Crítica | O Vazio – 1ª Temporada

Surgindo no catálogo do Netflix sem qualquer alarde e, por isso, perigando permanecer perdida, O VazioThe Hollow, no original – é uma descompromissada, mas muito divertida animação canadense voltada ao público infantil que divertirá também os adultos que conseguirem entrar no clima. Com apenas 10 episódios de 24 minutos e uma natureza de “situação bizarra” da semana, mas que conta uma história só, a série é fácil e gostosa de assistir com a família ou mesmo sozinho com algumas guloseimas para acompanhar.

Existe toda a uma lógica por trás dos mistérios da série e que não é muito difícil adivinhar logo no início, mas, para manter a presente crítica completamente sem spoilers, fugirei de abordá-los. Apenas para atiçar a curiosidade, tudo começa com três adolescentes que acordam, completamente desmemoriados, em uma sala estranha que lembra muito – por incrível que pareça – a situação inicial do primeiro Jogos Mortais. Mas a semelhança com o filme de terror acaba por aí, pois Adam (Adrian Petriw), Mira (Ashleigh Ball) e Kai (Connor Parnall), cujos nomes eles encontram em seus bolsos, têm que, sempre juntos, tentar entender o que está acontecendo e como escapar desse vasto e variadíssimo mundo estranho em que se encontram. A partir daí, os episódios trazem elementos narrativos e ameaças retiradas de praticamente todos os recantos de mitologias, literatura e cinema, com direito a minotauros, árvores falantes, bruxas, criaturas de gelo e, claro, superpoderes.

A salada conceitual funciona muito bem e o tamanho e quantidade de episódios evitam a fadiga inevitável que a repetição constante demais das situações traria se a temporada fosse maior. O encadeamento narrativo é bem pensado, com um episódio levando ao outro naturalmente e sem recorrer aos mesmos artifícios sempre, o que permite um certo frescor e a manutenção de um nível adequado de surpresas aqui e ali, especialmente no que se refere ao relacionamento dos protagonistas e à sua jornada de auto-descoberta ao longo da trajetória, o que inclui a vagarosa descoberta de poderes e habilidades especiais de cada um do grupo.

Outro ponto que merece comenda é que os roteiros de Vito Viscomi, já veterano em séries televisivas animadas, não transformam cada episódio em uma lição de moral didática e enfadonha, daquelas que precisam quase que paralisar a projeção para ser explicada aos pequenos. As mensagens de união faz a força, da importância da amizade e de ética estão bem presentes, porém, mas elas não são esfregadas na cara de ninguém e permeiam a narrativa de maneira fluida e lógica, sem qualquer solavanco.

A animação em si é bonita e muito variada dentro da ideia de trazer a maior quantidade possível de situações corriqueiras e ameaças mais do que conhecidas para um conjunto harmônico. Cada monstro, cada criatura, cada ambientação será imediatamente, de uma forma ou de outra, reconhecido pelo espectador, seja mais novo ou mais velho, com óbvios graus diferentes de conexão com as fontes clássicas de inspiração que, a não ser por alguns nomes, nunca são citadas, o que impede a desnecessária poluição do texto.

No entanto, não esperem um trabalho rebuscado. O Vazio vale-se de uma animação simples que só realmente anima o primeiro plano, jamais o segundo, que permanece imóvel completamente. Isso, de forma alguma, porém, atrapalha a história, já que os três jovens são quase que instantaneamente relacionáveis por meio de suas aparências físicas marcantes e pelos bons trabalhos de voz. Aqui, a palavra-chave é simplicidade, algo que está no roteiro e que ecoa na animação ajudando na impressão de conjunto coesa que a série tem.

Existe um pequeno desequilíbrio narrativo no terço final da temporada, com a introdução de uma situação inédita até aquele momento ao final do episódio 1.7, O Enigma, que ganha crescimento exponencial nos capítulos seguintes. É  o elemento que define e explica o grande mistério, mas é perceptível o artifício “desonesto” usado para esconder a situação do espectador e há uma desproporção rítmica entre tudo o que veio antes e o que vem depois desse momento-chave no referido episódio.

Mas isso é o crítico chato falando, sem dúvida, pois, no final das contas, O Vazio é, sem dúvida alguma, um simpático passatempo que merece ser conferido. Não mudará a vida de ninguém, mas há muito a ser apreciado, por crianças e por adultos igualmente, nessa aventuresca corrida de obstáculos por um mundo tão surreal que chega a ser  estranhamente familiar.

O Vazio – 1ª Temporada (The Hollow, Canadá – 08 de junho de 2018)
Showrunners: Josh Mepham, Kathy A. Rocchio, Greg Sullivan, Vito Viscomi
Direção: Josh Mepham, Greg Sullivan
Roteiro: Vito Viscomi
Elenco: Adrian Petriw, Ashleigh Ball, Connor Parnall, Alex Baruna, Diana Kaarina, Jesse Moss, Ian James Corlett, Michael Daingerfield, Lee Tockar
Duração: 240 min. (10 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.