Crítica | ODY-C – Vol. 1: Off to Far Ithicaa

estrelas 4,5

Sabe quando uma HQ deixa o leitor completamente transfixado com sua arte? Pois bem, isso acontece o tempo todo com o primeiro volume de ODY-C, projeto autoral de Matt Fraction e Christian Ward para a Image Comics. E o bônus é que se trata de uma reinterpretação do poema épico Odisseia, atribuído a Homero, clássico grego que conta a conturbada – para usar um eufemismo – volta de Odisseu (ou Ulisses, como sempre preferi, apesar de saber que esse é o nome do mito romano do mesmo personagem) para casa, na ilha de Ítaca, depois da Guerra de Troia, objeto da Ilíada.

ody c capaMatt Fraction pega o mito e faz duas grandes modificações: (a) transfere-o para o espaço e (b) transforma todos os personagens, inclusive os deuses, em mulheres. Enquanto a primeira modificação parece ter a função de permitir que Christian Ward solte completamente as amarras de seus lápis e pincéis, a segunda parece ser, apenas, um artifício bobo de parecer progressista, na onda de criar personagens femininas fortes. Mas deixe-me explicar antes que meus leitores comecem a achar que sou contra a troca de gênero de personagens clássicos.

E vou começar justamente por aí. Fraction, ao estabelecer que, nesse seu universo, Zeus proibiu o nascimento de seres do sexo masculino – com pouquíssimos fugindo a essa regra – recriou toda a mitologia com mulheres nos lugares dos homens. Até aí, nenhum problema. Pouco importa se Zeus é homem ou mulher ou se Odisseu é Odyssia. A questão é que Fraction mantêm todos os seus personagens essencialmente os mesmos. Odyssia é Odisseu com seios e cabelos compridos. Continua sendo uma inteligente guerreira que faz de tudo para voltar à Penélope e seu filho Telem (ela, aparentemente, tem um dos únicos filhos homens). Zeus é igualmente cheia de vontades, adúltera e vingativa. Não há, pelo menos nesse primeiro volume, qualquer função maior para a troca de sexo que não seja a tentativa de colher elogios por “ser moderno”, por “quebrar tabus”, por “fortalecer as mulheres”. Fraction deveria ter encontrado razões mais elevadas para fazer isso, mas, claro, pode ser que, em seu plano de longo prazo, nos futuros números da série, essa questão seja abordada mais apropriadamente e a impressão de oportunismo desapareça.

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Deslumbrem-se!

Mas, como eu mesmo estou dizendo que essa mudança não altera a história, ela não é, portanto, relevante para a narrativa, pelo menos não nesse primeiro volume. Com isso, somos logo apresentados à poderosa e aparentemente invencível Odyssia, líder da nave Ody-C – em um belo formato de pulseira – ao final de 100 anos de guerra contra Troiia-VII. Ela e suas guerreiras desejam, apenas, voltar para a casa, a longínqua Ithicaa. Mas os caprichos das deusas – Zeus e Poseidon – as desviam do caminho e, começa, efetivamente, sua odisseia para voltar para casa. E, nesse ponto, é que a estupenda arte de Christian Ward entra no jogo, capturando a imaginação dos leitores e fazendo seus queixos caírem.

Não duvidem: a arte, em ODY-C, é algo para ser admirado com louvor. Com a liberdade que a aventura espacial e a editora permitem, Ward solta as rédeas completamente e nos assalta com um trabalho cujas páginas merecem ser arrancadas da revista, enquadradas e penduradas na parede. Não só ele tem o cuidado de recriar o mito completamente, com versões diferentes, mas sem trair o original de Circe e Polifemo, como ele trabalha com um traço e com cores lisérgicas, literalmente fazendo o leitora entrar na viagem desesperada de Odyssia. Ele esbanja spreads duplos cheios de significado e, especialmente, cheios de camadas, que precisam literalmente ser estudados pelo leitor. Simplesmente passar as páginas, aqui, não resolverá. Cada detalhe da “loucura” de Ward precisa ser absorvido com calma. E isso vale tanto para as sequências de ação como também para as sequências contemplativas como a caminhada pelo templo de Promethene em uma literal descida ao inferno cheia de círculos concêntricos e camadas e mais camadas embrulhadas em cores fortes (também de Ward) que saltam aos olhos.

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Nunca a descida ao inferno foi tão bela!

O mesmo vale para a forma como Ward recria viagens espaciais, emprestando aspectos orgânicos à nave de Odyssia e, também, à operação em si. Apesar de poder ser facilmente classificada como uma obra de ficção científica, o artista evita completamente o uso de elementos batidos, como aparelhos eletrônicos ou tecnologia fria. Tudo é semi-orgânico, com envolvimento direto das guerreiras que precisam se fundir fisicamente à nave para fazê-la funcionar. Com isso, Ward esbanja na conotação sexual, fazendo trabalho semelhante – mas diferente, se é que me entendem – ao que H.R. Giger fez em Alien, o 8º Passageiro. Há sugestões de orifícios vaginais, penetrações e uma sexualidade à tona em quase todos os quadros envolvendo as guerreiras e as deusas, mesmo na sequências de ação.

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Olhem só esse dois double spreads (seguidos) representando parte da viagem interplanetária!

Em termos narrativos, vale notar que Fraction usa a terceira pessoa quando lida com Odyssia e sua equipe, mantendo o estilo “poema épico” ao longo de toda a narrativa. É como se o próprio Homero (ou, no caso, provavelmente a versão feminina de Homero) contando-nos sobre o périplo da guerreira. Há, assim, uma espécie de distanciamento e uma certa frieza até, mas que são compensadas plenamente pelo calor da arte de Christian Ward. Já no que diz respeito às deusas, Fraction faz uso de diálogos diretos, dando a impressão que elas estão – como estão, na verdade – em plano superior, de presente, de imediatismo.

ODY-C merece toda a atenção dos leitores de quadrinhos. Não sei se um dia chegará a ser publicada no Brasil, considerando-se o quão pouco da Image é lançado por aqui, mas esse trabalho de Fraction e especialmente Ward precisa ser conhecido por todos os amantes da Nona Arte.

ODY-C – Vol. 1: Off to Far Ithicaa (EUA, 2014/15)
Contendo: ODY-C #1 a 5, publicado originalmente entre novembro de 2014 e maio de 2015
Roteiro: Matt Fraction
Arte: Christian Ward
Cores: Christian Ward
Letras: Chris Eliopoulos
Editora (nos EUA): Image Comics
Editora (no Brasil): não lançado no Brasil à época da publicação da presente crítica
Páginas: 123

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.