Crítica | O Velho Logan (Tie-In de Guerras Secretas – 2015)

estrelas 4

A nova saga Guerras Secretas, que tem como objetivo acabar com o multiverso Marvel e fundir determinados heróis de universos e realidades diferentes ao Universo Marvel padrão, conhecido como Terra-616, parte da premissa que  o Doutor Destino tornou-se um deus e refez o mundo separando em campos de batalha, ou Battleworlds, cada um dominado por um herói ou vilão diferente e que, de uma maneira ou de outra, reencena eventos-chave de toda a história editoral da Marvel. Como todas as publicações Marvel foram canceladas e substituídas por tie-ins auto-contidos da saga, a leitura da saga principal é em tese importante para se entender o conceito que expus acima, mas não para entender os detalhes da história, que funcionam como versões atualizadas das clássicas O Que Aconteceria Se… 

Como mencionei quando fiz a crítica do tie-in Planeta Hulk, é mais importante conhecer a saga ou evento sendo retrabalhado do que a mega saga em si. O mesmo vale, agora, para O Velho Logan, apresentado ao mundo pela primeira vez entre 2008 e 2009, por Mark Millar e Steve McNiven, literalmente no meio das edições normais de Wolverine (leiam a crítica do evento original, aqui). Alcançando enorme sucesso de público, O Velho Logan se passava em um futuro distópico alternativo do universo Marvel (Terra-807128) em que gigantesca parte dos heróis morreram e um velho Wolverine vive feliz com sua família até que “Hulks caipiras” matam sua mulher e filhos. Juntamente com um Clint Barton cego, ele parte então em uma road trip vingativa pelos EUA desse futuro em uma fascinante visão de futuro.

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Essa nova saga, tie-in de Guerras Secretas, não muda praticamente nada do que vimos na original. O Logan a que somos apresentados é o mesmo Logan que vimos e com o mesmo peso na consciência. Ao lidar com alguns vilões em Las Vegas, um deles com o capacete do Homem de Ferro e outro vestido de Demolidor, ele acaba, como um cowboy, afastando-se a cavalo apenas para se deparar com uma misteriosa cabeça de Ultron que cai do céu. Esse evento é o catalisador de sua nova road trip, dessa vez a pé e atravessando diversas “terras” criadas pelo Doutor Destino, depois que Emma Frost o aponta na direção certa. Com isso, nós o vemos lidando com os X-Men da Era de Apocalipse, um mundo altamente tecnológico em que todos usam armaduras e comandado, claro, por Tony Stark, uma terra que só tem zumbis Marvel e, finalmente, uma Nova York muito parecida com a “normal”.

A leitura dos cinco número da minissérie é rápida, pois a ação é ininterrupta, apesar de muito bem estruturada. Quem não tiver lido Guerras Secretas precisará de um tempo maior de ajuste pelo ritmo alucinante do texto de Brian Michael Bendis acompanhado pela arte belíssima de Andrea Sorrentino, mas mesmo assim será razoavelmente fácil entender todo o drama de Logan. O que Bendis faz, aqui, é algo maior do que a minissérie em si. Ele usa o mutante como ponte entre diversos mundos de forma que ele possa ser incorporado à Terra-616 mantendo a memória de seu passado (para a Terra-616, o futuro) que viveu e também da divisão mundial criada em Guerras Secretas. Ele parece ser o único – ou, ao menos, um dos poucos – que retém todo o quadro na mente, em uma interessante inversão da lógica clássica de Wolverine, sempre o desmemoriado clássico e que sofre por não saber quem exatamente é. Esse Logan mais velho – e tão violento e impiedoso como o antigo – sabe muito  bem quem é, mas não se encaixa em lugar algum, algo como o Capitão América despertando de seu sono profundo no presente, dezenas de anos depois da 2ª Guerra Mundial.

Com isso, o roteiro é, digamos, incompleto. A minissérie é um começo ou, talvez, um recomeço. Agora que o Wolverine que sempre conhecemos morreu (leiam a crítica do arco A Morte de Wolverine, aqui), temos uma versão mais velha e fascinante dele mesmo substituindo-o. Onde isso vai dar, só o futuro dirá, futuro esse que pode ou não ser aquele que ele já viveu e pode ou não envolver um certo vilão monárquico tornando-se deus. Será tudo um círculo?

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As perguntas estabelecidas por esse trabalho de Bendis parece efetivamente catapultar uma boa parte do futuro editorial da Marvel pós-Guerras Secretas. Portanto, não esperem respostas na minissérie em si. Apenas aproveitem a viagem com o velho Logan.

A arte de Andrea Sorrentino merece comentários à parte. O artista italiano conhecido por seu trabalho em Eu, Vampiro, recria, com seus potentes traços, cada novo mundo, cada novo personagem que Logan encontra com uma enorme fidelidade ao original, mas sem perder sua marca. No lugar de usar traços detalhados para rostos e corpos, ele prefere lidar com simplicidade, mas uma simplicidade que prende a atenção do leitor com expressões fortes e marcantes, algo acentuado pelas cores mudas que Marcelo Maiolo usa como se pintasse um quadro a cada página. Mas o que realmente chama a atenção é o controle narrativo de Sorrentino por intermédio do uso de quadros fluidos, que mudam e se adaptam ao que é necessário para a história. Vemos vários deles em progressão constante em diálogos que são interrompidos por outros, maiores, quando a ação irrompe. E ele ainda é capaz de realçar detalhes por intermédio do uso de pequenos quadros em cores chapadas – vermelho, verde, azul – salpicados ao longo das páginas.

O Velho Logan é uma ótima minissérie que acaba de maneira misteriosa e catapulta uma série regular de mesmo nome. Agora é acompanhar para ver o que a Marvel planeja fazer com o velho Carcaju.

O Velho Logan (Old Man Logan, EUA – 2015)
Contendo: Old Man Logan (2015) #1 a #5
Roteiro: Brian Michael Bendis
Arte: Andrea Sorrentino
Cores: Marcelo Maiolo
Letras: VC’s Cory Petit
Editora original: Marvel Comics
Datas originais de publicação: julho a dezembro de 2015
Editora no Brasil: ainda não publicado no Brasil
Páginas: 114

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.