Crítica | O Vingador do Futuro (2012)

Uma vez, já há algum tempo, quando ainda não fazia parte do Plano Crítico, escrevi um longo artigo reclamando veementemente da mania hollywoodiana de produzir remakes de obras clássicas. Não pretendo reproduzir o post aqui, mas, de toda forma, de uma maneira um tanto prepotente, admito, enumerei algumas regras que deveriam ser seguidas como uma cartilha para esse tipo de situação. Uma dessas regras é que o remake deveria conter elementos que agregassem alguma coisa à trama original.

Conheço e entendo a lógica econômica desses remakes, mas uma coisa é usar uma fórmula já testada e aprovada pelo mercado e outra completamente diferente é abusar disso e colocar nos cinemas versões aguadas e apressadas de clássicos. Feitas essas reclamações, vamos ao novo O Vingador do Futuro, estrelando Colin Farrell no papel que antes foi de Arnold Schwarzenegger e Kate Beckinsale no de Sharon Stone.

Ainda que o filme seja também uma nova adaptação do ótimo conto de Philip K. Dick We Can Remember It for You Wholesale, o fato é que ele mimetiza e homenageia o primeiro O Vingador do Futuro em tantos momentos que não é possível deixar de chama-lo de um simples remake. A sorte que temos é que, apesar de Len Wiseman, o diretor, não ter em sua carteira de filmes nada realmente brilhante, ele sabe construir cenas de ação e, dentro desse seu domínio, nos brinda com uma fita de tirar o fôlego.

Logo na primeira cena do filme, vemos uma fuga desesperada de Doug Quaid (Colin Farrell) de algum lugar incerto e não sabido. Ele é ajudado por uma linda mulher (Jessica Biel), mas acaba não conseguindo escapar. Repentinamente, porém, ele acorda de seu pesadelo ao lado de sua esposa Lori, vivida por Kate Beckinsale (aliás, nada mal sonhar com Biel e acordar ao lado de Beckinsale, não é mesmo?) e notamos que isso vem acontecendo há algum tempo. Também notamos que estamos no futuro na Terra e, conforme vemos nos créditos iniciais, trata-se de um planeta devastado pela guerra química, ao ponto de só duas potências habitáveis existirem: a Federação Unida da Bretanha (formada pela Inglaterra e boa parte da Europa) e A Colônia (formada pela Austrália e cercanias). Todo o dia, milhares de trabalhadores da Colônia, incluindo Quaid, entram em um elevador gravitacional chamado The Fall, que, atravessando o núcleo terrestre, chega à Federação em meros 17 minutos. Há uma clara tensão entre os dois lados, pois um é o dominante e, o outro, o dominado.

Mas o sonho recorrente de Quaid acaba levando-o a contratar os serviços da empresa Rekal que implanta memórias na mente das pessoas. Quer descansar? A Rekal providencia a memória de férias que você não esquecerá. O mesmo vale para qualquer fantasia. Quaid, então, acaba decidindo que quer o implante de uma aventura como um espião da Federação. O problema é que esse processo destrava o que parece ser a verdadeira memória de Quaid, exatamente como um agente secreto. A partir desse momento, que acontece 15 minutos após o início do filme, o que vemos é uma sucessão ininterrupta de cenas de ação com Quaid nos holofotes fugindo da psicopata de sua esposa falsa, agindo sob ordens do presidente da Federação Cohaagen (Bryan Creston), sendo ajudado por Melina (Biel) para descobrir quem exatamente ele é: se é um agente da Federação, da Colônia, um agente duplo ou se tudo se passa em sua cabeça.

O Vingador do Futuro pode ser analisado em três níveis. No primeiro e mais raso deles, é um filme de ação muito eficiente e excitante, com cenas de luta e de perseguição muito bem coreografadas (em especial a primeira luta entre Quaid e Lori) e efeitos especiais de primeira ordem.

Len Wiseman esmera-se em nos apresentar um futuro distópico com belas e características imagens. Enquanto A Colônia se parece muito com o que vemos em Blade Runner, a Federação lembra muito outro filme baseado em obra de Philip K. Dick, Minority Report – A Nova Lei. O resultado visual final impressiona.

Aqueles que procuram ação desenfreada bem feita terão em O Vingador do Futuro um prato cheio. Colin Farrell e Kate Beckinsale estão ótimos em seus papéis. Biel não faz nada de mais mas está confortável como “mulher de ação”. Já o costumeiramente excelente Bryan Cranston tem um personagem caricato demais para realmente permitir que ele brilhe. Bill Nighy, como o líder da resistência Matthias, quase não aparece, infelizmente.

No entanto – e vocês sabiam que haveria um “porém”, não é mesmo? – no segundo nível de análise, um pouco mais profundo, o que vemos é simplesmente mais do mesmo. E não o “mais do mesmo” que Paul Verhoeven nos apresentou no primeiro O Vingador do Futuro. É um “mais do mesmo” bem genérico, rasteiro, pouco criativo em linhas gerais. Continua sendo excitante, mas é uma excitação que desaparece poucas horas (se não em poucos minutos) depois que a projeção acaba. No seu âmago, as lutas que vemos na nova versão são lutas que cansamos de ver em filmes das franquias Bourne, Duro de Matar, Missão Impossível e incontáveis outras. A ótima perseguição automobilística não é muito diferente do que vemos em Eu, Robô ou mesmo em Minority Report.

É um esgotamento da fórmula que cansa e acaba impedindo que filmes como esse se destaquem diante da infinidade de outros parecidos que são feitos em linhas de produção para consumo rápido e esquecimento mais rápido ainda. Alguns provavelmente dirão que a cena final no elevador gravitacional é diferente de tudo que já vimos antes. Será que é mesmo? Até concordo que o elevador em si é uma boa ideia e uma que funciona bem para evitar que o filme tenha que se passar em Marte como o primeiro, mas a longuíssima cena de ação final, que tem o elevador como elemento principal, é telegrafada desde o começo do filme, quando aprendemos sobre cada uma de suas características e notamos que todas elas serão usadas ao final. Além disso, é tão genérica que a sensação de dejà vu é inevitável.

E mesmo em um terceiro nível de análise, o filme acaba falhando. Verhoeven nos passou um recado com O Vingador do Futuro dele. Len Wiseman não nos transmite absolutamente nada, a não ser uma sensação de apatia e entorpecimento. É a ação pela ação e nada mais. E não que haja algum problema com isso, mas a obra de Philip K. Dick pede mais do que duas horas de pancadaria sem nenhum tipo de aprendizado.

No final das contas, O Vingador do Futuro é um ótimo filme de ação genérico que divertirá durante a projeção, mas que desaparecerá de nossas memórias no caminho de volta para nossas casas.

O Vingador do Futuro (Total Recall, Estados Unidos, 2012)
Direção: Len Wiseman
Roteiro: Kurt Wimmer, Mark Bomback (baseado em conto de Philip K. Dick)
Elenco: Colin Farrell, Kate Beckinsale, Jessica Biel, Bryan Cranston, Bokeem Woodbine, Bill Nighy, John Choo, Will Yun Lee, Milton Barnes, James McGowan
Duração: 118 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.