Crítica | O Voo (2012)

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estrelas 3,5

Algumas pessoas, mesmo com diversas oportunidades para mudar, simplesmente não conseguem abandonar seus vícios. Contudo, esses hábitos ruins não interferem apenas na saúde de quem os pratica, como também pode afetar todos que estão a sua volta, resultando em consequências permanentes para a vida do viciado. Baseado nesse drama que O Voo, dirigido por Robert Zemeckis, constrói a sua trama.

A obra conta sobre Whip Whitaker (Denzel Washington), um experiente piloto da aviação comercial com sérios problemas envolvendo bebidas e drogas. Certo dia, ele acaba salvando a vida de diversas pessoas quando a aeronave que pilotava apresenta uma pane. Agora, apesar de ser considerado um herói por muitos e contar com o apoio de amigos, ele se vê diante do jogo de empurra na busca pelos culpados da queda. É quando seus erros e escolhas do passado passam a ser decisivos para definir o que ele irá fazer de seu futuro.

Zemeckis, logo na primeira cena, utiliza vários elementos cênicos para estabelecer o personagem principal. Portanto, na sequência inicial, a direção de arte deixa claro o vício dele através de diversas garrafas de bebidas espalhadas pelo cenário, o roteiro mostra seus problemas familiares pela fala pesada ao telefone e a fotografia levemente sombreada destaca a solidão do piloto. A partir disso, a narrativa é centralizada em Whip, iniciando um interessante estudo de personagem sobre os efeitos do alcoolismo. Através dessa premissa, o roteiro, escrito por John Gatins, apresenta vários estágios do vício, como a negação da ajuda, o excesso de mentiras e a frustração com a própria vida; para depois trazer as consequências disso, como o afastamento das pessoas amadas, a deploração física e instabilidade psicológica. Vale ressaltar que o roteirista inteligentemente foge de qualquer moralismo e apenas apresenta os fatos, deixando para o público o julgamento do que é certo e errado na história.

Todas essas nuances sofridas pelo personagem convencem graças a mais uma ótima atuação de Denzel Washington, conseguindo transparecer a dependência de Whip e alternando bem entre seus estados de sobriedade e alteração. Além disso, o ator é habilidoso em evitar que o protagonista se tornasse desprezível às vistas da audiência, pelo contrário, seu papel aqui é de passar simpatia, mesmo com os defeitos evidentes do personagem.

Contudo, ao mesmo tempo que a narrativa constrói um arco interessante para Whip, a mesma acaba descartando personagens com potencial dentro da trama, como Harling, interpretado comicamente por John Goodman, mas que jamais é explorado pelo roteiro. No entanto, a personagem mais problemática é Nicole, iniciando o filme como uma pessoa que já se prostituiu para comprar drogas, para logo após tornar-se alguém consciente e livre dos vícios, isso em apenas um ato, sem nenhum tipo de desenvolvimento, soando até mesmo como uma atitude aleatória. Portanto, todas as subtramas soam como completamente descartáveis dentro da proposta, que visivelmente prioriza seu protagonista e nada mais.

Na prática, o acidente com o avião serve apenas como motor da trama, mas é justamente nessa sequência que a direção de Zemeckis se destaca. Além dos ótimos efeitos especiais que tornam o voo invertido crível, o diretor cria tensão durante a cena através do ótimo trabalho de som, que estrategicamente insere um ruído de turbina para tornar a situação incômoda; e utilizando uma câmera sempre trêmula, mas que não impede o público de entender o que se passa na tela, transmitindo com precisão o perigo do momento. No entanto, com o decorrer da projeção, Zemeckis mostra-se mais discreto atrás das câmeras, arriscando apenas alguns travellings pontuais para inserir um pouco de carga dramática em determinadas cenas, como no julgamento do piloto no clímax do filme.

Aliás, a bem dirigida cena da audiência encaminha a obra para um final bastante competente, principalmente por sua mensagem, uma vez que, caso a história fosse para um caminho diferente, poderia transmitir a errônea ideia de que com uma boa mentira qualquer vício é aceitável. No entanto, não é isso que acontece, o filme finaliza deixando claro como todos, independente do tempo, necessitam encarar as consequências de suas escolhas, sendo uma conclusão correta para o arco de Whip.

A trama de O Voo não deixa de ser semelhante a Náufrago, contudo, dessa vez, é o vício que isola o protagonista dos demais. No entanto, ao contrário do filme de 2000, seu trabalho aqui contém falhas visíveis, como algumas subtramas descartáveis, mas são detalhes que não impedem o longa de ser mais um satisfatório estudo de personagem dentro da filmografia de Robert Zemeckis.

O Voo (Flight) – EUA, 2012
Direção: Robert Zemeckis
Roteiro: John Gatins
Elenco: Denzel Washington, Tamara Tunie, John Goodman, Kelly Reilly, Melissa Leo, Don Cheadle, Nadine Velazquez, Bruce Greenwood, Brian Geraghty, James Badge Dale
Duração: 139 min

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.