Crítica | O Velho Logan – Vol. 4: A Guerra dos Monstros

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O quarto volume da publicação mensal solo d’O Velho Logan, conforme o encadernado americano, é composto, na verdade, de dois arcos bem distintos e seu título pode confundir o leitor. Afinal de contas, A Guerras dos Monstros é, apenas, o nome do primeiro e mais curto dos arcos – com apenas duas edições – com o segundo sendo Retorno às Terras Desoladas, com três edições. No Brasil, com a publicação também mensal das histórias, os mini-arcos estão bem definidos e, diante do fato de que eles são completamente independentes, inclusive no quesito arte, decidi fazer duas breves críticas separadas para evitar a “contaminação” de um arco pelo outro.

A Guerra dos Monstros
(O Velho Logan #14 e 15)

Depois do extremamente intenso e violento O Último Ronin, que sucedeu outros dois arcos também pesados, A Guerra dos Monstros pode ser visto como um momento de pausa para o lanche, para relaxar e apenas se divertir com as aventuras do Velho Logan, sem maiores compromissos. Apesar de uma pegada razoavelmente séria, é perfeitamente possível até mesmo encará-lo como um alívio cômico, já que é um pouco difícil comprar a gravidade de uma história que coloca Logan, ao lado do novo Comando Selvagem (formado só dos principais “monstros Marvel”, incluindo o Homem-Coisa e Nina Price, a Vampire by Night), resgatando Jubileu vampira das garras do Conde Drácula em pessoa lá na Transilvânia.

Divertindo-se em colocar Logan como o líder de fato do grupo por algumas horas, Jeff Lemire brinca tanto com os monstros quanto com o Wolverine do futuro alternativo, usando o tipo de interação clássica de começo de filmes de buddy cop, ou seja, uma sucessão de estranhamentos de natureza cômica que vão sendo acertados ao longo da progressão da história. É uma pena, porém, que o autor tenha eleito trabalhar um arco tão curto e tão com cara de filler, pois ele tinha o claro potencial para ser mais do que uma diversão esquecível. Há pouco espaço para Lemire focar no ângulo do “monstro liderando monstros” e a narrativa logo descamba para a ação ininterrupta entre criaturas da noite, mas sem maiores consequências para nenhuma delas, seja do lado dos mocinhos ou dos bandidos.

A arte, pela primeira ao encargo de um artista que não Andrea Sorrentino, caiu no colo de Filipe Andrade e ele entrega algo em seu estilo próprio “ultra-deformado” que condiz perfeitamente com os monstros que povoam a história e combina com a narrativa mais leve do roteirista. Pernas e braços longos, proporções torácicas exageradas, movimentações impossíveis e uma pegada neo-gótica que consegue ser séria quando precisa, traz um novo ar para a publicação do Velho Logan, amplificando ainda mais a sensação de estarmos lendo um interlúdio, de uma história menor cirurgicamente criada como uma brincadeira para relaxarmos entre duas tempestades.

Retorno às Terras Desoladas
(O Velho Logan #16 a 18)

Retorno às Terras Desoladas pode ser visto com um arco semente, ou seja, aquele que planta uma ideia, um conceito na mente do Velho Logan e abre espaço para uma nova fase em sua vida, com uma nova missão macro que se desenvolve nos arcos seguintes. Lemire, aqui, escreve uma história que funde Aliens, o Resgate com 2001: Uma Odisseia no Espaço, em uma aventura estranha, mas, ainda assim interessante, para o personagem que ele se encarregou de escrever.

Iniciando com Logan já nas Terras Desoladas, o roteirista coloca no leitor o mesmo e gigantesco ponto de interrogação que passa pela cabeça do personagem, que acorda no meio do deserto. Desnorteado, ele tenta entender o que aconteceu e logo nota que ele passou por alguma coisa que, agora, não consegue mais lembrar. Sim, é o velho “truque” da perda de memória, algo que marcou o personagem por décadas e que, quando ela foi “destravada”, a Marvel Comics soltou aquela quantidade impressionante de barbaridades que retconaram tudo que sabíamos dele. No entanto, o arco não tem nem de longe essa ambição e não faz retcon algum e o artifício funciona única e exclusivamente para deixar tanto nós quanto Logan perdidos pelo maior tempo possível, ainda que não demore quase nada para as sequências na sua realidade original sejam intercaladas com uma também misteriosa missão espacial em que Longa, já na Terra-616, fora chamado por seu compatriota Pigmeu, da Tropa Alfa, preso em uma estação espacial.

A narrativa, então, intercala a ação e, aos poucos, vamos percebendo o que está acontecendo, com uma ameaça monstruosa como a que Ripley enfrenta no segundo filme da franquia Alien de um lado e, de outro, um pouco de viagem lisérgica como a que David passa ao final de 2001. Os leitores mais veteranos matarão a charada logo de cara, pois ela não é feita para ser um grande segredo, mas sim apenas uma maneira “diferente” de se contar uma história até bem simples. E essa proposta funciona bem para o protagonista, ainda que seja estranho vê-lo no espaço, já que simplesmente não “combina” bem com o Velho Logan. De toda forma, o tempo que ele passa nas Terras Desoladas funciona como um chamariz que diz para ele, subliminarmente (ou talvez não tanto) que ele precisa voltar para lá em razão de uma missão inacabada em relação ao bebê, neto do Hulk, que ele “adota” ao final de seu arco narrativo original.

Andrea Sorrentino volta para a arte pela última vez na série (sem contar algumas capas do próximo arco que ele desenha) e se diverte trabalhando dois estilos completamente diferentes, contrastando a aridez e os grandes espaços nas páginas passadas nas Terras Desoladas e o espaço confinado da estação espacial orbitando a Terra. As cores de Marcelo Maiolo são essenciais para amplificar essa sensação, simplesmente fazendo o óbvio: paleta quente para as Terras Desoladas e gélida para a ação no espaço. O resultado é mais uma vez muito bom, fechando muito bem a parceria de Sorrentino com Lemire no título.

O Velho Logan: A Guerra dos Monstros (Old Man Logan: Monster War, EUA – 2017)
Contendo: Old Man Logan (2016) #14 a 18
Roteiro: Jeff Lemire
Arte: Filipe Andrade (A Guerra dos Monstros), Andrea Sorrentino (Retorno às Terras Desoladas)
Cores: Jordie Bellaire (A Guerra dos Monstros), Marcelo Maiolo (Retorno às Terras Desoladas)
Letras: Cory Petit
Editoria: Mark Paniccia
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: janeiro a abril de 2017
Editora no Brasil: Panini Comics (O Velho Logan #18 a 20)
Data de publicação no Brasil: janeiro a março de 2018
Páginas: 106

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.