Crítica | Okja

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estrelas 5,0

Cercado de controvérsia no Festival de Cannes de 2017Okja, enfim, chega à Netflix, possibilitando que o espectador tenha total consciência da estupidez daqueles que vaiaram a obra antes de assisti-la, somente por contemplarem o logo da gigante do streaming. Tal postura evidencia o conservadorismo adotado pelos responsáveis por tais premiações (a Academia também está nesse grupo), que impede a modernização do cinema, a tal ponto que não enxerga um filme como arte a não ser que tenha sido exibido em uma tela grande. Aqui abro a pergunta: vocês assistiram O Poderoso Chefão, pela primeira vez, nos cinemas? E quanto a 2001 – Uma Odisseia no Espaço, Cidadão Kane, Os Sete Samurais O Sétimo Selo? Essas e mais outras não são consideradas obras-primas da sétima arte? Qual o sentido, portanto, desse pensamento retrógrado? Evidente que não defendo a Netflix como uma entidade santa, trata-se de uma empresa como qualquer outra – a defesa, aqui, é a favor da diversidade, que possibilita uma maior pluralidade para que os realizadores exibam seus filmes, fugindo da soberania dos grandes estúdios e seus universos compartilhados.

Em uma era na qual as pessoas são cada vez mais afastadas da sala de cinema, tendo de pagar fortunas, restando a opção de escolher um ou dois filmes por mês para ver na tela grande, qual a possibilidade de uma obra autoral, que não seja de um diretor aclamado, gerar lucro? Mesmo Scorsese irá lançar seu novo filme através do streaming, isso não mais do que prova a relevância de tais plataformas na atualidade? Deixo tais questões a vocês, leitores, para que reflitam, pegando o caso específico de Okja, que jamais seria exibido em salas de cinema fora das grandes capitais, mesmo com todo o alvoroço gerado em Cannes. Essa é a situação na qual vivemos, na qual cegos conservadores se colocam no caminho do progresso. Evidente que não acredito que o cinema como experiência deve acabar, mas ele deve evoluir.

Mas divaguei o suficiente e esse texto há de abordar o que fez do mais novo filme original da Netflix ser merecedor da indicação à Palma de Ouro.

A trama gira em torno de Mikha (Seo-Hyun Ahn), uma garota sul-coreana, que vive em uma cabana no meio da floresta junto de seu avô e seu superporco, Okja. Essa criatura fora entregue a eles e mais outros fazendeiros, há dez anos, como parte de um concurso realizado por uma grande empresa a fim de revolucionar a pecuária ao redor do mundo, com um animal capaz de prover muito mais alimento que os atuais. Mikha, porém, jamais esperava que tal empresa viria para coletar Okja depois de tanto tempo, a levando para Nova York, onde, claro, seria exposta em um grande lançamento de produto e depois abatida para o consumo humano. Cabe à garota arranjar uma forma de resgatar o animal e, no processo, acaba cruzando caminho com membros da ALF (Frente de Libertação Animal), que possuem a própria agenda.

Ao terminar a exibição, fica bastante claro que a mensagem passada por Okja funciona como um alerta de como tratamos os animais na atualidade, expondo os maus-tratos pelos quais tais criaturas são submetidos, com o diretor e roteirista Joon-ho Bong chegando a criar um impactante paralelo com os campos de concentração. Bong, apesar dos elementos fantásticos presentes na trama, se apoia no realismo para compor tais paralelos, exibindo a realidade de forma crua, transformando a divertida atmosfera do filme em um retrato sórdido e perturbador, que nos faz rever nossas posições – e vejam, que escreve isso é um amente de carne, portanto podem imaginar a força das imagens criadas pelo realizador. Tudo isso, claro, é envolto pela história da menina que quer ir para casa junto dessa sua companheira animal.

