Crítica | Oceanos (2009)

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Oceanos é um filme visualmente deslumbrante, fator preponderante para que possamos seguir o seu avanço enquanto documentário até o final, haja vista a morosidade que toma a tela em alguns momentos propositalmente lentos. No lugar das cenas radicais com ondas gigantescas, cenas de predadores montadas para causar medo e mistério, durante os 104 minutos de duração, os realizadores nos mostram uma espécie de balé da natureza, com imagens que prezam mais pela poesia do fundo do mar, um espaço que sabemos, é dotado de imensa beleza, mesmo com a presença cada vez mais ameaçadora dos seres humanos.

Dirigido por Jacques Perrin e Jacques Cluzaud, o documentário é uma produção entre a França, Espanha e Suíça. Ao longo da narrativa, acompanhamos cenas de baleias se alimentando, enormes tubarões-brancos em contato com mergulhadores, raias e outras espécies mais raras registradas em enquadramentos sofisticados, golfinhos em diversos momentos de locomoção pelos oceanos e orcas exuberantes que exalam charme e “esperteza”. Tudo isso pelos cinco oceanos que formam a constituição aquática do planeta Terra: Pacífico, Atlântico, Índico, Ártico e Antártico. O Glacial Ártico e o Glacial Antártico são tratados por alguns especialistas como grandes mares, mas como de maneira geral se encontram na lista dos cinco oceanos registrados no planeta, o documentário, tampouco a crítica em questão, não estão interessados em levantar problematizações sobre o assunto.

Diante do exposto, contemplamos as imagens registradas sobre os oceanos que banham as faixas territoriais de nosso planeta, compreendo a importância dessas águas para a humanidade continuar no avanço de seus projetos de vida. Produtores de oxigênio, os oceanos são os responsáveis por regular a temperatura ao redor do planeta, tendo como responsabilidade interferir na dinâmica atmosférica e nos diferentes tipos climáticos. Ao também aquecer as relações econômicas e ser meio de transporte, o espaço em questão é a fonte de extração do magnésio (utilizado na fabricação de ligas metálicas), do sal de cozinha, do bromo que subsidia as indústrias farmacêuticas, bem como a seara da alimentação e da fotografia, tendo ainda o futuro e provável papel de ser fornecedor de areia para a construção civil e a reconstituição de algumas praias nos próximos anos. Tais questões não são citadas didaticamente no documentário, mas fazem parte de informações do senso comum e que nos ajuda a entender a preocupação dos realizadores em apresentar a beleza que as águas proporcionam, para provavelmente conscientizar plateias sobre a necessidade de preservação.

A poesia e a discrição são deixadas de lado, próximo ao final, quando o panfleto ameaça tomar a frente do discurso. Os realizadores registram um brutal grupo de caçadores em busca de tubarões. Eles arrancam a barbatana e outras partes e abandonam o animal ainda com vida para a morte, pois como se sabe, os tubarões precisam se movimentar para manter a respiração, afinal, sem a barbatana não conseguem equilíbrio, afundam e morrem. Animais importantes para o equilíbrio da vida nos oceanos, os tubarões são massacrados para fins alimentícios (a famosa sopa de barbatana) e de entretenimento (a caça), o que já levou algumas espécies à beira da extinção.

Narrado por Pierce Brosnan na versão em língua inglesa e por Jacques Perrin na versão francesa, o documentário foi produzido com tecnologia de ponta. Microfones subaquáticos captam sons ainda não contemplados em produções do tipo. A fotografia preza por imagens submarinas sofisticadas e registradas por técnicas pouco comuns até a época do lançamento. A trilha pouco intrusiva e delicada de Bruno Coulais também faz a diferença, bem conectada com a montagem que preza por câmera lenta, contemplação dos instantes mais belos e reflexão, diferente do que geralmente estamos acostumados ao assistirmos este tipo de material.

Lançado em 2009, Oceanos é um documentário eficiente e diferenciado. Com roteiro assinado por Jacques Perrin, François Sarano, Laurent Debas, Laurente Gadé e Stephane Durand, o tom político é equilibrado, tendo em vista a sua crítica aos problemas da ação humana no ecossistema marinho, em especial, os danos da pesca predatória e a poluição dos oceanos, temas que são subtexto de um documentário focado na beleza das suas imagens, registros poeticamente fotografados para tornar a experiência do espectador algo além das aventuras radicais típicas desse tipo de narrativa.

Oceanos — (Oceans) Espanha, 2009.
Direção: Jacques Cluzaud, Jacques Perrin
Roteiro:  Jacques Cluzaud, Jacques Perrin, Laurent Debas
Elenco:  Christophe Cheysson, François Sarano, Jacques Cluzaud, Jacques Perrin, Laurent Debas, Laurent Gaudé, Stéphane Durand
Duração: 104 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.