Crítica | Obsessão (2012)

duasestrelas

Lee Daniels estreou na direção em 2005, com Matadores de Aluguel. Ali, já se erguiam os ingredientes de sua filmografia, a saber, a exposição da condição do negro na sociedade, as muitas formas de violência, a sexualidade e as complexas relações interpessoais, colocando em cada filme o foco em um problema específico, como podemos ver em obras bastante distintas como Preciosa (2009) e Obsessão (2012).

Obsessão é um título duplicado aqui no Brasil, já que o filme de Luchino Visconti, de 1943, também tem esse nome. Seria interessante se a distribuidora tivesse dado um título que tivesse mais a ver com a trama e evitasse mais essa dobradinha desnecessária.

O filme de Lee Daniels tem como mote a jornada de Ward Jansen, que volta à sua cidade natal com um amigo jornalista para investigar a prisão de um homem condenado à pena de morte. A dupla tenta provar – com base em algumas suspeitas e trazendo à tona o discurso dos direitos humanos – a inocência do acusado, o grotesco Hillary Van Wetter, interpretado maravilhosamente por John Cusack. A trama anda às voltas (perceba que eu não escrevi “avança”, como seria natural) com essa questão e com alguns conflitos entre protagonistas e coadjuvantes.

Baseado no romance de Peter Dexter, The Paperboy (1995), o roteiro do filme tenta de uma maneira quase absurda trazer o máximo de materialidade de literatura para a tela, e o resultado é um filme que desesperadamente se esforça para causar uma experiência de relato ou crônica para o espectador, falhando grandiosamente. Ao usar maneirismos estéticos a fim de dar conta dessa opção narrativa, o diretor desvia a atenção do público e joga com a imagem de uma forma que não cabe no tema e destoa do que ele mesmo realiza em todo o restante do filme.

A narração como guia da história foi uma boa escolha, e mesmo com a postura blasé da atriz Macy Gray, eu gostei de sua personagem, a empregada Anita, que nos conta a história a partir de um ponto onde tudo já aconteceu. Nesse sentido, Obsessão é um filme de consequências ocultas. Nós sabemos, já de início – devido aos clichês básicos desse tipo de roteiro – que algo trágico está por vir, mas não há indicações do quê, exatamente. A descoberta, pelo menos para mim, foi uma surpresa, mas nada chocante. Não sei se pela frieza ou linearidade dramática de Cusack ao interpretar esse “ato final”, mas a cena não me causou impacto algum.

E por falar em impacto, não consigo entender o por quê da polêmica em torno da cena em que a personagem de Nicole Kidman urina no corpo e no rosto da personagem de Zac Efron. Trata-se de uma cena descartável (como toda a sequência da praia), e só. Não há motivos para esse afã todo.

Perdendo-se em meio a liberdades estéticas, planos tortos e montagem de ritmo bastante variável, Obsessão acaba sendo uma experiência chateante. Salvo as boas interpretações do elenco (exceção a Zac Efron, cuja cara constante de “cute boy com sono” irrita qualquer um, além do fato de o diretor tentar compensar essa falta de interpretação deixando o corpo do ator, digamos… atuar sozinho), não temos assim tanta coisa boa para ser destacada e aplaudir com gosto. Alguns setores técnicos como a fotografia e a trilha sonora funcionam muito bem, imprimindo uma identidade fantástica à obra, mas como o conteúdo não acompanha essa qualidade, o filme ganha contornos de estesia, o que faz com que o vejamos com olhar menos apaixonado nesse quesito.

Obsessão é um filme que acaba valendo pela experiência de ver esse o reunido (menos Zac Efron) e o tipo de trabalho que realizam, mas a obra como um todo é fraca e muitas vezes incomoda o espectador; não com aquele incômodo existencial, mas com aquele de coisa mal feita ou defeituosa que faz qualquer cinéfilo contar os intermináveis minutos para que os créditos finais comecem a subir na tela.

Obsessão (The Paperboy) – EUA, 2012
Direção: Lee Daniels
Roteiro: Peter Dexter e Lee Daniels
Elenco: Zac Efron, Matthew McConaughey, Nicole Kdman, John Cusack, David Oyelowo, Scott Glenn, Ned Bellamy, Nealla Gordon, Macy Gray
Duração: 107 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.