Crítica | O Último Tubarão

estrelas 1,5

O Último Tubarão é considerado um absurdo cinematográfico, mas sinceramente, apresenta-se melhor que as duas últimas sequências de Tubarão. Divertido por não se levar a sério, a trama italiana que pega ponga no “bonde” da trama orquestrada por Spielberg é cheio de momentos de insanidade cinematográfico que o dito “ruim” fica “bom”. A aventura que em 2016 completa 35 anos do seu polêmico lançamento é uma das relíquias “macabras” que nos chegam através das permutas simbólicas entre cinéfilos na esfera virtual pública.

Em 1981, os produtores do filme amargaram um processo judicial, tudo por causa dos executivos da Universal, irritados com a suposta imitação da trama, considerado plágio do filme de 1975. Reportagens da época afirmam que o filme alcançou prestígio no público pipoca europeu, o que tornou tudo mais complexo para os estadunidenses, pois na posteridade, críticos e historiadores do cinema apontaram que Tubarão 3 havia copiado elementos de O Último Tubarão, que por sua vez, havia copiado elementos de Tubarão. Em suma, confusão das boas.

O filme começa com um rapaz divertindo-se ao praticar windsurfe. Logo de cara é atacado, numa abertura cheia de maneirismos. A trama corta para a casa do escritor Peter Benton (numa alusão escancarada ao romancista Peter Benchley, do livro Tubarão). A sua filha aparece nervosa e solicita urgentemente um bote salva-vidas para o resgate do rapaz desaparecido nas águas densas.

Peter junta-se para a investigação e junto a um velho marujo, encontra um pedaço de prancha, prova concreta de que a situação litorânea do local não estava em seu melhor momento. O que vai acontecer mais adiante é previsível. Forças contrárias tentarão impedir o controle adequado para os ataques do tubarão, inclinadas pelo bem estar da cidade, dependente da fatia turística para compor a receita econômica local.

Na trama a “fictícia” South Bay está em comemoração. São os 100 anos de fundação do local e como há muitos turistas na cidade, os gestores decidem por grades e redes de proteção, tendo em vista resguardar os banhistas, mesmo que saibamos que aquilo tudo está tão mal feito que só serve como pretexto nada convincente para os ataques de adiante. Como esperado, no dia da festa, o tubarão organiza o seu ataque e faz várias vítimas, tingindo as águas locais de vermelho.

A trama toma de “empréstimo” elementos de Tintorera, de Raul Bravo, filme inspirado no romance homônimo do mexicano René Cardona Jr, uma história “afetada” sobre os ataques de um tubarão-tigre. Ao longo da catalogação dos filmes sobre tubarões assassinos, podemos encontrar quase todas as espécies figurando algum tipo de trama. Entre outros “empréstimos” há a velha fórmula da fera marinha atacando uma região praieira gerenciada por um prefeito oportunista.

Oportunismo é o grande tema desta trama, tanto nos aspectos diegéticos, quanto nos extra-diegéticos. Se os produtores irmãos Sandro e Maurizio Amati foram oportunistas criando o que se convencionou chamar de rip-off do filme de Spielberg, eles também decidiram transcender tal postura, empregando-a diretamente no filme. Além do prefeito, a mídia ganha o seu trocado com a miséria alheia. “Deixe a sua câmera funcionando”, solicita um jornalista, numa alusão ao circo midiático que estas situações espetaculares ocasionam na sociedade. O trecho talvez seja o momento mais equilibrado do filme, mas não surte o devido efeito por conta do excesso (alguns diriam falta) de imaginação dos roteiristas, Marc Princi e Vincenzo Mannini.

Se fosse apenas pelo título, aceitaríamos. O problema é que as características que definem O Último Tubarão vão além. O tubarão jorra água que nem uma baleia. A criatura, forte como sabemos, consegue se superar e ganhar a luta com um helicóptero. O roteiro, recheado de clichês, apresenta dramas familiares pouco convincentes, necessidades dramáticas esdrúxulas, conflitos internos e externos decadentes e possui uma cena envolvendo um tubarão e uma caverna que qualquer comentário não consegue alcançar a dimensão da sua proposta hedionda.

Com 89 minutos, O Último Tubarão não foi apenas confuso judicialmente, mas ganhou controvérsia com os seus títulos ao redor do mundo. Foi proibido nos Estados Unidos, mas isso não impediu que a trama chegasse a outros países, inclusive ao Brasil. Na Espanha, o filme foi lançado como Tubarão 3. Isso mesmo que você está lendo, caro leitor, Tubarão 3, um título oportunista e sem noção. Em território brasileiro o filme foi lançado por duas distribuidoras, numa comprovação do interesse mundial por tramas do jawsplotation: a DIV lançou como Tubarão 4 e a POLETEL como O Último Tubarão, ambos, terríveis no que diz respeito as suas nomenclaturas.

O Último Tubarão – ( L’ultimo squalo) – Itália, 1981
Direção: Enzo G. Castellari. 
Roteiro: Vincenzo Mannino, Marc Princi, Ugo Tucci e Ramón Bravo.
Elenco: James Franciscus, Vic Morrow, Micaela Pignatelli, Joshua Sinclair, Giancarlo Prete, Stefania Girolami Goodwin, Gian Marco Lari, Chuck Kaufman, Gail Moore, Joyce Lee, Don Devendorf, Bill Eudaly, Bill Starks.
Duração: 89 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.