Crítica | O Velho Logan – Vol. 1: Fúria Selvagem

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Às vezes, a melhor saída para uma situação complicada é a simplicidade. É assim que Jeff Lemire lida com o Velho Logan no primeiro arco da publicação ongoing do personagem depois que ele foi introduzido no famoso arco da revista regular de Wolverine por Mark Millar e Steve McNiven, em 2008 e depois de ganhar um tie-in de Guerras Secretas que o transporta para o Universo Marvel resultante da saga, que manteve a designação de Terra-616. No lugar de perder muito tempo elucubrando sobre o como e o porquê, Lemire coloca o desnorteado personagem, que acorda em Nova York, tentando evitar o futuro apocalíptico que viveu fazendo o que ele faz de melhor, ou seja, matando os responsáveis por tudo o que acontece.

Usando a técnica da Noiva em Kill Bill, o Velho Logan anota em seu antebraço seus alvos e parte para a caçada sem nem pensar duas vezes. Para deixar bem claro que esse Logan não é o Logan normal – que estava morto nessa época, aliás – o primeiro da lista é o vilãozinho mequetrefe conhecido como Black Butcher e que não dura nem uma página completa diante da tal “fúria selvagem” do Wolverine idoso. Ao estabelecer isso, Lemire deixa claro o caminho autodestrutivo que ele deseja para o personagem, algo que não poderia ser diferente diante de tudo o que ele viveu (viverá?) no futuro.

Mas Jeff Lemire não é um roteirista que se contenta em fazer o simples de maneira banal. A trajetória sanguinária de Logan, em princípio sem firulas, sem enrolação e sem qualquer complexidade, tem um texto que não só é repleto de referências relevantes ao Universo Marvel como um todo, com lampejos inéditos do personagem nas Terras Devastadas onde vivia com sua família e diversos momentos auto-conscientes, quase metalinguísticos que inteligentemente alfineta a própria editora e as constantes mudanças em seus personagens mais importantes. Por exemplo, quando Logan parte para seu segundo alvo, o Hulk, ele acaba enfrentando não Banner, mas sim o Hulk Amadeus Cho, o que permite espaço para comentários do tipo “mas o Hulk muda sempre, ora é verde, ora é cinza, manso, bravo”, algo que permeia também seu encontro com a Gaviã Arqueira – ele estava procurando Clint Barton, claro – e, depois, com o Velho Steve Rogers. Ou seja, nada é aquilo que Logan esperava e tudo isso funciona de maneira a tornar a história que, de outra forma seria extremamente depressiva e até pesada, em algo mais, em um momento de reflexão sobre os sacolejos efêmeros que a Marvel Comics (e a DC também, que fique claro) faz em seus medalhões para, de tempos em tempos, artificialmente impulsionar as vendas de suas HQs, trocando boas histórias por puro marketing.

Ao mesmo tempo, o arco funciona organicamente para introduzir o personagem para quem não o conhece (mas, se você não leu o arco original de 2008, corra atrás dele, pois vale o esforço!) e para enquadrar o Velho Logan nesse novo passado que, na verdade, é uma nova realidade no que diz respeito a ele. Lemire, economicamente, em uma história “pá pum”, que um autor menos tarimbado escrevia na base da pancadaria descerebrada pura como um filme da franquia Transformers, empresta interessantes camadas narrativas que são surpreendentemente abrangentes em sua auto-consciência e também em sarcasmo e ironia. E isso tudo sem economizar no quebra-pau e na violência que marcam as melhores histórias do Carcaju.

O italiano Andrea Sorrentino volta a desenhar o personagem depois de trabalhar brilhantemente no mencionado tie-in de Guerras Secretas. Sua arte muito característica, de pegada simplificada, mas marcante, combina muito bem com o texto de Lemire e o artista tem oportunidade de lidar com uma mescla interessante entre presente e futuro, além de trazer referências visuais a diversas obras, inclusive Batman – O Cavaleiro das Trevas (o Velho Bruce!) como na imagem que escolhi para ilustrar a crítica. Seu comando da progressão narrativa com a manipulação dos quadros é costumeiramente excelente e não é diferente aqui, o que permite o uso de páginas duplas ao mesmo tempo impactantes e informativas, sempre impulsionando a narrativa. Sua interpretação dos personagens clássicos da Marvel também funciona bem, mantendo reverência ao material fonte, mas emprestando seu indefectível estilo mais cru.

Se o Wolverine original já havia perdido seu sabor especial pelo uso exagerado do personagem pela editora, o Velho Logan veio substituí-lo já prometendo um enfoque refrescante para a mitologia do mutante canadense. É a prova que mesmo a história mais simples e mais batida pode ser excelente, bastando a combinação mágica de roteirista e equipe artística.

O Velho Logan: Fúria Selvagem (Old Man Logan: Berserk, EUA – 2016)
Contendo: Old Man Logan (2016) #1 a 4
Roteiro: Jeff Lemire
Arte: Andrea Sorrentino
Cores: Marcelo Maiolo
Letras: Cory Petit
Editoria: Daniel Ketchum, Mark Paniccia
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: março a junho de 2016
Editora no Brasil: Panini Comics (O Velho Logan #5 a 8)
Data de publicação no Brasil: dezembro de 2016 a março de 2017
Páginas: 84

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.