Crítica | O Vestido

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estrelas 3

O vasto e qualificado acervo literário brasileiro já inspirou adaptações cinematográficas formidáveis. Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos, trouxe à tona o romance de Graciliano Ramos no auge do Cinema Novo, efervescente período de embates intelectuais no bojo da produção cultural brasileira. Macunaíma, de Mário de Andrade, também ganhou uma elegante tradução para a linguagem do cinema, além de Deus e o Diabo na Terra do Sol, pastiche de obras do romance de 30, fonte de inspiração para alguns elementos desenvolvidos no roteiro da obra máxima de Glauber Rocha.

Na mesma época, o poema O Padre e a Moça, de Carlos Drummond de Andrade, ganhou uma audaciosa versão audiovisual. Décadas depois, o autor foi mais uma vez, fonte de inspiração para o cinema: Caso do Vestido, parte integrante da coletânea A Rosa do Povo, publicada pela primeira vez em 1945, hoje uma das produções mais conhecidas e respeitadas do poeta mineiro, ganhou a sua adaptação, dirigida por Paulo Thiago, cineasta familiarizado com o universo poético de Drummond após a realização do documentário O Poeta de Sete Faces.

Lançada em 2003, a adaptação causou muita polêmica entre os jornalistas culturais e os especialistas em estudos literários.  Menos comum, a adaptação de poesia para o cinema talvez seja uma tarefa mais hercúlea e complexa que o romance, a peça teatral, a crônica ou o conto. Por isso, primeiramente a equipe buscou adaptar o poema para o formato romance, publicado pelo escritor Carlos Herculano Lopes, lançado na mesma época que o filme. Isto, portanto, não impediu que o cineasta Paulo Thiago retornasse ao poema constantemente, buscando os devidos paralelos com a obra que lhe serviu como ponto de partida.

O filme começa com duas garotas questionando-se sobre um misterioso vestido escondido em um espaço da casa. Ângela (Ana Beatriz Nogueira), mãe das meninas, em determinado momento, depara-se com a cena. O que elas estavam fazendo com aquela peça carregada de uma memória tão desagradável? É a partir deste momento que entre idas e vindas ao passado e ao presente, a história do casamento de Ângela com Ulisses (Leonardo Vieira) é contada, num misto de  melodrama repleto de cenas tórridas de desejo, obsessão, traição e violência.

O casal vivia em paz. Orgulhosa da sua carreira de professora, todos os dias a família jantava dentro dos padrões da família tradicional. O pai encabeçava a mesa, respeitado em seu tom sisudo, a mãe, sempre satisfeita, enquadra-se no contemporâneo lead que virou meme em vários espaços das redes sociais: bela, recatada e do lar. Ângela vive um aparente romance paradisíaco com o seu marido. Este estado de normalidade, por sua vez, vai mudar.

A mudança fica a cargo da sedutora e diabólica Bárbara (Gabriela Duarte). A moça chega à cidade graças ao convite de Fausto (Daniel Dantas), um homem que nutre sentimentos fortes por Ângela, mas que já havia desistido de tanto insistir por uma chance para provar o seu amor. O destino (ou algum personagem?) trata de aproximar Bárbara do lar doce lar. Neste ponto, os conflitos se estabelecem. Barbara traz o ar urbano repleto de caos. Ela é sensual, espevitada, bonita e provocante, exatamente o que Ulisses desejava para sair da sua vida considerada “mais do mesmo”.

Certo dia, Ângela decide mostrar um vestido que ganhou de presente para Bárbara. A peça, presente do marido, é experimentada pela visitante, cabendo perfeitamente em seu corpo. Por acidente, Ulisses adentra ao recinto e flagra a situação. Enfeitiçado pela moça vestida com a peça que havia presenteado a esposa, o patriarca da família adentra num processo de obsessão que vai amargar a vida de todos ao redor. Eles estabelecem um tórrido caso, fogem para um garimpo e deixam a vida de Ângela e das meninas em completo abandono.

