Crítica | O Vagabundo da Cidade

O Vagabundo da Cidade

estrelas 4

Um dos elementos mais fortes da filmografia de Fassbinder, desde o início, foi o trabalho com símbolos clássicos maculados em alguma situação de crise. O jovem diretor, aqui com 21 anos, realizava o seu segundo curta-metragem (o primeiro, This Night, é considerado perdido) e em apenas 11 minutos consegue fazer uma metáfora social de forte densidade dramática, aludindo a símbolos cristãos e teorias filosóficos sociais como o livre-arbítrio e o pensamento que se tem sobre o suicídio.

Um vagabundo perambula pelas ruas de Munique. Com sua maleta de lado e uma expressão de indiferença no rosto, ele tem sua perspectiva de vida mudada quando encontra uma arma. Num primeiro momento, o personagem parece quase indiferente com o objeto encontrado, mas então passa a acalentar a ideia de suicídio e é então que a criatividade ainda bruta, mas visualmente bela, de Fassbinder vem à tona.

A câmera do diretor passa a acompanhar a caminhada do vagabundo e seu estranho ritual rumo a um calvário particular. No único diálogo do filme ele pede para usar o banheiro de uma garota para se matar. É recusado. A essa altura ele já tinha passado pela última ceia (primeiro bebido a água/vinho e depois comido o pão seco) aos olhos de estranhos transeuntes no parque. Christoph Roser cria um vagabundo com o qual nos afeiçoamos muito rápido e que procuramos salvar da ideia do suicídio, uma ironia de recepção fílmica que o roteiro aparentemente simples de Fassbinder nos coloca para na última cena nos ridicularizar com essa ideia.

O espectador então se vê envergonhado e desconcertado de ter recusado a uma pessoa a única coisa que lhe traria felicidade. Observamos que enquanto acalentava sonhos de morte, o diretor alternava grandes planos e planos médios, uma dinâmica narrativa que se torna estranhamente mais particular à medida que o vagabundo não consegue cometer o ato. Ele quer morrer sozinho, talvez envergonhado de fazer algo que todos condenam (mas nós estamos lá!), porém, nunca se está sozinho na cidade.

O roubo da arma e a atitude do vagabundo em matar os ladrões é um golpe de realização advinda da frustração. Nada aconteceu, no final das contas. Mas se olharmos com maior atenção, o vagabundo morrera ainda mais por dentro. E, ironicamente, ele está sozinho quando mais precisa de alguém. A solidão, a pobreza e o cadáver interno é o que resta no final de O Vagabundo da Cidade, com um homem deitado no chão de um parque atirando, de forma imaginária, em duas pessoas que ele desejava ardentemente que fosse ele mesmo.

Em tempo: há um interessante paralelo entre este filme e O Signo do Leão, de Eric Rohmer, à época, o filme que Fassbinder mais admirava.

O Vagabundo da Cidade (Der Stadtstreicher) – Alemanha Ocidental, 1966
Direção: Rainer Werner Fassbinder
Roteiro: Rainer Werner Fassbinder
Elenco: Christoph Roser, Susanne Schimkus, Michael Fengler, Thomas Fengler, Rainer Werner Fassbinder
Duração: 11 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.