Crítica | Oito Mulheres e Um Segredo (2018)

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Steven Soderbergh foi muito claro em seu objetivo ao dirigir a trilogia Ocean’s: usufruir de uma história simples para exceder-se em relação a seus maneirismos. O que para muitos diretores seria uma zona de conforto, para Soderbergh sempre foi espaço para ousar, para atingir a total fluidez de planos e cenas e atingir o que seria o ápice de um filme de roubo, formalmente falando. Não são filmes com tramas incríveis e reviravoltas perigosas, pelo contrário, são filmes leves em comparação a produtos do gênero, mas o diretor nos leva ao patamar de mestre em que podemos ver tudo que acontece em um mundo expositivo onde tudo é observado, enquanto ele de forma cirúrgica e perspicaz da continuidade ao seu balé de corpos. Soderbergh é dos mais brilhantes voyeurs do cinema contemporâneo.

No entanto não falamos de Soderbergh, falamos de Gary Ross, que em Oito Mulheres e Um Segredo nos entrega toda a leveza de trama, bom-humor perspicaz e atuações acima da média sem o mesmo senso de magnitude que os últimos três filmes da franquia dispunham. A história começa após Debbie Ocean (Sandra Bullock), irmã de Danny Ocean, protagonista da trilogia, entrar em regime condicional após cinco anos presa. A ladra, que passou todos os dias encarcerada bolando seu plano, não perde tempo ao recrutar uma equipe para roubar um colar de diamantes valendo 150 milhões de dólares durante um baile de gala.

O time de Debbie é o grande ponto forte do filme. São personagens fortes e carismáticas, mesmo que as vezes apelando para estereótipos femininos. A sorte do filme é que Ross sabe que não é nenhum Soderbergh, então ele usa de suas limitações para dar ainda mais espaço às atrizes. O que falta em fluidez de imagens (algumas das transições de cena são muito próximas às oferecidas no Movie Maker) o filme ganha em astúcia e sinergia entre as meninas. Lou Miller (Cate Blanchett) e Debbie tem grandes momentos como parceiras, enquanto as outras tem lampejos de carisma em cena, instantes pontuais escritos para brilharem. Escolhas como a de Rihanna para o papel de hacker e Anne Hathaway, basicamente interpretando de forma irônica o mesmo papel que lhe é recorrente, são nitidamente formas de atrair mais o público, mesmo que sejam funcionais.

O filme até tem um ritmo acelerado que funciona, sem parecer muito apressado. O grande problema é quando a decupagem começa a falhar e as cenas passam a funcionar melhor isoladas do que um todo, como se fossem sketches. Exemplo disso são as sequências onde cada uma das ladras é contratada. São praticamente slides de uma apresentação explicando como cada uma das personagens age, suas inseguranças e um prenúncio do que cada uma delas irá fazer até o fim do filme. Pouco a pouco você percebe que algumas piadas não funcionam e que o tom leve acaba oprimindo-se. Enquanto a montagem dos três filmes originais sempre desafiava-se e Soderbergh fazia daquele espetáculo puramente hollywoodiano seu playground, Oito Mulheres é as vezes descontraído demais e beira o inofensivo.

Maior parte do tempo de tela é dado à preparação do crime, destrinchando todo o plano detalhado por Debbie durante seus cinco anos, oito meses e doze dias presa. O tom cômico consegue passar veracidade e, mesmo quando algo aleatório acontece, o espectador não se sente deslocado do filme. O roubo em si é bem menos ousado que o esperado, e segue apenas como uma consequência daquilo que foi planejado durante o resto do filme, sem reviravoltas ou improvisos. Há também as consequências do próprio roubo, que acabam sendo tão leves e cômicas quanto o resto do filme.

Não espere grandes emoções. Oito Mulheres e um Segredo é divertido e deixa qualquer um satisfeito ao final da sessão, mas não é destemido, e busca sempre a estabilidade. O elenco feminino é muito bom e é importante termos um filme estrelado majoritariamente por mulheres onde o homens ou romance jamais são abordados. Faltou a mão de um autor como Soderbergh para deixar o material um pouco mais interessante, mas o resultado final é, no mínimo, um belo exemplo de representatividade.

Oito Mulheres e Um Segredo (Ocean’s Eight) – EUA, 2018
Direção: Gary Ross
Roteiro: Gary Ross, Olivia Milch
Elenco: Sandra Bullock, Cate Blanchett, Anne Hathaway, Helena Bonham Carter, Rihanna, Sarah Paulson, Mindy Kaling, Awkwafina, Dakota Fanning, Richard Armitage, James Corden
Duração: 120 min.

BRUNO DOS REIS LISBOA PIRES . . . Escrevo sobre cinema e falo ladainha, as vezes os dois ao mesmo tempo. Entusiasta do cinema vulgar. John Carpenter, Howard Hawks e Neville de Almeida me ensinaram tudo que eu sei, pena que eu matei muita aula. Geralmente minha opinião é contrária a dos outros, mas eu sou a favor de termos a mesma só pra ser do contra. Ao caminhar entrevi lampejos de beleza.