideia foi cumprida e por isso o filme merece destaque e ter seu valor reconhecido. Mas vejam, em nenhum momento eu disse o contrário. A obra mostra um lado do cinema brasileiro que não se acanha em ser solto, sujo, cifrado e exige muitos neurônios para ser compreendido ou parcialmente imaginável. Um tipo de surrealismo à brasileira também é necessário para completar as muitas possibilidades de se fazer cinema no Brasil. Há grande riqueza de conceitos na forma como os diretores realizaram O Último Trago (em certa medida, o filme me lembrou uma mistura de A Idade da Terra com western experimental, Buñuel e obras icônicas do nosso Cinema Marginal) e isso tem sim um grande valor, tanto estético, quanto conceitual. Mas “só isso” não sustenta o filme, porque ele tem, segundo os próprios diretores, um significado, um caminho específico onde quer chegar, logo, a total soltura para a interpretação não foi a escolha correta.

Em O Último Trago, o espectador é convidado a lembrar dos mortos. Mas não exatamente dos corpos. Das almas. O convite aqui é para lembrar-se das ideias, do significado, da cultura e lutas mortas e deixadas de lado como se nunca tivessem existido, morrendo com o tempo, desaparecendo da memória, inutilizando a vida que morreu por uma causa. O filme é uma viagem completa. Hermético. Quase inacessível. Mas com certeza vai dar muito o que falar e pensar para quem assistir.

O Último Trago (Brasil) — 2016
Direção: Pedro Diogenes, Luiz Pretti, Ricardo Pretti
Roteiro: Francis Vogner dos Reis, Pedro Diogenes, Luiz Pretti
Elenco: Mariana Nunes, Ana Luiza Rios, Larissa Siqueira, Demick Lopes, Fernando Piancó
Duração: 93 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.