Crítica | O Velho Logan – Vol. 3: O Último Ronin

Depois de ler o terceiro arco da publicação mensal solo do Velho Logan, fiquei com a distinta impressão que Jeff Lemire e Andrea Sorrentino só embarcaram nesse projeto com o objetivo primário de escrever e desenhar esse arco específico aqui. Não que ele seja uma revolução da Nona Arte, pois não é, mas é que deu para sentir os respingos de sadismo (e de sangue) do texto de Lemire a cada página encharcada que virava e, ao mesmo tempo, o deslumbramento absoluto da arte de Sorrentino, muito claramente divertindo-se com a oportunidade de rechear a narrativa de páginas duplas e splash pages de fazer o queixo cair seguidas vezes. Essa é a típica história que, se o leitor suportar o “nível 11” de violência, tem potencial de ser objeto de inúmeras releituras posteriores seja para ver o quanto o coitado do Logan sofre (acho que mais maldade com ele só quando o Hulk partiu em dois a versão Ultimate do Wolverine), seja para apreciar os desenhos minuciosos que adotam a iconografia japonesa como ponto de partida.

O Último Ronin, como o título deixa entrever, poderia ser chamado, bem de longe, de sucessor espiritual da clássica minissérie Eu, Wolverine, de Chris Claremont e Frank Miller. Mas deixe-me contextualizar: a obra oitentista é um divisor de águas para Wolverine, inserindo mais profundamente a mitologia japonesa em seu passado. É na volta ao Japão que traço o paralelo apenas, já que o arco reinsere o personagem, agora em sua versão mais velha, sofrida e de outro universo, no país do sol nascente e novamente enfrentando uma infindável horda de guerreiros enlouquecidos na linha do Tentáculo, só que batizada de Ordem Silenciosa. Assim como no arco anterior, trafegamos entre o presente na Terra-616 e o futuro (ou passado, dependendo do ponto de vista) nas Terras Desoladas em tramas paralelas que igualmente abordam uma viagem ao Japão e o enfrentamento do tal grupo vilanesco razoavelmente genérico, mas nunca desinteressante.

Coisa linda 1.

E ambas as “desculpas” para levar o Velho Logan por essas jornadas funcionam bem. No universo prime, o Carcaju Idoso, usando sua boa e velha persona de Patch (o que por si só nem faz sentido, mas tudo bem…), está atrás de Lady Letal para terminar o trabalho que começou em A Cidade na Fronteira, o que o leva ao Japão, onde ela estaria entocada. Em seu universo original, descobrimos que, tentando achar algum lugar para viver uma vida sossegada com Maureen, Logan tentou primeiro o Japão, em razão de sua ligação umbilical com o país. Claro que, nos dois casos, ele só encontra horrores, com o enfrentamento paralelo da tal Ordem Silenciosa em dois “primeiros encontros” que inteligentemente se interpenetram e que o texto de Lemire consegue manter interessante do começo ao fim das cinco edições. Não é, como disse, nenhuma reinvenção da arte dos quadrinhos, mas é uma leitura dinâmica, cativante e que novamente coloca Logan no limite de sua resistência física, especialmente agora que seu fator de cura já não funciona tão bem.

Lady Letal, que é usada como isca pela Ordem, também ganha seus momentos de brilho, não tendo escolha que não momentaneamente se aliar ao Velho Logan, o que, lógico, só amplifica a violência e as mortes, em um daqueles team-ups que não parecem forçados. E o mesmo vale para os dois vilões introduzidos na história, o primeiro o líder de campo da Ordem Silenciosa, o ninja Sohei e, o segundo, seu líder espiritual que não abordarei explicitamente aqui para não dar spoilers desnecessários. O ponto é que ambos são bem explorados nas idas e vindas entre passado e futuro, emprestando um sabor especial à história, mesmo que, no final das contas, eles não sejam lá tão desenvolvidos assim.

Coisa linda 2.

A arte de Sorrentino é, como disse, especial e o ponto alto do trabalho dele em O Velho Logan. Como Lemire escreveu uma história muito mais cinética do que expositiva, Sorrentino tem espaço de sobra para brincar e ele não tem vergonha alguma de “gastar espaço” com páginas que dá vontade de arrancar, emoldurar e orgulhosamente pendurar na parede. Mas o melhor é que ele não perde de vista o “contar história” e jamais desenha por desenhar só para parecer cool. Sim, são artes extremamente cool, mas elas carregam significado e impulsionam a narrativa, além de manter uma impecável cadência ao ponto de dar pena quando o arco acaba.

O Último Ronin pode não ser o último arco da dupla Lemire/Sorrentino no leme do Velho Logan, mas certamente é o mais deslumbrante. Um exemplo de como equilibrar forma e substância sem recorrer a conceitos complicados e herméticos. É leitura mainstream do mais alto gabarito.

O Velho Logan: O Último Ronin (Old Man Logan: The Last Ronin, EUA – 2016/7)
Contendo: Old Man Logan (2016) #9 a 13
Roteiro: Jeff Lemire
Arte: Andrea Sorrentino
Cores: Marcelo Maiolo
Letras: Cory Petit
Editoria: Mark Paniccia
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: setembro de 2016 a janeiro de 2017
Editora no Brasil: Panini Comics (O Velho Logan #13 a 17)
Data de publicação no Brasil: agosto a dezembro de 2017
Páginas: 97

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.