Crítica | Oldboy

estrelas 4,5Quando lançou Mr. Vingança e conseguiu, de forma ainda tímida, despertar a atenção de uma pequena parcela da crítica e do público (público esse mais alternativo, diga-se), Chan-wook Park estava dando apenas um vislumbre de sua capacidade singular como contador de histórias. Oldboy, seu filme seguinte e a segunda parte da elaborada Trilogia da Vingança trouxe para Chan-wook o reconhecimento merecido e uma repercussão nada menos que digna para sua trilogia. Vencedor da Palma de Ouro em Cannes, Chan-wook viu na conquista do prêmio a oportunidade de suas obras serem mais conhecidas comercialmente, algo obtido com êxito. E não por menos, o diretor Spike Lee irá surgir em breve nos cinemas com sua versão americana para a obra original de Chan-wook.

Mas deixemos o futuro temeroso de lado e foquemos no filme em questão. Quase que em unanimidade, Oldboy é considerado a obra-prima do diretor sul-coreano, o que não seria uma afirmação nada injusta: o diretor se aperfeiçoa no requinte visual, na narrativa viciante, na elaboração de cenas não recomendadas para os fracos de estômago, mas que jamais soa gratuitas. Oldboy é um filme ainda mais profundo no tema da vingança, além de ser um dos thrillers mais inteligentes dos últimos anos.

Baseado em um quadrinho japonês de mesmo nome, Oldboy é um daqueles filmes que pede poucas revelações sobre sua sinopse, uma vez que qualquer tropeço pode estragar alguma das surpresas dos filmes. Basta saber que após ficar preso num suposto quarto de hotel durante 15 anos sem nenhum motivo aparente, Oh Dae-su (Min-sik Choi) é libertado e praticamente de imediato, decide ir atrás de vingança e respostas para o acontecido. Pronto, está armado o cenário para que esta trama aparentemente banal ganhe contornos surpreendentemente insanos, e ao mesmo tempo, lógicos.

O melhor da trilogia de Chan-wook sobre este tema está na construção de seus personagens, que jamais se entregam aos estereótipos do bom e do mau, do mocinho e do bandido. Em Oldboy, temos figuras complexas e moralmente desvirtuadas, onde o diretor evita julgar qualquer uma de suas ações,sejam elas quais forem. Desta forma, é conferida uma humanidade inesperada aos personagens, que sem perceber, acabam remetendo a nós mesmos, seres gananciosos, nos permitindo refletir: o que faríamos se estivéssemos na situação dos personagens? Iríamos atrás de respostas? Ou nos conformaríamos com a libertação do cativeiro. Oldboy é um estudo sobre o caminho mais trágico destas escolhas, assim como suas consequências.

Assim sendo, Oldboy é um filme recomendado para poucos, não apenas por sua narrativa crua e sombria (o trabalho de fotografia é magnífico e acentua esse clima), mas também pelo sadismo das cenas elaboradas por Chan-wook. Remetendo de imediato (embora o objetivo talvez não tenha sido esse) ao cinema de Quentin Tarantino, Oldboy traz um bom número de sequências insanas e escatológicas, que vão desde Oh Dae-sue comendo um polvo vivo (e como já dito, nenhuma destas cenas soa gratuita, cada uma possui seu objetivo), até a longa sequência de luta num corredor mal iluminado, num dos plano-sequência mais impressionantes já vistos nos últimos anos, onde durante três minutos acompanhamos a câmera capturando, sem pudor nenhum, a intensidade do confronto diante de uma coreografia lindamente bem elaborada.

Ao final, Oldboy é o que Mr. Vingança foi, porém potencializado e com surpresas ainda mais fascinantes. É tudo mais sombrio, sujo e moralmente desvirtuado. Tal como é o ser humano. É o tipo de filme que o cinema americano jamais teria coragem em produzir (tal como Battle Royale, que encontrou sua versão juvenil e amenizada em Jogos Vorazes), o que só nos faz temer ainda mais pelo remake de Spike Lee. De qualquer forma, o original de Chan-wook Park segue como uma obra-prima singular e absolutamente fascinante.

Oldboy (Oldboy, Coréia do Sul, 2003)
Roteiro
: Garon Tsuchiya e Nobuaki Minegishi
Direção: Chan-wook Park
Elenco: Min-sik Choi, Ji-tae Yu, Hye-jeong Kang, Dae-han Ji, Dal-su Oh, Byeong-ok Kim, Seung-Shin Lee, Jin-seo Yun
Duração: 120 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.