Crítica | O Velho Logan – Vol. 2: A Cidade na Fronteira

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Entre Fúria Selvagem e A Cidade na Fronteira, o atormentado Velho Logan foi recepcionado com muita efusividade pelos X-Men, agora com quartel general no Limbo, passando a fazer parte integral do grupo durante a “morte” do Wolverine original. No entanto, em seu título solo, Jeff Lemire não sente remorso algum em retirá-lo da convivência de seus colegas, usando como desculpa a natureza de ermitão que o personagem sempre teve somada às lembranças do terrível futuro que esse Logan teve que viver nas Terras Desoladas. Com isso, o segundo arco de suas aventuras tem um brevíssimo começo na mansão dos mutantes que é logo trocado por uma jornada do velho carcaju até Killhorn Falls, um vilarejo remoto ao norte do Canadá de onde vem Maureen, sua futura (em seu universo) esposa e mãe de seus dois filhos.

Encontrando-a ainda menina, seu objetivo é protegê-la, algo que ele não pode fazer em seu mundo. No entanto, qualquer leitor novato de quadrinhos sabe que essa ideia é a pior possível, daquelas que dá vontade de revirar os olhos de tão amadora. É dolorosamente óbvio que o mero fato de Logan ir para lá significa que violência, morte e destruição o seguirão e que a melhor maneira de manter Maureen segura é afastando-se o máximo possível dela. Vê-se, novamente, que Lemire optou por uma estrutura batida dos quadrinhos. No primeiro arco era a história de vingança, com direito a lista de alvos escrita no antebraço e, agora, é a história de proteção, mas, diferente da narrativa inaugural, aqui Lemire não faz muito mais do que o trivial, sem quase subtexto algum. No entanto, de forma alguma A Cidade na Fronteira é um arco ruim. Muito longe disso na verdade.

É necessário um pouquinho de esforço para aceitar a premissa boba que simplesmente jamais poderia vir da mente de um Logan tão experiente. No entanto, temos que lembrar e entender que esse Logan é particularmente atormentado, convivendo com uma culpa destruidora que o corrói por dentro desde que a gangue caipira dos Hulks massacrou sua esposa e filhos. Correr atrás da versão Terra-616 de Maureen, sob essas lentes, pode até ser irracional, mas é justificável, diria. No mínimo compreensível. E o texto de Lemire, apesar de jamais alcançar o nível do arco anterior, trafega bem entre o presente e o futuro dos personagens, ao mesmo tempo nos introduzindo a Maureen criança e reintroduzindo sua versão adulta, ironicamente como líder de um grupo que vive no que sobrou do bunker do projeto Arma-X. Além disso, o grau de violência explícita é do nível só visto em publicações do selo Max da editora, o que já diferencia a obra por completo e a coloca em outro patamar de leitura, um muito mais cru e realista no que se refere a Logan e seus inimigos, aqui os Carniceiros liderados por Lady Letal, que chegam com sede de sangue – muito sangue – atrás do Wolverine mais velho.

O tormento de Wolverine resumido em uma imagem só.

Não deixa de ser verdade que Lemire simplesmente joga os vilões ali sem contextualizar muito bem essa vontade toda deles de matar Logan, o que certamente é uma das fraquezas do arco. Mas, sendo benevolente com o trabalho do autor, vilões serão vilões e, aqui, eles cumprem sua função rasa, básica e maniqueísta de serem extremamente vilanescos como nos saudosos filmes oitentistas, sem perdoar ninguém. E isso, claro, funciona como a desculpa perfeita para Logan soltar toda sua fúria animal contra eles, além de colocar em teste seu fator de cura já combalido.

Mas, para a história realmente funcionar, temos Andrea Sorrentino novamente na arte e cada vez mais confortável em sua visão do protagonista como uma força incontrolável da natureza. Se a pancadaria já era algo de destaque no arco anterior, aqui ela começa a perder os freios e não afirmo isso negativamente. Ao contrário, a arte é o ponto alto de A Cidade na Fronteira, tratando Logan como poucas vezes ele foi tratado. É particularmente interessante como, trabalhando com Marcelo Maiolo nas cores, Sorrentino usa o vermelho para simbolizar o perigo e os momentos chave da história. Sim, sem dúvida é uma cor óbvia, mas seu contraste com os personagens em branco funciona muito bem para invocar a fúria e a violência necessárias para fazer a história básica sair do simples. Há outras situações também muito inspiradas no quesito arte, notadamente quando Sorrentino parte para uma pegada mais filosófica, tentando encapsular a tragédia da vida de Logan em uma imagem forte.

O arco é curto, de apenas três edições, ganhando uma espécie de epílogo solto com Logan sendo levado pela Jean Grey jovem e Cerebra para lugares importantes de seu futuro traumático para mostrar-lhe de forma mais absoluta que ele não está na mesma linha temporal que viveu e que, aqui, ele tem amigos que não o deixarão sozinho. É uma edição até emocionante, especialmente depois do horror em Killhorn Falls.

A Cidade na Fronteira pode não alcançar o nível de Fúria Selvagem, mas é um arco sólido da versão futura, mais velha e deslocada de Logan, que abre espaço claro para que esse seu mundo seja revisitado e explorado de maneira paralela ao seu presente. Mais um bom resultado da parceria de Lemire com Sorrentino que traz um Wolverine mais gutural, mais neandertal, mais traumatizado do que as edições pré-morte de sua versão normal vinham oferecendo.

O Velho Logan: A Cidade na Fronteira (Old Man Logan: Bordertown, EUA – 2016)
Contendo: Old Man Logan (2016) #5 a 8
Roteiro: Jeff Lemire
Arte: Andrea Sorrentino
Cores: Marcelo Maiolo
Letras: Cory Petit
Editoria: Daniel Ketchum, Mark Paniccia
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: junho a setembro de 2016
Editora no Brasil: Panini Comics (O Velho Logan #9 a 12)
Data de publicação no Brasil: abril a julho de 2017
Páginas: 84

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.