Crítica | O Vento Pela Fechadura, de Stephen King [A Torre Negra, Vol. VIII]

(arte: Jae Lee)

estrelas 4

Breve comentário inicial: O Vento Pela Fechadura é, descontando-se a novela As Irmãzinhas de Eluria, o oitavo volume, em ordem de publicação, da saga literária A Torre Negra, de Stephen King. No entanto, a história em si se passa entres os volumes IV e V – Mago e Vidro e Lobos de Calla -, fazendo deste o volume IV-1/2, conforme nomenclatura oficial. No entanto, para facilitar a minha vida, evitar confusão e por achar a junção de numerais romanos com algarismos arábicos feia demais, resolvi nomear o volume como VIII no título da presente crítica.

Crítica:

Oito anos depois de encerrar seu épico tolkeniano contando a história do último pistoleiro do Mundo-Médio em sua jornada para chegar à Torre Negra, o nexo do multiverso, Stephen King voltou à sua auto-declarada magnus opus para brindar seus leitores com um pouco mais de Roland Deschain. Foram 26 anos para escrever o épico e, pela segunda vez, o autor resolve enxertar uma nova história para preencher os espaços entre um tomo e outro. Considerando que o universo que ele criou é rico e vasto, sua estratégia faz sentido e O Vento Pela Fechadura pode muito bem ser apreciado como um apêndice de fácil leitura e aborção por aqueles que já leram a saga.

Sim, por aqueles que já leram a saga. Tenho para mim que, assim como em As Irmãzinhas de Eluria, a leitura descontextualizada do mais recente livro é até possível, mas pode resultar em uma experiência frustrante. Mesmo que King afirme, no prólogo, que novatos podem tranquilamente ler o livro, a verdade não é bem essa se o que se procura é algo que tenha algum grau de profundidade e não seja visto apenas como uma leitura perfunctória, sem preocupação com questões como construção de personagens e estabelecimento de premissas. Afinal, o autor, no razoavelmente curto (para seus padrões) romance, não constrói Roland Deschain e seu ka-tet americano formado por Eddie Dean, Susannah, Jake Chambers e Oi. Eles apenas estão ali na história, sem que saibamos nada sobre seu passado ou mesmo seu propósito.

Mas os que são familiarizados com a saga e seus personagens – seja pelos livros, seja pelos quadrinhos -, terão algumas boas horas de divertimento. Se King tem uma grande vantagem é saber costurar tramas diversas em um todo coeso e lógico, mesmo que nem sempre ele acerte na mosca. Em O Vento Pela Fechadura, ele faz o ótimo uso do artificio da “história dentro da história dentro da história”, como uma matriosca, contando três histórias em camadas sucessivas, mas interdependentes.

A primeira camada, a que dá a moldura para o livro, lida com Roland e seu ka-tet americano, não muito tempo depois dos eventos no Palácio Verde, ao final de Mago e Vidro, tendo que se proteger de uma gigantesca e perigosíssima tempestade congelante chamada Starkblast – ou Borrasca, na tradução brasileira – na prefeitura de pedra de um vilarejo abandonado. Depois de muito esforço, o grupo finalmente se senta ao calor da lareira do local e Roland passa a contar uma história sobre seu passado, em que ele e seu amigo pistoleiro Jamie De Curry são enviados por seu pai à cidade de Debaria para livrá-la da ameaça de um potencial metamorfo (criatura que pode assumir várias formas). Chegando lá, Roland depara-se com um massacre e um único sobrevivente, o garoto Bill Streeter que ele passa a proteger pessoalmente como parte de seu plano para capturar o vilão. Essa segunda história é, de certa forma, a principal do livro, a que funciona como seu recheio, repleta de reviravoltas e elementos de obras de horror, especialidade de King. Mas, em um terceira camada, Roland narra a Bill a fábula O Vento Pela Fechadura, história essa que os acontecimentos tanto da “moldura” na cidade fantasma e aqueles em Debaria o fizeram relembrar e que lida com o garoto Tim Ross, em muitos aspectos um paralelo do pequeno Bill e do próprio Roland.

Mistérios são a especialidade do autor e, aqui, eles são muito importantes. Afinal, diferente do tom de toda a saga d’A Torre Negra, O Vento Pela Fechadura é muito mais um suspense do que uma fantasia de ficção científica e faroeste, pelo que dar mais detalhes pode estragar o prazer da leitura. E, de fato, é um prazer ler o livro, pois King envelopa cada história de maneira cuidadosa, usando informações de cada uma delas para dar sentido e profundidade às demais. O que parece ser apenas uma historinha para passar o tempo no que se refere ao tempo presente, acaba se revelando como bem mais do que isso, trazendo informações interessantes – não necessariamente importantes – sobre o passado do anti-herói. E o mesmo vale para a fábula contada a Bill, essa refletindo como em um espelho o drama para descobrir o paradeiro da criatura monstruosa.

King, porém, e também diferente de seu épico, mantém a simplicidade e a despretensão vista, talvez, apenas em O Pistoleiro, a primeira peça da complexa estrutura que ele erigiria ao longo dos anos em torno do conceito da Torre Negra. Com isso, O Vento Pela Fechadura transparece, estilisticamente, exatamente aquilo que a história quer ser: um momento de conexão entre Roland e seu ka-tet ou, no caso dos leitores, uma conexão entre eles e o pistoleiro em uma história que só não pode ser chamada de descontraída pelo conteúdo pesado e violento que inevitavelmente aborda.

No final das contas, tanto faz se consideramos O Vento Pela Fechadura como o volume VIII ou IV-1/2 de A Torre Negra. De uma forma ou de outra – e é isso que importa – o livro é um dos melhores dos oito até hoje existentes.

O Vento Pela Fechadura (The Wind Through the Keyhole, EUA – 2012)
Autor: Stephen King
Tradução: André Gordirro
Editora original: Grant
Data original de publicação: 21 de fevereiro de 2012
Editora no Brasil: Editora Objetiva (selo Suma de Letras)
Data de publicação no Brasil: 1º de fevereiro de 2014
Páginas: 288

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.