Crítica | O Vendedor de Passados

Lembranças analógicas, táteis. Em vez de viajar no tempo, por que não reinventar um passado, que caiba dentro de um álbum de fotografias feito manualmente, para forjar um presente com o qual seja mais fácil conviver?! É como ir a um cirurgião plástico para retirar excessos ou injetar forma e rechear espaços, com a intenção de externalizar aquilo que você quer ver internamente. Uma mudança, um recomeço.

O trabalho de Vicente, interpretado por Lázaro Ramos, parte deste princípio. Ele é um contador de histórias nato, que cria personagens com base em vestígios de pedaços das memórias de pessoas. Ele recolhe insumos nos acontecimentos de outros tempos, vendidos como bens de troca na feira de antiguidades. Itens que ele coleciona. Passados que ele desenha e que vende para os clientes, até que chega uma mulher sem história e sem nome, muito bem representada por Aline Moraes. Ela é uma página em branco que ele não consegue arrancar e que vai especificar somente um pedido: “quero ter cometido um crime”.

É assim que a narrativa se prepara, incutindo no espectador a certeza de que este não é um filme ancorado no recurso didático de Hollywood, que explica tudo que acontece no filme. Afinal, o mistério faz parte do ontem. Uma das coisas mais importantes do filme é o fato de que não é necessário mostrar quem é aquela mulher e qual a verdade dela, porque a partir de o momento em que ela compra a ideia do passado que ele fabricou para ela, essa necessidade se esvai.

A cena da projeção da história que ele cria para Clara, esse vai ser o nome dela, é altamente interessante. A narrativa segue uma cadência e aos poucos a apatia e a neutralidade que apagavam qualquer noção de identidade daquela mulher vão sendo raspadas e ela vai criando uma digital emocional. E lá se foi mais uma pasta lacrada, terminada.

Ao mesmo tempo que o espectador desvenda o conflito interno de Vicente, começa a rabiscar reflexões a respeito da dualidade que é o fato de que ele próprio não consegue definir um passado para si. Adotado, ele foi ensinado a acreditar em uma versão sobre si mesmo, que já não o satisfaz. Ele, o vendedor de passados, não compra a ideia de desconhecer as origens de onde veio. Existe aí um choque que entrega a vulnerabilidade dele.

A interpretação de Lázaro Ramos entrega um apego com detalhes e uma gama de expressões bastante intensa. E como o diretor Lula Buarque de Hollanda tem histórico com documentários é natural que o filme ressoasse essa parte da identidade dele. As cenas de silêncio que contam histórias com a composição dos cenários, mostrando como as personagens são a partir do que elas carregam consigo e onde elas habitam, é certamente um efeito disso. Nesse sentido, o figurino de Clara se encaixa na neutralidade.

Com uma duração bem sucinta, o longa-metragem escolhe bem os minutos finais, mesmo que sejam de certa forma previsíveis. Reflexivo e intrigante, por ser uma narrativa despojada de mesmices, este se torna um filme de nostalgias, de amores forjados em expectativas frustradas, de fotografias, montagens do que foi e do que pode vir a ser. Basta saber contar uma boa história e depois agir como se a mentira fosse verdade. Um esforço de make believe.  

O Vendedor de Passados (Brasil, 2015)
Diretor:
Lula Buarque de Hollanda
Roteiro:
Isabel Muniz, inspirado na obra de José Eduardo Agualusa
Elenco: Lázaro Ramos, Aline Moraes, Odilon Wagner, Giselle Motta, Mayana Neiva, Anderson Muller, Débora Olivieri, Ruth de Souza, Marcelo Escorel e Fábio Ferreira Dias
Duração:
1h22.

GABRIELA MIRANDA . . . Cinéfila inveterada, sigo a estrada de ladrilhos amarelos ao som de Jazz dos anos 20 enquanto escrevo meu caminho entre as estrelas. Com os diálogos de Woody Allen correndo soltos na minha cabeça, me pego debatendo entre gostar mais do estilo trapalhão ou de um tipo canalha de personagem. Acima de tudo, acredito que tenho direito de permanecer com minha opinião. Mas acredite, nada do que eu disser poderá ser usado contra os filmes.