Crítica | Olhos da Justiça

estrelas 3

A ideia de refilmar o brilhante filme argentino O Segredo dos Seus Olhos é uma ameaça antiga que parecia esquecida, dado o pouco de notícias que tivemos sobre o tal projeto. E, quatro anos após a vitória do longa no Oscar de filme estrangeiro, eis que Billy Ray nos traz seu próprio olhar da história, com Olhos da Justiça.

Não há muito de diferente do original. A trama começa quando a filha da agente anti-terrorista Jess (Julia Roberts) é encontrada assassinada em uma lata de lixo. Seu melhor amigo Ray (Chiwetel Ejiofor) fica obcecado pelo caso e pelo desejo de encontrar justiça para a companheira, ao mesmo tempo em que lida com uma paixão incontrolável por sua superior, Claire Sloan (Nicole Kidman). Depois de 13 anos de investigação sem resposta, Ray reúne a equipe para confortar seu espírito e enfim capturar o assassino.

Curto e grosso: esse remake não precisa existir. Não é nenhuma surpresa que o resultado aqui não chegue aos pés do trabalho de Juan Jose Campanella, que conseguiu com sucesso criar um thriller movido por um romance forte e ainda nos presentear com coisas de outro mundo, como o excepcional plano sequência no estádio de futebol. Aqui, Billy Ray troca o futebol por beisebol e nem se arrisca a tentar fazer algo estimulante, transformando o ponto alto do longa argentino em uma simplista perseguição com câmera na mão e montagem incessante. As viradas da história são mantidas do mesmo jeito, mas é mesmo a mudança na personagem de Julia Roberts que causa mais diferença.

No original, tínhamos uma esposa assinada, ao invés da filha da melhor amiga do protagonista. Assim, a relação entre Ray e Jess acaba ficando forte demais, deixando completamente ofuscada a Chloe de Nicole Kidman, prejudicando também o fato de que nunca acreditamos no desejo que Ray sente por esta. Bom, a menos quando vemos o sensacional Chiwetel Ejiofor atuando, em uma performance que literalmente carrega o filme nas costas; não deixando nada a dever para o ótimo Ricardo Darín. Kidman pouco pode fazer para uma personagem deixada em segundo plano e Julia Roberts traz uma de suas mais expressivas performances nos últimos anos, conseguindo com sucesso transmitir a dor da perda de sua personagem.

Billy Ray, que também assina o roteiro, acerta na forma com que transporta a história da Argentina para os EUA. Ao estabelecer o núcleo do passado em 2002, Ray traça uma Los Angeles mergulhada na paranóia pós-11 de Setembro, de burocratas obcecados em manter a vigilância (Ray acertadamente traz um plano discreto onde vemos câmeras sendo instaladas na rua) até profetas do apocalipse gritando às ruas que “Bin Laden e Saddam Hussein têm armas químicas”. A atmosfera é sólida e envolvente, ainda que os saltos temporais não tenham muitos elementos que contribuam no peso dos anos passados; a barba embranquecida de Ray e os computadores e tubo são alguns dos poucos guias, que poderiam ter se manifestado na direção de fotografia – presa à mesma paleta – ou com mais detalhes no nos cenários.

Olhos da Justiça não chega a ofender, mas é uma refilmagem que certamente terá vida curta para aqueles que conhecem o maravilhoso filme argentino no qual este é baseado. Funciona pelo elenco e a transposição eficiente, mas realmente não precisava existir.

Olhos da Justiça (Secret in their Eyes, 2015 – EUA)
Direção: Billy Ray
Roteiro: Billy Ray
Elenco: Chiwetel Ejiofor, Nicole Kidman, Julia Roberts, Michael Kelly, Dean Norris, Lyndon Smith, Zoe Craham, Alfred Molina
Duração: 111 min.

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.