Com toques melodramáticos e narrativa montada entre situações do presente e extensos flashbacks, O Vestido é um filme de classe, bem fotografado, com boas atuações e design de produção que trafega bem entre a estética da arquitetura barroca e o estilo contemporâneo, tendo Sabará, em Minas Gerais, o espaço para o desenvolvimento dos conflitos do roteiro. Graças ao ótimo elenco, o filme funciona bem se o espectador for pouco exigente. Os seus problemas, entretanto, estão no desenvolvimento do roteiro.

Há ruídos narrativos e as escolhas equivocadas em O Vestido. Inventaria-los é uma tarefa complexa, haja vista a extensa lista de problemas, mas é justamente esta a tarefa do crítico, não é mesmo? Então vamos por partes: o vestido é o primeiro elemento estranho. Ana Beatriz Nogueira e Gabriela Duarte são tipos tão distintos, como aceitar que a mesma peça caiba perfeitamente nas duas? Outra liberdade poética ou descuido? Não estamos falando da calça de Quatro Amigas e um Jeans Viajante, filme juvenil adornado por uma forte carga simbólica, similar aos enredos típicos da literatura fantástica.

Os diálogos são aparentemente estranhos em alguns trechos, entretanto, nada como o distanciamento para nos fazer ver melhor certas coisas. Ao observar as análises empreendidas pelos críticos da época, percebemos que alguns não conseguiram compreender as estratégias de alguns diálogos aparentemente poéticos demais. A performance no teatro é uma coisa bem diferente da televisão e do cinema e com certeza Paulo Thiago estava ciente disso ao dirigir o filme. Vejo nestes diálogos, que realmente soam estranhos e artificiais, uma espécie de homenagem explícita do realizador.

No fundo todos nós sabemos que no cotidiano as pessoas não entoam sentenças assim, mas estamos falando de uma obra adaptada de um poema publicado por um dos maiores nomes do cânone literário brasileiro. Sendo assim, é possível inferir que as falas aparentemente deslocadas funcionam como uma espécie de liberdade poética, algo bastante subjetivo dentro da constante objetividade do cinema brasileiro dos anos 2000.

No que tange aos demais aspectos técnicos, o filme é visualmente encantador. Ao mesclar elementos da década de 1950 com a contemporaneidade, a câmera ora passeia por cenários tipicamente caseiros, ora enquadra, através de planos gerais e movimentação linear, os espaços da arquitetura histórica mineira, um ambiente de charme e elegância, espaço ideal para uma narrativa cerimoniosa, tal como O Vestido.

Elementos da memória cultural grega foram inseridos no roteiro. Há a mulher vidente que nos remete aos temas da tragédia grega, além da referência as aventuras da Odisseia, levemente apresentadas através do personagem Ulisses, desenvolvido na medida por Leonardo Vieira. Inspirado no poema de 150 versos e 75 estrofes, o poema possui uma estrutura dramática com divisão semelhante ao drama: prólogo, episódio e êxodo, o que torna o processo de transposição mais cheio de possibilidades.

Com 120 minutos, O Vestido é uma adaptação carinhosa do poema de Drummond. A narrativa se esforça para traduzir a linguagem poética para o suporte cinematográfico, num exercício louvável por parte dos roteiristas Haroldo Marinho Barbosa e Paulo Thiago. Se talvez tivesse um roteiro com mais tratamentos e um pouco menos de curvas sinuosas ao longo do processo narrativo, filme teria sido mais respeitado em outros ambientes de recepção. Alguns diálogos a menos talvez fosse o mais indicado, mas era o que a produção tinha para o momento.

O Vestido Brasil, 2004.
Direção: Paulo Thiago.
Roteiro: Paulo Thiago e  Haroldo Marinho Barbosa (inspirado livremente no poema Caso do Vestido, de Carlos Drummond de Andrade)
Elenco: Ana Beatriz Nogueira, Gabriela Duarte, Leonardo Vieira,  Paulo José, Daniel Dantas, Renato Borghi, Othon Bastos, Ana Lúcia Torre.
Duração: 121 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.