Uma segunda camada do longa-metragem lida com a desmistificação de grandes empresas, as quais, através do marketing, criam a ilusão de serem “boazinhas”, algo, ironicamente, atrelado à própria Netflix, cujos assinantes tiveram um choque de realidade com os recentes cancelamentos de séries, especialmente Sense8. A principal finalidade de uma empresa é gerar lucros, ela não é boa ou ruim e o roteiro da obra deixa isso bem claro, especialmente mais próximo ao seu desfecho. O que o diretor nos mostra é a quebra dessa ilusão criada pelo público, ao mesmo tempo que não deixa de revelar a realidade: mesmo com a verdade tendo sido colocada à mostra, o público alvo continuará consumindo os produtos de tal companhia. Mais uma vez, portanto, Joon-ho Bong mistura a fantasia, através da expectativa do espectador de ver a empresa fictícia do filme sendo levada à ruína, com a realidade, ao mostrar que nada irá acontecer com essa multinacional.

Tudo isso é pintado e recheado com a bela aventura da menina sul-coreana, através de ágeis movimentos de câmera e dinâmica montagem, que criam a sensação de que o filme simplesmente não para. Isso se demonstra essencial quando alcançamos trechos mais calmos, com a câmera mais estática, possibilitando maior impacto no espectador. Enxergamos isso com clareza nas reuniões da empresa e na desconcertante sequência dentro de determinado laboratório, que nos faz ansiar pelo lado mais fantasioso da história, em razão do desconforto e tensão gerados. O roteiro sabe muito bem intercalar essas duas atmosferas, criando uma narrativa que nos atinge em cheio, enquanto nos diverte do início ao fim, a tal ponto que não conseguimos tirar os olhos da tela.

Não bastasse isso, o longa ainda traz excelentes atuações de todo o seu elenco, desde a carismática Seo-Hyun Ahn, passando pela duplicidade da talentosa Tilda Swinton, que pinta um retrato humano do mundo corporativo, até o excêntrico personagem de Jake Gyllenhaal, que mais uma vez prova ser um dos atores mais versáteis da atualidade. Embora não tenha muito tempo em tela, ele certamente rouba nossa atenção sempre que está presente, sendo, sem dúvidas, uma das figuras mais perturbadoras da trama, exagerado, claro, mas na medida que a narrativa pede, dialogando com a própria intenção dos realizadores em nos divertir ao mesmo tempo que causam arrepios.

Há de ser louvado, também, todo o trabalho de efeitos especiais, que fazem de Okja uma criatura extremamente amável e carismática. A textura de sua pele é extremamente real e o diretor sabe disso, optando por ousados closes que não temem a superexposição da computação gráfica. Tratando-se de um filme autoral, não é algo que vemos todos os dias em um longa-metragem. É preciso atentar para os seus olhos, que em nada diferem dos humanos (a não ser pelo tamanho, claro), deixando bem evidente a necessidade de se respeitar tais criaturas, por mais que precisemos de sua carne para sobreviver – dilema esse, que o longa não se propõe a resolver, afinal, o foco principal está na tentativa de Mikha em retornar à casa junto de sua companheira animal.

Okja, portanto, mais do que mereceu sua indicação à Palma de Ouro desse ano, tornando um absurdo o fato do filme ter sido vaiado antes mesmo de começar. Joon-ho Bong constrói uma bela atmosfera que mistura a fantasia com a triste realidade, abordando questões bastante atuais, as quais revelam os lados podres da humanidade, trabalhando questões como os maus-tratos de animais e a mistificação de empresas. Temos aqui uma aventura, que, na mesma medida que nos entretém, gera aquele necessário desconforto, nos tirando do lugar comum. Uma obra impactante que se faz relevante, independente da tela na qual é exibida.

Okja — Coréia do Sul/ EUA, 2017
Direção:
  Joon-ho Bong
Roteiro: Joon-ho Bong, Jon Ronson
Elenco: Tilda Swinton, Paul Dano, Seo-Hyun Ahn, Giancarlo Esposito, Jake Gyllenhaal, Je-mun Yun, Shirley Henderson, Steven Yeun, Daniel Henshall, Lily Collins, Devon Bostick
Duração: 118 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.